<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-4664356695252564512</id><updated>2012-02-16T17:10:17.627-08:00</updated><category term='Capítulo 12'/><category term='Capítulo 16'/><category term='Capítulo 09'/><category term='Capítulo Extra 1'/><category term='Capítulo 05'/><category term='Capítulo 11'/><category term='Capítulo 15'/><category term='Capítulo 04'/><category term='Capítulo 13'/><category term='Capítulo 01'/><category term='Capítulo 03'/><category term='Capítulo 20'/><category term='Capítulo 06'/><category term='Capítulo 14'/><category term='Capítulo 07'/><category term='Capítulo Extra 2'/><category term='Capítulo 22'/><category term='Capítulo 10'/><category term='Capítulo 21'/><category term='Capítulo 02'/><category term='Capítulo 17'/><category term='Capítulo 19'/><category term='Capítulo 18'/><category term='Capítulo 08'/><title type='text'>Biohazard: A limpeza</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://biohazardalimpeza.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4664356695252564512/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://biohazardalimpeza.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Silas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08560610846360060486</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/ScXDtIGMN9I/AAAAAAAAABQ/YF39-2VxJ3k/S220/zumbi.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>24</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4664356695252564512.post-6803179948999313376</id><published>2010-02-04T09:45:00.000-08:00</published><updated>2010-02-04T09:45:59.125-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Capítulo Extra 2'/><title type='text'>Capítulo Extra 2</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/S2sG4FRV3SI/AAAAAAAAAWs/a9Q4fgO0N70/s1600-h/major+robert.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="640" src="http://3.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/S2sG4FRV3SI/AAAAAAAAAWs/a9Q4fgO0N70/s640/major+robert.jpg" width="427" /&gt;&lt;/a&gt;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;Robert estava deitado numa rede.&amp;nbsp; Sabia que era a casa de sua avó. Estava, como fazia quando criança, enrolado na rede. Não via nada, e todo o mundo se limitava àqueles poucos feixes de luz que entravam.&lt;br /&gt;Num momento ele tomou conhecimento de que sua avó estava morta, então saiu da rede. Todo lugar havia sido consumido. Como que queimado. Tudo preto.&lt;br /&gt;A casa estava destruída e as duas árvores que sustentavam a rede agora eram grandes barras de ferro.&lt;br /&gt;O sol distorcia a imagem do terreno de tão quente, mas ele percebia com clareza as rachaduras no chão. Era um lugar de gramado alto naquela área. A idéia era de que todo o mundo tinha acabado, como numa grande guerra.&lt;br /&gt;Ele simplesmente não se importava.&lt;br /&gt;Um homem veio até ele, ao que o diálogo começou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem é você, velho, que invade o meu descanso com sua presença fétida? – perguntou Robert&lt;br /&gt;- Sou o seu mestre.&lt;br /&gt;- haha! Meu mestre?! Eu não tenho mestres!&lt;br /&gt;- Você nasceu a pouco tempo e, como toda a criança, é indefeso e débil. Não me considero um grande tirano, mas esse momento é crítico e vou precisar de você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se levantou e atacou o velho. Correu rapidamente na direção dele, que não se moveu nenhum milímetro. Quando ele chegou perto do oponente, este desapareceu e surgiu deitado na rede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Podemos fazer isso por toda a noite ou então você poderá me ouvir. – disse o velho&lt;br /&gt;- Vai se foder! – disse Robert&lt;br /&gt;- haha! Muito bom, filho. Igual ao meu companheiro rocker. Aparentemente indomável!&lt;br /&gt;- Não sou seu filho e se você não me deixar em paz ganhará um inimigo.&lt;br /&gt;- Você acha que busco tua amizade? Rapaz, eu não tenho amigos.&lt;br /&gt;- O que você quer de mim, então?&lt;br /&gt;- Você cruzou recentemente para um novo universo e a minha função aqui é te orientar e dar instruções acerca da nossa dimensão.&lt;br /&gt;- Do que você está falando?&lt;br /&gt;- Não sente esse fogo ardendo dentro de você? Tanto poder, tanto ódio!&lt;br /&gt;- Eu só vou me vingar. Então tudo estará terminado.&lt;br /&gt;- Não. Você já deu o primeiro passo. Nem se você morrer poderá morrer. Eu lembro bem do meu primeiro dia. Meu primeiro dia nesse reino das trevas. Sabe que esse ambiente é o que restou do antigo Robert. Esse lugar destruído. Eu via aquela cidade gloriosa totalmente destruída. Onde fui corrompido. Eu deveria ter sido um iniciado do bem.&lt;br /&gt;- Eu sinto sim. Conte sua história para eu aprender com ela. Quero saber.&lt;br /&gt;- Eu era um alto iniciado Egipcio. Um dos mais adiantados, segundo eles. Tinha dois amigos. Apenas nós três naquele nível. Os outros não gostavam de nós, porque pensavam ser uma injustiça termos sido colocados lá.&lt;br /&gt;- Como assim? Egito?&lt;br /&gt;- Sim. Meu corpo era muito saudável naquela época. Aliás, nossos corpos eram sem mácula, o que era parte de nossa provação para o bem. Haha! Como eu levava aquilo a sério!&lt;br /&gt;- Você é imortal, então?&lt;br /&gt;- Morte, morte. Sua linguagem é estúpida, porque associa morte a fim. Nascimento é fim. Nascer é infinitamente pior do que morrer.&lt;br /&gt;- Continue sua história.&lt;br /&gt;- Eu e meu amigo éramos secretamente apaixonados por ela. Até hoje eu não sei se ela amava um de nós. Eu era mais reservado e ocultava meu sentimento, mas ele sempre confessava para mim a violência de seus sentimentos por ela. Sabia que já havia amado ela em outras vidas. Ao mesmo tempo que eu gostava de ouvir por me identificar com cada palavra que ele dizia, aquilo também me preocupava. Toda a nossa pomposa elevação seria posta à prova por aqueles sentimentos. Só ela não sucumbiu. E eu que, a princípio, deveria ser responsável pelos dois.&lt;br /&gt;- O que aconteceu para se corromperem? – perguntou major Robert curioso&lt;br /&gt;- Começamos uma luta reservada. Sei que ele percebeu minhas intenções para com ela. Com o tempo passamos a nos odiar por causa dela. Eu soube depois que naquela vida nós dois dormimos com ela, mas que o filho era meu. Soubemos que era meu quando nasceu com o sinal que eu tinha na testa, do lado esquerdo. Eu tenho nesse corpo ainda, mas bem menor.&lt;br /&gt;Ele me odiou por aquele motivo e me desafiou para um duelo. Ele me matou, mas não voltou pra ela. Fugiu para o deserto e morreu de sede. Uma morte dolorosa. Enquanto morto, eu lhe sugeria ao espírito que ele fosse adiante e encontraria um Oasis. Mas ele nunca encontrou.&lt;br /&gt;Na outra vida nascemos numa pequena tribo isolada. Os líderes previram a nossa chegada como a volta de deuses à terra. Irônico termos sido colocados novamente na mesma situação.&lt;br /&gt;Mas já nascemos inimigos naquela vida, e embora respeitássemos os méritos um do outro, acabamos dividindo as tribos. Ela não aceitou a divisão e vivia dos dois lados da fronteira. Não havia ódio no coração dela. E no nosso, o amor foi desaparecendo.&lt;br /&gt;Entramos em guerra e devastamos aquelas tribos que, graças ao nosso conhecimento, havia crescido. Morri em batalha, mas um soldado prometeu me vingar. Matou ela e ele. Estavam transando. Eu soube, mais tarde, que esse soldado na outra vida havia sido o meu filho órfão. Se entregou ao ódio e me serviu.&lt;br /&gt;Não vou te contar mais detalhes, mas já te mostrei os personagens principais. Nossa luta durou ainda algumas vidas. Até que tudo perdeu o sentido. Acabou o ciclo, o criador veio até o mundo e ela foi levada embora. Para uma vibração á qual não poderíamos ir por conta dos nossos erros.&lt;br /&gt;Nos unimos em guerra contra o criador, usando todo o nosso poder mental e todos os humanos que escravizamos. Éramos ingênuos e fomos humilhados. Libertaram todos os nossos e nos expulsaram para o inferno.&lt;br /&gt;- Existe o inferno?&lt;br /&gt;- É um nome que dão ao lugar. Há quem o chame de outra maneira. Você deve ter visto que não me importam muito os nomes. Em cada vida eles mudam. Não possuem importância.&lt;br /&gt;- Certo, continue.&lt;br /&gt;- Eu não preciso continuar. Em breve você visitará o inferno e falará com o senhor da nossa causa. Saberá que não é com um homem que você está lidando, mas sim com o próprio universo. Sua causa aqui não é a mesquinha busca de benefícios pessoais, mas a de causa o caos. Você trará a morte para o mundo junto a nós, e os primeiros a você exterminar serão seus inimigos.&lt;br /&gt;- Então eu serei mais um servo da destruição do que um servo teu?&lt;br /&gt;- Suas palavras são primitivas. Você acha que terá que se submeter a mim, mas a verdade é que se submeterá apenas á destruição. Você poderá destruir sozinho e acabar morto, ou receber o nosso poder e destruir o mundo inteiro conosco. É sua escolha.&lt;br /&gt;- Eu vou pensar nisso.&lt;br /&gt;- Não vai pensar tanto quando supõe.&lt;br /&gt;- o quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho sorriu e ele foi despertado do sonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Caralho, soldado, me acordou porquê!? – perguntou ele irritado por não receber a última resposta.&lt;br /&gt;- Estamos vendo o nosso destino, senhor. – Disse Wilson. Finalmente chegamos!&lt;br /&gt;- Nossos rifles de longo alcance estão prontos e carregados, bem como nossas metralhadoras e pistolas. Já separamos os isqueiros pros coquetéis molotov e está tudo pronto pra nossa vingança. – disse Kyle.&lt;br /&gt;- Vocês são bons soldados. Muito bons.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os soldados sorriram por conta do elogio. Ele começou a pensar sobre o sonho. Será que foi mesmo real? Tudo foi tão nítido...&lt;br /&gt;Mas ele não poderia se entregar à mera destruição do mundo. Ele tinha dois soldados que precisavam de um mundo para morar. Mesmo duvidando de sua sanidade, ele se propôs a encerrar tudo aquilo com sua vingança e tentar levar os soldados a uma vida digna. Eles eram bons homens.&lt;br /&gt;Quando eles chegaram perto e perceberam pela marca que o caminhão ou trailer deles havia passado recentemente ele sentiu um frio na barriga. Tudo seria decidido naquele momento.&lt;br /&gt;Wilson parou o carro e perceberam que era possível subir pelo atalho. Aliás, perceberam que era uma boa maneira de se manterem escondidos.&lt;br /&gt;Deixaram o carro num ponto em que, lá do alto, era difícil vê-lo e subiram deitados.&lt;br /&gt;Major Robert sentiu um frio na barriga que dizia para ele não fazer aquilo, mas um calor por todo o seu corpo que o ordenava à vingança. Ele escolheu a vingança ao invés do perdão. Se prepararam para acertar os passageiros dentro do carro, mas Kimberly saiu, o que fez Robert rapidamente mirar na cabeça dela e puxar o gatilho. Ele odiava especialmente aquela mulher, pois atribuía a ela o motivo da traição de Jack.&lt;br /&gt;Mas com isso eles entregaram a posição e Jack saiu atirando, e rapidamente um amigo dele acertou uma bala na cabeça de Kyle.&lt;br /&gt;Robert gritou diante do corpo de seu soldado e começou a atirar sem cuidado na direção do trailer com sua metralhadora. Uma mulher saiu do trailer e ficou olhando tranqüila para o forte por algum tempo. Depois disso, ela simplesmente foi embora andando. Indiferente ao tiroteio. Robert, olhando pra ela, teve uma sensação estranha e decidiu não atirar. Quando olhou novamente, ela já havia desaparecido e aquela distração permitiu que dois dos passageiros entrassem no forte. Eram dois moleques e desarmados. Matá-los não seria tão difícil.&lt;br /&gt;Um jumper pulou do muro e trancou uma moça dentro do trailer. Um deles tentou enfrentá-lo e foi derrubado facilmente.&lt;br /&gt;O jumper voltou para o muro e Robert lembrou-se do suicídio cometido pelo último que ele viu. Pareciam não ter a intenção de interferir com sua vingança. Presumiu que, então, todos deveriam estar conectados de alguma maneira.&lt;br /&gt;Mesmo pensando nisso, não perdeu a concentração. Eles usaram a grande porta da fortaleza como refúgio. Com freqüência eles tentavam, sem sucesso, correr na direção do trailer. Aparentemente, davam demasiado valor à moça que estava ali dentro, pois estavam tentando resgatá-la a todo o custo. Robert decidiu poupá-la para torturar e matar na frente dele. Estava presa e indefesa. Isso causaria muito mais dor em Jack.&lt;br /&gt;Ouviram uma risada estrondosa vinda de dentro da Fortaleza. Parecia ter origem de uma grande caixa de som, como daquelas usadas em espetáculos musicais. Pareceu estranho para eles que fosse uma risada assim tão nítida, gutural, irônica. Era como se alguém estivesse assistindo o conflito e o achando ridículo.&lt;br /&gt;Logo em seguida um monstro enorme chegou diante deles. Olhou para Robert e Wilson por dois segundos e, de repente, apanhou o soldado e o esmagou com as duas mãos.&lt;br /&gt;Robert ignorou completamente a morte do amigo e tentou atirar em Jack, que estava distraído, mas suas mãos tremeram e ele sentiu um calafrio. Derrubou a metralhadora no chão.&lt;br /&gt;O homem que matou kyle assim que saiu tentou atacar o monstro, embora demonstrasse um óbvio espanto devido às suas proporções, mas logo foi nocauteado com um golpe de cotovelo da criatura. Nem pareceu fazer muito esforço pra isso.&lt;br /&gt;Ele se levantou e começou a correr para a fortaleza. Imaginou que aquela criatura o mataria em breve, e queria matar pelo menos Jack antes disso.&lt;br /&gt;O monstro abriu o teto do trailer com as mãos, o que fez Robert cair no chão assustado. Não foi pra muito longe do jipe antes de cair.&lt;br /&gt;A criatura foi em direção ao trailer e destruiu todo o teto, apanhando a moça lá de dentro. Não fazia sentido para Robert, que olhava aquilo tudo abismado.&lt;br /&gt;Tal era seu espanto que perdeu os movimentos do corpo. Congelou deitado no chão e viu o monstro largar a moça no chão. Ele assistia a toda a cena, mas não podia fazer nada.&lt;br /&gt;O berro que ele deu foi o mais alto que Robert já havia ouvido. Ele sentiu a vibração no pulmão.&lt;br /&gt;Uma multidão veio correndo desesperada. Pelo que Robert constatou, já estava próxima e simplesmente aguardando o chamado.&lt;br /&gt;Eles chegaram concentrados no garoto que tentava salvar aquela moça, que devia ser feita de ouro. O ignoraram tão completamente que o pisotearam e ele acabou desmaiando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele viu o céu com algumas nuvens girando. Ele subia entre as nuvens, até que começou a fazer uma curva lentamente. Depois de seu vôo ter sido enclinado em noventa graus, ele foi lançado com violência na direção do chão. Ele girava como uma broca, e foi se aprofundando no íntimo do mundo. Chegou num ponto tão profundo que nenhuma luz chegava ali senão uma estranha e aparentemente artificial, que ficava no topo de uma torre pomposa.&lt;br /&gt;Havia ali uma espécie de rio de lama, no qual corpos flutuavam e faziam movimentos leves, carregados com agonia. Havia neles algo como fumaça ou um líquido estranho. Difícil de definir.&lt;br /&gt;Saiu da torre um homem, ou alguma criatura, totalmente coberta com uma capa preta e com bordas vermelhas brilhantes. Era, de fato, uma bela capa. Ele flutuava sobre os corpos e sugava aquela substância que havia se acumulado.&lt;br /&gt;Quando ele saiu, os movimentos cessaram, e a substância começou a se formar novamente. Quando ela se formou até algo como metade do que era antes, os corpos se reanimaram e começaram a se contorcer novamente. Alguns davam gemidos que pareciam baixos demais para qualquer um ouvir.&lt;br /&gt;Ele sentiu um calafrio que passou por todo o seu corpo. Era esse o seu destino e era ali que ele iria morar.&lt;br /&gt;Ele também podia voar, embora sua própria substância, que identificou como energia, fosse lentamente sugada por uma espécie de antena que ficava no topo da torre. Foi até lá e entrou.&lt;br /&gt;Havia homens trabalhando em máquinas estranhas e alguns presos em câmaras cheias de água misturada com um tipo de lama.&lt;br /&gt;Todos estavam trabalhando atenciosa e compulsivamente. Ignoraram sua presença completamente.&lt;br /&gt;Eles mutilavam homens. Arrancavam braços e colocavam pernas no lugar. Costuravam olhos e bocas. Criavam insetos com uma máquina e obrigavam pessoas a comê-los.&lt;br /&gt;Assistir àquilo ia removendo dele cada vez mais as suas energias em logo uma voz começou a falar em seus ouvidos.&lt;br /&gt;Ele a ignorou, pois eram suspiros ininteligíveis, e continuou seguindo na torre até o elevador. Entrou lá e um dos trabalhadores foi com ele. Apertou o botão que os levaria até o topo. Parecia nem notar a presença de Robert, tamanha a sua concentração no que fazia.&lt;br /&gt;Subiram até o topo da torre, onde estava o mesmo gigante que ele viu na frente da mansão.&lt;br /&gt;Diante da sua presença ali, ele caiu e perdeu completamente suas forças. Elas formaram pequenas esferas, ao redor das quais alguns insetos se aglomeraram e logo carregaram embora, como formigas atrás de coisas doces.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- vo você... quem... – Robert tentou falar.&lt;br /&gt;- Sou seu treinador e já passei por tudo o que você está passando a milênios atrás. Fique de pé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao som da voz daquele homem, Robert recebeu um tipo diferente de força e se levantou. Antes ele tinha uma espécie de sopro de vida, e agora era um sopro de morte. Permitia tudo o que o sopro da vida permitia, mas exercia certa influência sobre seus pensamentos. Por sorte, talvez, a influência o movia precisamente para onde ele queria se mover. Assassínio, vingança, destruição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que você quer de mim?&lt;br /&gt;- Como seu treinador, agora é o momento de te dar a escolha. Você pode cair no lago negro ou se tornar meu soldado.&lt;br /&gt;- parecem vagas tais definições, já que não conheço esse lago e não sei o que farei como seu soldado.&lt;br /&gt;- se cair no lago, será fonte de energia para os mortos, pois é apenas dos espíritos que conseguimos energia significativa. Se desejar ser meu soldado, se tornará um morto vivo, com uma existência radicalmente diferente da que tinha antes. Voltará para a terra.&lt;br /&gt;- E não há outra escolha?&lt;br /&gt;- No estado em que você está, te garanto que não.&lt;br /&gt;- Que estado é esse?&lt;br /&gt;- Você se tornou um demônio. Uma das bestas que, desde tempos imemoriais, os homens temem.&lt;br /&gt;- É verdade. Pois bem. Quero me tornar um soldado. Dê-me instruções e lutarei por você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela energia se tornou extremamente intensa, e ele ouviu o lamento dos que estavam no lago. Sentiu que lamentava pelo simples fato de que aquele processo lhes sugava as energias. Uma pequena esfera se formou em seu peito e uma maior começou a envolvê-lo.&lt;br /&gt;- Que são essas esferas? – perguntou Robert&lt;br /&gt;- A menor em teu peito é o peso dos mortos. Alguns a chamam de esfera negra da justiça. Todos os que possuem tal esfera serão obrigados, se saírem do reino das trevas, a passar por terríveis torturas. Precisamente por isso evitamos a existência como mortos-vivos. A esfera grande te transportará de volta ao seu corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O lamento dos mortos se tornou ainda mais intenso. No fundo todo o sofrimento deles incomodava profundamente o coração de Robert, mas seu ódio superava esse incômodo e essa culpa. Não foi especialmente difícil ignorar esse incômodo.&lt;br /&gt;Alguém tentava lhe falar alguma coisa, mas as parede do inferno deturpavam o som. Pela intuição, pensou que poderia ser a sua avó, mas a imagem era a de uma indígena americana com penas e com o rosto pintado. Somente essa imagem lhe vinha em mente, e ele concluiu que não poderia sua avó, que era loira de olhos verdes.&lt;br /&gt;A esfera o carregou para cima quando a voz começava a ficar nítida. “não vou desistir de você!”. Somente essa frase que ele ouviu, mas a esfera lhe sugou os sentimentos. Quanto mais ele subia, menos intensas se tornavam suas emoções, com exceção do ódio e algo novo. Algo perpetuamente mórbido que o acompanhava. Ele chamou essa sensação de tormento da morte, porque não encontrou nenhum nome.&lt;br /&gt;Chegou à superfície e viu o trailer destruído indo embora. Jack estava ainda vivo com alguns dos seus companheiros. Seu corpo estava destruído, com um olhar melancólico. Pensou que não fazia sentido ser pisoteado sem um olhar de pavor, mas não se reteve muito nessa idéia.&lt;br /&gt;Seu começou a sofrer espasmos. Especialmente no peito, que freqüentemente ela lançado para o alto. Ele ouviu um estalo em sua costela e viu seus olhos se abrirem. Ficou pasmo ao ver o próprio corpo se levantar, pois não parecia capaz de qualquer movimento.&lt;br /&gt;De súbito ele foi sugado para dentro da própria boca e tudo ficou escuro por alguns minutos. Primeiro conseguiu sentir sua própria pele. Havia uma terrível sensação de dor em suas juntas, e ele sentia como se milhares de agulhas estivesse lhe penetrando os cotovelos. Seu corpo se movia involuntariamente, e depois de um tempo ele percebeu que estava jogado na grama se debatendo. Imagens lhe surgiam na cabeça e desapareciam. Era memórias dele, que ele tentava trazer de volta depois de terem desaparecido, mas não conseguia. Ele sentiu saudade daquelas memórias, que sabia existirem, mas não podia ter acesso. No entanto, logo a esfera dentro de seu peito aliada algum outro tipo de força suprimiu sua saudade.&lt;br /&gt;Começou a ouvir sons, mas não como costumava ouvir. Eram sons completamente sem sentido. Ele não conseguia distinguir de onde vinham os sons.&lt;br /&gt;Percebeu que seu coração não batia e seus pulmões não se enxiam. Forçou o enchimento dos pulmões e se engasgou. O ar que entrou foi como quando ele se afogou quando era criança. A horrível sensação da água entrando nos pulmões.&lt;br /&gt;Quando ele expulsou o ar recém sugado, o que permaneceu ainda o incomodava, mas com o tempo o incômodo passou. Seu olfato se ativou, e ele sentia cheiros demasiadamente intensos que não podia determinar.&lt;br /&gt;Ele já não era humano. Nenhuma das necessidades humanas lhe ocorria. Quando pensava em sexo não sentia nada além de asco. Era como pensar no vaso entupido de seu velho apartamento. Tudo o que, em vida, lhe era caro, já não fazia sentido. Quando seus olhos se abriram, não se comoveu com os cadáveres de seus soldados. Não entendeu o motivo.&lt;br /&gt;Depois de muito tempo, começou a controlar melhor os sentidos. Eram diferentes dos de antes. Sua visão aguçada possuía algo como três modos. O primeiro modificava a distância, sendo ele capaz de ver ao longe e também de ver coisas muito próximas e minúsculas. O segundo era a visão normal com o mesmo foco que ele tinha antes, mas mais ampla.&lt;br /&gt;A terceira tornava tudo escuro e ele podia ver algumas esferas que brilhavam com uma cor amarela. Como o sol, mas em miniatura.&lt;br /&gt;Cada um dos infectados que ele via possuía uma dessas, e dentro da fortaleza ele via um que possuía três.&lt;br /&gt;Alguns do lado de fora possuíam duas, e ele percebeu que também ele possuía duas.&lt;br /&gt;Conseguiu mover o pescoço, e percebeu que seu corpo estava completamente intacto. Fora sua pele, que estava pálida. Ele era um cadáver, afinal.&lt;br /&gt;Ouviu o lamento dos mortos e sentiu a força lhe possuindo. Levantou-se apenas com o impulso de uma mão. Seu corpo parecia extremamente leve.&lt;br /&gt;Tentou andar e caiu, mas se levantou rapidamente. Deu um salto de três metros de altura e caiu de cabeça no chão. Com o tempo foi conseguindo saltar cada vez mais alto e cair de pé. Se sentiu como uma criança aprendendo a usar o próprio corpo. Conseguiu correr bem mais rápido do que o normal, mas quando tentou acelerar acabou caindo.&lt;br /&gt;Com o tempo conseguiu a curvatura ideal para correr rápido. Seu corpo ficava como que a 45 graus do chão, de forma que a posição era mais aerodinâmica.&lt;br /&gt;Correu, saltou e acertou um infectado com o cotovelo, destruindo sua cabeça facilmente. Os outros infectados não se importaram com tudo aquilo.&lt;br /&gt;Quando ele destruiu a criatura, se sentiu revigorado. Percebeu que algo lhe acometia quando ele destruía. Algo como a força que sentimos quando temos raiva, mas muito mais intenso.&lt;br /&gt;Tentou falar, mas não controlava bem o próprio rosto.&lt;br /&gt;Com o tempo, no entanto, começou a se expressar em monossílabos, e em seguida a falar com dificuldade. A sua voz era permanentemente gutural, como um cantor de heavy metal ou algo análogo. Era, na verdade, como uma fera rosnando.&lt;br /&gt;Ele encheu os pulmões, mesmo sofrendo, e deu um berro, que imediatamente lhe trouxe infectados e até jumpers esperando seu comando. Se perguntou como ele pôde falar antes se não encheu o pulmão, quando sentiu que sua garganta não vibrava com o som.&lt;br /&gt;Falou novamente e percebeu que o som saía de sua boca, mas não era fruto da vibração de suas cordas vocais. Aliás, o grito também tinha grande parte de sua origem dessa fonte misteriosa, mas também com a vibração das cordas e o tormento de encher os pulmões com ar.&lt;br /&gt;Conseguiu controlar de diversas maneiras os infectados segundo diferentes sons que conseguia emitir e ficou fazendo testes até que o gigante com três esferas saiu de dentro da fortaleza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Venha, soldado. Sou seu comandante direto aqui.&lt;br /&gt;- Para onde vamos?&lt;br /&gt;- Falar com seu treinador, o mestre de todos nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não gostou de usar o termo mestre, que usou com aversão visível. Robert não se importou com isso e foi com ele até o interior da fortaleza saltando. Estranhamente, perto dele seus saltos se tornavam mais altos e sua perícia se apurava. Não sabia se era o comandante que lhe dava esse poder ou se ele ainda estava se desenvolvendo.&lt;br /&gt;Passaram por cima da fortaleza e chegaram nos fundos, numa espécie de passarela que não os levava a lugar algum. O gigante ficou no chão e ele ficou em cima, sob orientação do treinador que é mestre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então, Felipe, nessa missão você entenderá mais profundamente as coisas que te falo. Falar sobre o lado negro e destruidor de Deus não possui qualquer significado para quem não vive tal realidade. Você irá se conectar à destruição absoluta através da espada e atacar nosso inimigos. Entendo seu ceticismo em relação a isso, pois do ponto de vista da razão não possui qualquer sentido. Mas não é necessário criar argumentos racionais e eu nem os tenho. Vá e descubra, da mesma forma que você veio aqui e descobriu.&lt;br /&gt;- Sim. É essa a espada que vi nos meus sonhos?&lt;br /&gt;- Correto. Minha espada, que vou lhe emprestar.&lt;br /&gt;- Mas eu sonhei que deveria matá-lo com essa espada.&lt;br /&gt;- O quê? – disse Rocker&lt;br /&gt;- O que é a morte, Filho? Meu corpo já está quase totalmente destruído, de qualquer maneira...&lt;br /&gt;- Mas com você morto, que irá nos liderar? Esse moleque não tem vivência pra ser nosso líder! Ele não possui o conhecimento necessário.&lt;br /&gt;- Você irá orientá-lo no ataque aos renegados. Devem partir em alguns momentos. Carregue ele nas suas costas pessoalmente. Não toque na espada com sua mão, pois seu corpo não irá suportar o poder. Entendeu bem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficaram todos em silêncio por alguns minutos, até que Robert quebrou o silêncio falando com dificuldade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que farei? – perguntou ele&lt;br /&gt;- Acompanhe-os e aperfeiçoe o controle sobre seu corpo. Será necessária da sua parte muita disciplina, e é precisamente por isso que te escolhi para ser soldado. Lembre-se de que nesse corpo há certas faculdades humanas que você já não possui. Apesar de você não as entender quando estava vivo, elas te ajudavam profundamente. Nesse momento, você estará sem metade das suas antigas funções. Não terá intuição para ter contato com o senhor das trevas ou para se comunicar á distância, e, além disso, não será capaz de ter empatia. Aliás, tome muito cuidado, pois perto de certas criaturas você pode ser tentado a ter sentimentos. Se isso te acontecer, seu corpo será destruído e está fora do meu conhecimento entender o que te acontecerá depois. Posso presumir, no entanto, pela esfera que você carrega no peito, que não lhe sucederá nada de bom. – Respondeu o velho&lt;br /&gt;- Sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho tirou das próprias costas, de alguma maneira, uma espada que tinha aproximadamente o tamanho dele e parecia ser feita de aço. Pelas dimensões, parecia se adequar perfeitamente ao tamanho das mãos do gigantes, mas parecia absurdamente grande para Felipe, que nem era tão grande pra uma pessoa normal.&lt;br /&gt;Robert se impressionou com a facilidade com que o rapaz segurou a espada. Para ele aquilo não tinha nenhum sentido, mas também não teve suficiente interesse para perguntar sobre como aquilo foi possível.&lt;br /&gt;- Agora vão para a batalha com todas as tropas da primeira legião e mais uma de elite. A fase de limpeza acabou. Estamos, agora, no início da grande guerra. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4664356695252564512-6803179948999313376?l=biohazardalimpeza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://biohazardalimpeza.blogspot.com/feeds/6803179948999313376/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4664356695252564512&amp;postID=6803179948999313376' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4664356695252564512/posts/default/6803179948999313376'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4664356695252564512/posts/default/6803179948999313376'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://biohazardalimpeza.blogspot.com/2010/02/capitulo-extra-2.html' title='Capítulo Extra 2'/><author><name>Silas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08560610846360060486</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/ScXDtIGMN9I/AAAAAAAAABQ/YF39-2VxJ3k/S220/zumbi.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/S2sG4FRV3SI/AAAAAAAAAWs/a9Q4fgO0N70/s72-c/major+robert.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4664356695252564512.post-1692204386562441474</id><published>2010-01-06T08:43:00.000-08:00</published><updated>2010-01-06T08:43:40.708-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Capítulo Extra 1'/><title type='text'>Capítulo Extra 1</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/S0S9Yu03iLI/AAAAAAAAAV0/KaceOVFiDXQ/s1600-h/extra+1.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/S0S9Yu03iLI/AAAAAAAAAV0/KaceOVFiDXQ/s640/extra+1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O avião fechou e Isabela não parava de gritar. Seu desespero durou, estimaram, por duas horas. Chorou, bateu nas paredes, rolou pelo chão.&lt;br /&gt;Aquilo deixou todos os passageiros ainda mais atordoados com aquele problema. O tempo ia passando e sempre mais um morria. Sempre a morte estava ao redor, pronta pra levar a próxima vida.&lt;br /&gt;Estavam todos sentados como que de luto. Não especificamente por essa morte, mas pela constante perda que a vida havia se tornado. Pelo que parece, o Roberto, que morreu dessa vez, não era muito de conversa. Ele se isolava muito. Só Isabela mesmo que não desgrudava dele por nada.&lt;br /&gt;A agonia dela perfurava todos os outros. Até Felipe, que geralmente se mantia apático, parecia perturbado com ela.&lt;br /&gt;Num dado momento ela parou de se debater e foi para o fundo do avião. Ela se abaixou e abraçou as pernas. Balançava para frente e para trás compulsivamente, olhando sempre pro mesmo ponto no chão, no qual ninguém pôde ver qualquer coisa.&lt;br /&gt;Passaram por uma turbulência e Augusto caiu no chão. Ele mesmo não conseguia imaginar um motivo para não ter prendido o cinto de segurança. Sempre se considerou um indivíduo precavido.&lt;br /&gt;Encontrou um pacote de camisinha no chão. Pegou e ficou olhando. Afinal, por que razão ele tinha pego aquilo do chão? Porque ele estava fitando para aquilo?&lt;br /&gt;Na verdade foi essa pergunta que o manteve olhando para o objeto, procurando nele alguma informação que servisse como pista. Leu tudo o que estava escrito na embalagem e acabou guardando o objeto no bolso.&lt;br /&gt;Felipe estava dormindo tranqüilo e teve um sonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele nadava num lago de fogo. Foi até a borda e escalou um pico de pedra. A rocha quente estava quase derretendo, e quando ele a segurava a sua mão penetrava, o que dava a ele a possibilidade de continuar subindo. Lá no topo, encontrou uma nuvem negra. A mesma nuvem de sempre, que lhe falava nos sonhos. Ele a chamava de nuvem de nada ou nuvem do nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Me invocou, pai? – perguntou Felipe&lt;br /&gt;- Sim. Sua intervenção se mostra necessária.&lt;br /&gt;- Porque?&lt;br /&gt;- O representante humano das trevas tem interesse pessoal nisso.&lt;br /&gt;- Interesse pessoal? Humano? Aquilo é um ser humano?&lt;br /&gt;- Não se engane pelas formas. É um humano e está deixando sua identidade material falar mais alto que a própria essência. Seu objetivo aqui não será o de realizar os desejos dele, mas apenas mostrar que não só é impossível como também inadequado aos meus planos.&lt;br /&gt;- Por quê?&lt;br /&gt;- Ele está a muito tempo nessa posição. O seu íntimo já não suporta tal existência. Em breve alguém terá que tomar seu lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um trono se ergueu numa plataforma. Nos braços, dois esqueletos deformados serviam de enfeite. Era toda feita de rocha negra, como que queimada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que eu tenho que fazer?&lt;br /&gt;- Só seja receptivo. Você receberá as instruções diretamente dele. Deixe-se levar.&lt;br /&gt;- Sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele acordou no avião com Augusto soltando o cinto de segurança. Ele foi até o fundo do avião.&lt;br /&gt;Ali perto havia um banheiro, e Felipe o seguiu impulsivamente. Quando percebeu o que estava fazendo, entrou no banheiro e ficou lá dentro ouvindo. Assustou-se com tal atitude involuntária, mas lembrou do sonho e imaginou que seria isso que a nuvem do nada tentava dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Está tudo bem contigo, Isa?&lt;br /&gt;- Inferno! O inferno se ergue até esse mundo! O diabo!&lt;br /&gt;- Do que você está falando?&lt;br /&gt;- Você não vê? Está por toda a parte. Está aqui neste exato momento. O espírito das trevas! – gritou ela chorando. – estamos condenados! Todos nós!&lt;br /&gt;- olhe, eu sei que estamos num momento difícil, mas te garanto que tudo será resolvido. Sei que você esta triste com a morte do Roberto, mas...&lt;br /&gt;- Não fala isso! – ela o interrompeu. – Se ele morrer, tudo estará perdido!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele segurou a mão dela e beijou. Se sentou do lado dela no chão e ela apoiou a cabeça em seu ombro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Me fala do que você ta sentindo. – disse Augusto&lt;br /&gt;- O mal, augusto. É o mal! Está destruindo todo o mundo, corroendo tudo. Isso está longe do fim. Nós não estamos indo para um lugar seguro. Não. Estamos indo para a cova do leão. A casa do diabo!&lt;br /&gt;- olha Isa, eu sei que toda essa tragédia é difícil. Você já perdeu muita coisa na sua vida. Mas você precisa ser forte. Não pode se entregar dessa maneira. Me desculpa se isso te ofende, mas não tem como sabermos nada sobre pra onde estamos indo.&lt;br /&gt;- Seu idiota! – berrou ela.&lt;br /&gt;- idiota porque?&lt;br /&gt;- Eu não sei. Só tenho certeza do que eu estou falando.&lt;br /&gt;- Como pode?&lt;br /&gt;- Não sei.&lt;br /&gt;- olha, talvez...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de ele terminar de falar, Isabela correu para um assento no canto onde não havia nenhuma iluminação. Ela estava com as mãos nos ouvidos e gemia ansiosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isa, ta tudo bem contigo?&lt;br /&gt;- Você precisa da minha ajuda? – perguntou ela com um sorriso bizarro no rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um impacto no avião e ela foi lançada em cima dele. O abraçou com força.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu preciso de você. – disse ele.&lt;br /&gt;- Precisa como? – perguntou ela&lt;br /&gt;- Eu sempre te amei. Nunca reparou como combinamos?&lt;br /&gt;- Porque nunca me disse? – perguntou ela num tom tremulo&lt;br /&gt;- Você parecia tão apaixonada por ele. Como que eu ia te contar?&lt;br /&gt;- Onde que você nasceu? – perguntou ela&lt;br /&gt;- Quê?&lt;br /&gt;- É perto daqui?&lt;br /&gt;- Na verdade é bem longe.&lt;br /&gt;- Não, seu bobo. To falando aqui do alto! Eu sabia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não estava entendendo nada e não teve tempo para pensar. Em instantes ela se lançou sobre ele e o beijou. Acabou que ele perdeu completamente o juízo e desistiu de tentar entender o que ela dizia. Ele se entregou aos beijos e inclinou o banco para trás. Ele não acreditava que aquilo estava acontecendo.&lt;br /&gt;Ela levantou os braços das cadeiras e subiu em cima dele. Suas pernas bem formadas e abertas criaram uma imagem completamente irresistível para Augusto. A cada instante que se passava ele ficava mais distante de ter algum domínio sobre si e nem se preocupava.&lt;br /&gt;Beijou-a com avidez e passou a mão por todo o seu corpo. A pele dela era muito macia e o gemido dela enquanto ele lhe beijava o pescoço o levava à loucura.&lt;br /&gt;Ele tirou a camisinha do bolso e olhou nos olhos dela por uns dois segundos. Não era um olhar que ele esperaria. Na verdade, ela parecia totalmente fora de si. Seus olhos estavam meio fechados por baixo, o que dava nela uma sensação de insanidade.&lt;br /&gt;Ela tirou as calças dele e tirou a dela. Tudo muito rápido, embora a dela fosse relativamente apertada.&lt;br /&gt;Abriu a camisinha com o dente rapidamente. Abriu a boca e encheu os pulmões olhando pra ela de uma forma assombrosa, mas isso não o impediu de continuar sem controle.&lt;br /&gt;Ela o levantou e o virou. Virou-se também, de maneira que ficou de costas pra ele. Sem mais preliminares, sem mais carinho. Mesmo assim, ele não hesitou. Só parou pra colocar a camisinha.&lt;br /&gt;Quando ele entrou, ela deu um gemido muito alto, e todos no avião ouviram. Kimberly veio ao encontro deles, mas ao ouvir a natureza do barulho ficou sem ação. Ela não sabia o que fazer e ficou parada por uns instantes. Estava perplexa e revoltada com aquilo, mas não sabia oq eu se passava de verdade.&lt;br /&gt;Voltou para a cabine e contou a Jack o que se passava. Ele também ficou perplexo, mas também admitiu não possuir, acerca disso, qualquer conhecimento que fosse relevante.&lt;br /&gt;Isabela mordeu a poltrona quando Augusto começou a se movimentar mais rápido. Do banheiro, Felipe podia ouvir os sons do impacto entre eles. Ele estava, naquele momento, canalizando todo um desejo a muito tempo reprimido.&lt;br /&gt;Segurou a cintura dela enquanto a penetrava com força e olhou pra cima.&lt;br /&gt;Felipe começou a devanear dentro do banheiro e se imaginou no mesmo inferno do sonho. Lá, recebeu instruções: “Você precisa falar exatamente o que lhe vier na mente sem julgar. Precisa falar tudo sem ponderar. Espere dez minutos depois que o barulho parar.”&lt;br /&gt;Enquanto ele esperava, aproveitou para usar o banheiro. Tinha água, então lavou o rosto e se olhou por uns instantes. Ele perdeu peso, estava com o rosto ossudo. O cabelo estava maior e mais bagunçado do que antes.&lt;br /&gt;Não perdeu mais tempo observando tais coisas.&lt;br /&gt;As mãos de Isabela seguravam a cintura de Augusto e faziam força, puxando-o. Ele colocou o peso do corpo sobre ela, de forma que a poltrona se curvou um pouco mais e os pés dela saíram do chão. Naquele momento, ela estava totalmente subjugada, de forma que apenas Augusto era capaz de realiza qualquer movimento.&lt;br /&gt;Nesse ponto, ele pôde sentir as contrações dentro dela. Pareceu estranho ela gozar tão rápido.&lt;br /&gt;As nádegas dela balançavam ao ritmo dos movimentos dele, que naquele ponto já era muito rápido. Segou a coxa dela e passou em volta do próprio corpo, de forma que a penetrava de baixo pra cima. E continuou assim até gozar. Mesmo depois disso, ainda continuou por algo próximo de um minuto por um impulso insano, até que conseguiu retomar o controle sobre si mesmo e saiu.&lt;br /&gt;Sentou no assento ao lado e o desceu até o nível do outro. Ela possuía um sorriso louco no rosto. O abraçou e deu-lhe uma chave de perna.&lt;br /&gt;Ele conseguiu tirar a camisinha. Deu um nó nela e jogou-a no chão.&lt;br /&gt;Ficaram ali abraçados. Apesar de sua perturbação, algo como alegria tomou conta dele por conta do calor. Reparou que eles nem tiraram as blusas. Era tudo uma loucura.&lt;br /&gt;Felipe saiu do banheiro e Jack foi até ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eles sempre fazem isso? – perguntou com um ar meio perturbado&lt;br /&gt;- Talvez a questão deva ser: ela sempre faz isso? Na verdade ela não desgrudava do Roberto e não tinha nada com ele, pelo que eu soube.&lt;br /&gt;- Quer dizer que o namorado dela morreu e ela ta transando com outro no mesmo dia?&lt;br /&gt;- É o que parece...&lt;br /&gt;- Mas que vadia!&lt;br /&gt;- Ela é uma mulher.&lt;br /&gt;- Que quer dizer com isso?&lt;br /&gt;- Todas as mulheres são putas e indignas de atenção continuada.&lt;br /&gt;- Que preconceito!&lt;br /&gt;- É um conceito baseado em experiência. Veja com seus próprios olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kimberly fez um sinal, ao que Jack voltou para a cabine. Felipe seguiu seus impulsos e foi até os dois, ainda sem calça agarrados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu tenho uma mensagem de Deus para a guardiã do espírito do último anjo na terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isabela deu um salto e, ao se ver nua, ficou vermelha. Ela se vestiu rapidamente e se ajoelhou diante de Felipe. Tentou tocá-lo, mas ele não permitiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Diga. Qual é a mensagem?&lt;br /&gt;- Porque você abandonou o meu filho? Não sabe que ele ainda está vivo? Pensa que eu, o salvador, permitira que ele morresse? Prepare-se para resgatá-lo!&lt;br /&gt;- Posso fazer só uma pergunta, bom mensageiro?&lt;br /&gt;- Faça.&lt;br /&gt;- Como são os pés do teu mestre?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felipe hesitou, mas logo lhe ocorreu algo para dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Seus pés são feitos dum metal dourado que possui brilho próprio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela começou a chorar novamente, mas depois de uns dois minutos se levantou, sem, no entanto, continuar com aquele olhar louco. Foi como se, de súbito, ela tivesse recuperado sua sanidade.&lt;br /&gt;Correu até a cabine e Augusto começou a falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que porra foi essa? Ta fazendo ela enlouquecer ainda mais! –gritou ele.&lt;br /&gt;- Pelo menos eu não a comi num momento de fraqueza. – retrucou Felipe calmamente&lt;br /&gt;- Vai se foder, cara!&lt;br /&gt;- Vai foder a maluca. O que eu estou fazendo não é negócio seu, e se interferir será morto.&lt;br /&gt;- Vai me matar, é?&lt;br /&gt;- Não. Só vou contar o que você acabou de fazer pro Roberto. Ele te mata.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Augusto ficou em silêncio e Felipe se sentou. Ficou meditando sobre os possíveis motivos daquele evento, e repentinamente Roberto passou a interessá-lo. Seu próprio devaneio o mostrava um meio de salvá-lo?&lt;br /&gt;Na cabine, Isabela pedia a Jack para dar meia volta e buscar Roberto. Depois de muito insistir, ele acabou pousando o avião num aeroporto que ficava ali perto. Precisava reabastercer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não pouse aqui! Temos que ir rápido! – gritava ela&lt;br /&gt;- Precisamos de todo o combustível que pudermos encontrar. O que temos não é suficiente nem pra voltar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isabela entendeu prontamente e começou a se preparar para dar seu auxílio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Peraí, Jack. Você vai mesmo voltar por causa dessa vagabunda? – disse Kimberly em inglês&lt;br /&gt;- Não. Eu acho mesmo que ele ta vivo.&lt;br /&gt;- Jack, nós nem sabemos se tem combustível aqui e estamos quase chegando! O que encontraremos aqui será no máximo o bastante para voltarmos até lá e ficarmos sem combustível de vez! Pensa um pouco, pelo amor de Deus!&lt;br /&gt;- Não. Nós vamos voltar. Ele está vivo e nós vamos voltar.&lt;br /&gt;- Porque você se importa? Nem conhece ele!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jack olhou nos olhos dela, ao que imediatamente ela sentiu o peso das próprias palavras. Se calou e, por um certo tempo, nada falou além do necessário para cooperar com Jack.&lt;br /&gt;Saíram do avião Jack, Kimberly, Isabela e depois Augusto, do qual Jack dispensou a ajuda no começou, mas depois percebeu que precisava e acabou aceitando.&lt;br /&gt;Encontraram apenas muito pouco combustível ali. Provavelmente o pequeno avião que permanecia ali decolou com muita reserva a bordo. Com certeza seria suficiente para voltarem, segundo os cálculos de Jack, mas chegando lá estariam quase sem combustível. De maneira, seria uma viagem só de ida. Todos poderiam morrer junto com Roberto mesmo que ele estivesse vivo. Ele pediu um sinal à Deus enquanto preparavam-se para abastecer de forma improvisada. Mas não abriu a boca senão pra dizer o necessário.&lt;br /&gt;Felipe foi despertado de sua meditação e desceu do avião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pode ficar aí dentro, Felipe. - disse Augusto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felipe olhou para ele apático e continuou andando na direção de Jack.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tudo bem contigo, garoto?&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você pediu um sinal. Que é isso? Ouça a voz que existe dentro de você e não tenha dúvida. Você saberá o que fazer e quando fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jack caiu pra trás com os olhos arregalados. Geralmente ele pedia um sinal e encontrava algum simplesmente por estar procurando, mas dessa vez ele recebeu a mensagem diretamente. Ficou convicto de que aquilo acontecia por ser importante e sabia que tudo aquilo não havia sido por acaso.&lt;br /&gt;Depois disso Felipe entrou no avião, tão repentinamente quanto havia saído, mas Jack passou a trabalhar com mais esforço.&lt;br /&gt;Todas aquelas experiências metafísicas os estavam deixando cada vez mais perplexo, precisamente por conta das coisas aparentemente impossíveis que aconteciam. Era como se ele tivesse uma forma de saber o que as pessoas pensavam e do que precisava falar em que momento para induzi-las a fazer uma coisa ou outra. Era quase um poder divino. Seria, se não fosse pelo fato de que a fonte de informação parecia autônoma e vivia insistindo que ele não estava pronto para receber as informações da forma como elas verdadeiramente são. Que ele precisaria nascer de novo.&lt;br /&gt;Isabela ouviu aquilo e iniciou um processo de auto-destruição interna. Se torturava com culpa e procurava cada mísero erro de sua vida para se perceber como desgraçada enquanto fazia as coisas. Carregou mais peso do que o normal só pra sentir a dor e até se cortou com as chaves de um carro que ali estava.&lt;br /&gt;Ela pensava que tinha que sofrer por ter perdido a fé e ter sido fraca. Mais profundamente, ela se sentia culpada por tamanha traição a Roberto e especialmente à Deus. O que foi que Deus nela? Por certo estava possuída pelo diabo, que a levava em seus momentos de desespero. Veio até ela desde que a praga começou. Atormentava sua alma enquanto que possuía os corpos das pessoas. Tal era o preço de ter acesso direto à Deus, pensava ela.&lt;br /&gt;E o diabo ainda a tentava a estar próxima de Augusto, sendo que ela não conseguia impedir tal atração. Cada piada sem graça que ele pronunciava para tentar animá-la lhe trazia uma alegria que era seguida por um terrível vazio.&lt;br /&gt;Tudo ficou pronto em pouco tempo. Nenhum sinal de infectados por perto.&lt;br /&gt;Todos embarcaram e Felipe continuava sempre na mesma posição na cadeira.&lt;br /&gt;Kimberly se perguntava sobre como ele podia ficar tanto tempo parado sem fazer nada. Parecia loucura. O que ele estaria pensando.&lt;br /&gt;Ela se interessava muito por ele, mas nunca teve coragem de falar com ele direito. Ela sentia como se ele detestasse as pessoas e, no entanto, não tivesse nada contra elas. Como se o problema dele com todas as pessoas não fosse nada pessoal. Ele não parecia ser do tipo que guarda mágoa, mas nem carinho. Ele se negava a todo o tipo de contato e tinha ma barreira que, para ela, parecia totalmente intransponível. Ele nem se importou com o fato de que ela ficou alguns segundos olhando pra ele. Mas ele percebeu.&lt;br /&gt;Isabela e Augusto conversavam, mas ninguém se importava com o que falavam. Na verdade, estava generalizado o desprezo pelos dois. Felipe por desprezar a todos e os outros por conta do que fizeram.&lt;br /&gt;Depois de um tempo Augusto pareceu triste e saiu de perto de Isabela. Aparentemente, ela estava querendo se livrar dele. Foi até a cabine e pediu a Jack que não contasse nada. Ele negou, mas ela insistiu e disse que queria contar ela mesma. Ele acabou cedendo e disse isso a Kimberly, que não cedeu de verdade, mas fingiu pra ela parar de insistir. Passou a Desprezar Isabela tão profundamente que não queria tê-la por perto.&lt;br /&gt;Felipe alegou ser indiferente a essa questão, mas diante a insistência dela concordou em não mencionar nada. Acrescentou ironicamente: vou contar a versão cor de rosa da história.&lt;br /&gt;Augusto ficou melancólico e voltou a falar com ela e insistir. O clima na nave estava péssimo. No meio daquilo tudo, Jack conseguiu perceber uma enorme massa de Infectados próximos ao aeroporto. Por certo ouviram o som do avião, mas, por algum motivo, não atacaram. Se convenceu de que aquilo era um sinal de Deus e sorriu. Voaram de volta e, como as únicas provas do que houve eram uma camisinha abandonada no chão e a marca da boca dela numa poltrona, ao saírem foi como se, momentâneamente, nada tivesse acontecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vou te contar, maluco, tu deve ser bom de cama mesmo. – disse ele&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quê?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tua mulher fez um escândalo no avião e fez a gente voltar aqui atrás de você.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ela fez isso?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Bonitinho, né? Só que temos um pequeno problema. O motor do avião acabou de estragar. Vamos todos morrer. Não é romântico.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tem um trailer nos fundos da casa. Talvez possamos usar ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade Felipe sabia que ninguém iria morrer, mas queria testar Roberto. Queria saber se tais alucinações também o influenciavam para ele ter consciência de algo do que estava acontecendo. Seu desprezo pelas mulheres aumentou muito quando ele percebeu com quanta falsidade Isabela simplesmente fingia que nada havia acontecido.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4664356695252564512-1692204386562441474?l=biohazardalimpeza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://biohazardalimpeza.blogspot.com/feeds/1692204386562441474/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4664356695252564512&amp;postID=1692204386562441474' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4664356695252564512/posts/default/1692204386562441474'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4664356695252564512/posts/default/1692204386562441474'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://biohazardalimpeza.blogspot.com/2010/01/capitulo-extra-1.html' title='Capítulo Extra 1'/><author><name>Silas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08560610846360060486</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/ScXDtIGMN9I/AAAAAAAAABQ/YF39-2VxJ3k/S220/zumbi.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/S0S9Yu03iLI/AAAAAAAAAV0/KaceOVFiDXQ/s72-c/extra+1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4664356695252564512.post-8613003814605916350</id><published>2010-01-03T05:54:00.000-08:00</published><updated>2010-01-03T05:58:15.278-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Capítulo 22'/><title type='text'>Capítulo 22</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/S0Chawo4JCI/AAAAAAAAAVk/3yyoZb-zolM/s1600-h/teste2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/S0Chawo4JCI/AAAAAAAAAVk/3yyoZb-zolM/s400/teste2.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A parteira dos destinos nos alerta. A grande mãe é um grande útero. Não é boa nem má. Ela é e dá origem. Bem e mal, destruição e construção. Tudo num lugar só. Para ela esses nomes não existem. O que existe é o natural. Como a natureza pode tanto ser amável quanto terrível, assim é a grande mãe. Carrega anjos e demônios em seu útero. Todos a amam e a temem. Fogem dela e a perseguem. Tal é uma realidade da qual ninguém foge. Tendo consciência disso ou não. Somente os homens que voltam ao útero da mãe natureza e nascem de novo podem ser livres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha espada estava cheia de sangue, mas eu queria mais. Não foi o bastante. Saltei em meio às nuvens. Estava envolvido numa capa vermelha que brilhava nas extremidades. Eu não podia ver meu rosto. Apesar do aspecto decrépito da minha mão, que parecia estar caindo aos pedaços, eu carregava uma espada enorme.&lt;br /&gt;Quando caí, encontrei um exercito e jumpers na minha frente. Milhares. Eram os rebeldes. Não sei como, mas eu sabia disso. Estávamos numa espécie de deserto, onde eles tinham vantagem. Mas aquilo era irrelevante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nos libertamos e morreremos livres - se pronunciou um deles.&lt;br /&gt;- Depois da morte a liberdade acaba. – respondi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um jumper foi na direção desse que falou e abriu o próprio peito com um facão estranho. Brilhava na ponta e não era reflexo do sol. Tirou sua esfera de força do peito e entrego ao líder, que a comeu. Até eu fiquei surpreso por ele ter conseguido lidar com o poder. Eu estava orgulhoso dele.&lt;br /&gt;O jumper que se sacrificou correu na minha direção, ao que o parti no meio com minha espada.&lt;br /&gt;Parecia uma cena dessas que se vê em jogos. O monstro correu na minha direção, e parei ele com a força do pensamento. Não podia se mover nem um milímetro. Passei minha mão no rosto dele e sorri. Finalmente eu tiraria aquele impulso odioso de dentro de mim por algum tempo.&lt;br /&gt;Os monstros que o acompanhavam pularam na minha direção, ao que parti seu líder no meio e concentrei a força do pensamento para atrapalhar o sinal deles. De alguma maneira eu conseguia impedir o controle deles com minha vontade. Ficavam como que desnorteados e indefesos.&lt;br /&gt;Comecei a destruí-los. Meu irmão estava assistindo ao meu espetáculo. Estava gostando.&lt;br /&gt;Algumas vezes eu matava cinco com apenas um golpe. Um genocídio. Quando meu impulso passou eu me sentei e me concentrei. Joguei minha espada no chão e abri ali um buraco, onde encontrei água. Tirei minha capa e vi meu reflexo. Uma imagem terrível. Velho, enrugado, olhos vazios e avermelhados. Senti um calafrio por uns instantes, como que lembrando de um passado muito distante que já se apagava de mim. Nem sempre eu tinha sido daquela maneira.&lt;br /&gt;Meu espírito se abateu e eu comecei a explodir os monstros com a força do pensamento. Tão indefesas, as criaturas. Não entendi bem o motivo de se rebelarem. Seu líder não era diferente de nós. Só era mais fraco e iludido.&lt;br /&gt;Joguei os últimos sobreviventes na água e pulei pelas nuvens sem minha capa. Eu contaminava as nuvens com minha essência, criando tempestades, e matava os último pássaros que ainda restavam no céu. Conseguimos um serviço completo naquele mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei com uma sensação funesta. Minha cabeça estava queimando. Eu sentia ódio. Eu era como aquele velho, com o qual me identifiquei no sonho. Poucas vezes eu pude me lembrar de um sonho tão nitidamente.&lt;br /&gt;Todos ainda estava dormindo, menos Jack, que continuava dirigindo. Vi Isabela abraçada com Augusto. Muito gostosa.&lt;br /&gt;Queria comer e matar. Talvez algo parecido. Depois de um tempo eu percebi como meu pensamento era desprezível e mergulhei em devaneios depressivos. Era mesmo eu no sonho. Mesmo com esse corpo diferente, grande e até mesmo vigoroso, tal era a minha essência: um velho destruidor e destruído. Servo das trevas e senhor dos trevosos.&lt;br /&gt;Meu irmão era como o velho que jogava cartas com Mefistófeles.O mais perto de carinho que eu sentia era o contato com ele. Relembrar nossas jornadas. Só era ruim quando lembrávamos dos tempos antes da trevas, quando éramos inimigos. Tudo por causa de uma puta qualquer.&lt;br /&gt;Eu nem sabia de onde essas lembranças estavam vindo. Mas parecia que a cada instante que continuávamos prosseguindo por aquele caminho eu ia despertando.&lt;br /&gt;Lembrei que concordamos em odiar a essência feminina até os últimos dias do universo, quando tudo se converteria em nada. E, no entanto, eu jamais poderia odiar Sílvia. Tinha rancor de Isabela, mas sabia que no fundo ela não passava de uma vítima de si mesma. Eu sentia prazer em repetir para mim mesmo que Isabela era fraca, louca, débil, indigna do meu amor. No fundo eu só pensava isso por rancor. Porque ela ainda era como uma musa perdida pra mim naquele momento.&lt;br /&gt;Felipe estava com um sorriso maligno no rosto. Um sorriso meio insano, megalomaníaco e, diria, até um pouco depressivo. É só vendo que poderiam me entender.&lt;br /&gt;Abri uma janela lá atrás. Vento gelado. Rapidamente eu deixei de sentir o meu rosto. Foi como se eu estivesse flutuando pelos nuvens de novo. Talvez a sensação do sonho tenha tido origem no próprio vento, que bateu no meu rosto enquanto eu dormia. Foi mais real do que um sonho comum.&lt;br /&gt;Sílvia se encolheu na poltrona e eu fechei a janela. Pensei que estaria incomodando aquele sono tão tranqüilo dela. Estava certo, porque ela relaxou alguns minutos depois de eu fechar.&lt;br /&gt;O sol começou a aparecer e me aborreci. Eu queria que a noite não acabasse.&lt;br /&gt;Vi Jack bocejando. Parecia bem cansado. E Kimberly estava num sono pesado. Não me lembro de ver outros dirigindo que não eles. Decidi tentar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Posso tentar aí? – perguntei&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quê? Dirigir?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ok. – ele hesitou um pouco. – Não precisa nem parar nem nada. Pisa aqui nesse pedal e segura o volante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele era um sujeito muito grande. Era uma sensação estranha ver alguém maior do que eu. Não estava acostumado com isso.&lt;br /&gt;Sentei no banco do motorista e fizemos um malabarismo ali pra ele sair por cima, mas acabou esbarrando no volante e demos uma virada brusca. Consegui manter o trailer na estrada, mas todos acordaram, com exceção de kimberly.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não é nada demais. – disse Jack. – podem voltar a dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Augusto e Isabela voltaram a dormir rapidamente, e Sílvia começou a arrumar o cabelo. Felipe olhou para o sol e fixou os olhos. Não estava bem visível de onde ele estava, mas ainda assim ele se fixou ali. Parecia hipnotizado. Na verdade ele não estava olhando pro sol. Só parecia ter ocorrido algo em sua mente que foi desperto pela imagem do sol, e ele mergulhou em si mesmo.&lt;br /&gt;Sílvia foi até a pia e lavou o rosto. Escovou os dentes, penteou o cabelo. Não entendi aquilo muito bem, pois imaginei que teríamos tudo isso no abrigo para o qual estávamos indo. No entanto, aquilo me agradou. Ela ficou linda depois de tão simples cuidados. Era a beleza natural dela. Tentei não olhar muito, por imaginar que fosse constrangedor, mas sempre acabava olhando de novo.&lt;br /&gt;Eu nunca vi um olhar como aquele. Eu tinha a impressão de que ela sabia de tudo e que, no entanto, conservava a humildade. Muito diferente de mim, que não sei de nada e ainda assim de mantenho, por vezes, com a postura de que sou algo.&lt;br /&gt;Meu fascínio por sua imagem jamais poderia encontrar correspondência, é fato, mas meus olhos ignoravam meus pensamentos e expectativas. E isso me agradava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Finalmente, né Felipe? – disse eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele me olhou por uns dois segundos e depois fixou os olhos no chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Estamos próximos do fim. O fim da linha. – respondeu&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Como assim? – perguntei&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O que você pensa sobre a metafísica? – perguntou ele como que alheio à minha pergunta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não me importava tanto e ver tal pergunta respondida, então só continuei o diálogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Penso que, do ponto de vista prático, nunca apresentou grande utilidade. No entanto, todo um universo magnífico e metafísico existe dentro de mim. Às vezes penso que ele não é coisa minha, mas uma interpretação da realidade das coisas por trás da ilusão dos sentidos.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não tem utilidade prática? Mas toda a ciência é baseada em metafísica! – respondeu ele. – tudo o que pensamos é metafísica na essência!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Meus delírios metafísicos não são empregados em nada do que é considerado científico. Não estou falando de premissas metafísicas de pensamentos, mas sim de todo um universo alheio.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu sei. Então, respondendo a sua pergunta. Foi desse universo que eu soube que estamos no fim da linha. Hoje nosso destino será decidido.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas que papo maluco é esse aí? – perguntou Augusto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei pra ele com um misto de raiva e desprezo, ao que ele imediatamente se calou. Não respondemos a sua pergunta.&lt;br /&gt;Pobre diabo. Não tem culpa alguma. E, no entanto, não consigo deixar de alimentar certa antipatia por ele por causa de Isabela. Eu estava num dilema. Não sabia se odiava ou se amava as mulheres. Talvez as duas coisas ao mesmo tempo. Eu tinha diante de mim uma deusa e uma prostituta. E ambas aparentavam ser igualmente femininas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É isso o que as mulheres são. – disse Felipe. – querem sugar até a última gota do seu sangue, e se revoltam quando não conseguem. Pensam que são a coisa mais importante na vida de um homem e que deveriam ser tratadas como um tesouro. São criaturas com cabelos grandes, cérebros pequenos e corações mesquinhos.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ta lendo meu pensamento, é? – respondi. – mas olha só pra Sílvia. Olha pra ela e repete tudo isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele olhou nos olhos dela. Tentou falar, mas não conseguiu. Ela deu um sorriso tímido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vocês não têm que falar de mim na terceira pessoa se estou aqui do lado, sabem? – falou num tom matinal.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; E não consigo falar pra ela porque há impulsos me impedindo, provavelmente porque eu quero transar com ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela o fitou com um olhar confuso entre repreensão e pensamento. Eu não sei dizer se ela estava se sentindo incomodada ou se só estava se esforçando pra entender,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É nisso mesmo que você acredita? – perguntou&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Creio ser o mais razoável.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; E o seu mundo metafísico?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Delírios. São só delírios. – disse Felipe num tom rude&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele ponto eu já estava totalmente fora da conversa, mas me interessei tanto que não parei de prestar atenção num momento sequer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Fala dos seus delírios pra mim? – disse ela sem se importar com a agressividade dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece que porque ela não se importou com sua agressividade ele ficou desarmado. Voltou a se deitar no chão sobre um colchonete de acampamento. Olhou pro teto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É tanta coisa...&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Conta teu sonho de hoje. Como foi?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu estava deitado no seu colo, e de repente entrei pelo seu umbigo até o sue útero. Era gigantesco e eu podia nadar ali. Lá dentro eu encontrei uma espada em miniatura que eu sabia que ficaria gigante. Fiquei por alguns momentos praticando movimentos com ela. Muito leve. Dentro de você ela estava limpa, mas quando eu saí, o sol brilhou na direção da lâmina e eu vi várias camadas de sangue. Cada uma marcando a passagem de um dono. Eu viajei pelo tempo como se fosse espaço e pude ver dezenas de homens usando a espada. Não era propriamente homens com corpos, mas espíritos, porque muitas vezes o corpo era diferente mas eu sabia que se tratava do mesmo.Nasci prematuro e matei o médico que me puxou do seu útero. Quando pisei no chão, que era branco e limpo, ele se tornou negro e imundo. Como se o pus tivesse sido queimado a muito tempo. Então você desapareceu. Aí acordei e&amp;nbsp; vi o sol exatamente como estava no sonho refletindo na espada. Até a montanha bloqueando a luz era a mesma.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Como você entende esse sonho? – perguntou ela.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você representa uma figura materna, para a qual minha energia sexual se dirige. Ao querer te comer, eu quero entrar dentro de você para voltar ao ventre materno e renascer.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; E a espada?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ela é o símbolo do meu destino. Eu vim para esse mundo com o intuito de destruir.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porque você matou o médico?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porque ele mandou.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ele mandou nesse sonho?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Não é a primeira vez que sonho com esse sujeito. No último sonho eu recebi ums carta com a missão de matá-lo assim que conseguisse a espada. Tenho uma espécie de vida paralela nos devaneios e nos sonhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sílvia assentiu fechando os olhos e movendo lentamente a cabeça. Não consegui entender aquilo. Será que ela estava efetivamente dando a ele sua aprovação num pensamento como esse? Estaria ela, na posição em que estava autorizando Felipe a destruir? Pra mim pareceu irresponsabilidade, precisamente porque nós dois olhávamos pra ela com um ar de respeito e admiração. Por causa da imagem que eu tinha dela, pensei que havia mais ali do que eu estava vendo. Olhei para Sílvia pelo retrovisor e ela pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É lícito, então, que uma pessoa tenha como objetivo principal de existência a destruição? – perguntei me defendendo com termos rebuscados&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O lícito e o ilícito são classificações do homem que, com sua consciência limitada e frágil, imagina poder colocar ordem nas coisas. Só que a verdadeira lei não s submete aos seus arbítrios e continua funcionando por si mesma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parei por um instante refletindo sobre aquilo. Felipe mergulhou em si mesmo, e a partir daquele momento se manteve alheio ao nosso diálogo como se não lhe dissesse respeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É, então, possível que a existência de um indivíduo seja simplesmente voltada para a destruição?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É possível que toda uma vida seja voltada apenas a isso. Mas você não tem diante dos seus olhos toda uma existência, porque pensamento algum pode ver tão longe. Nem os mais sábios podem, com seus pensamentos e suas conjecturas, ver tão longe, porque estaríamos esbarrando no infinito. Apesar disso, todo esse espaço é irrelevante, pois só há o presente de verdade. Vou responder à sua verdadeira pergunta: não.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Como assim minha verdadeira pergunta?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pense bem. Vai ver qual é sua real dúvida aqui.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não sei do que você está falando.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sabe sim. Só está desacreditando sua intuição. Ela é a sua força guia. Não percebeu isso ainda?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei pra janela ao meu lado esquerdo. Abri um pouco o vidro e deixei um pouco de ar entrar. Não vi qualquer sentido no que ela estava dizendo. Como minha verdadeira pergunta? Imaginei que ela poderia não passar de uma lunática e que eu a estava superestimando por conta da minha tendência a mistificar as coisas, então acabei deixando isso de lado.&lt;br /&gt;E minha alma se remoia por dentro, pois eu conseguia ver dali o joelho e a canela de Isabela. Estava dormindo no colo do augusto. Todo o trailer estava muito apertado.&lt;br /&gt;Eu sentia um rancor terrível. Eu odiei o mundo profundamente. Esse lugar imundo e infectado por bestas incapazes de qualquer reação minimamente humana. Povoado por tais criaturas abomináveis que não possuem nenhum controle sobre si e nenhum senso. Nem ela, que imaginei ser minha musa, seria capaz de me fazer companhia. Felipe até poderia ser um amigo, mas vivi imerso num rancor que criava nele um casco. Era impenetrável, e imaginei que jamais poderia esperar amizade dele.&lt;br /&gt;De qualquer maneira, não era só amizade que eu queria. Eu queria toque, carinho, companhia feminina. Naquela manhã ainda por cima eu estava com vontade de comer ela, coisa que eu podia ter feito tantas vezes, mas não fiz.&lt;br /&gt;Meu ódio começou a me dar força e depois sugar, num ciclo meio louco. Mas ninguém percebeu que eu estava mal. Ao menos foi isso que eu percebi na hora, mas minha visão estava imersa em neblina...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Roberto, vire na próxima esquerda. Estamos chegando. Finalmente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao ouvir isso, Kimberly despertou. Eu nunca mais vou esquecer de como ela estava. Apesar de aquele ser o momento pelo qual todos esperávamos, ela estava como que letárgica. Olhava para as coisas pás parecia fora de orbita. Como se estivesse sempre meditando, mas nalguns momento eu percebi que ela estava tentando se comportar naturalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tudo bem contigo, querida? – perguntou Jack&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tudo. É que acabei de acordar. To meio lenta ainda. – ela respondeu&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas você sempre acorda com a corda toda.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É. Vai ver eu ainda estou um pouco cansada. Não sei o que tenho, mas não me sinto mal. Só como se estivesse sob efeito de sedativo ou algo assim.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tomou algum remédio?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Nada.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Fica sentada e não faz extravagância. Quando chegarmos lá deve ter algum médico pra te examinar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela olhou nos olhos dele por uns segundos e não disse mais nada. Abraçou as pernas, que observei com cuidado naquele momento. Que gostosa.&lt;br /&gt;Minha abstinência estava me matando e eu estava no carro com três mulheres lindas, com as quais eu não poderia ter nada. Até aí se estendeu a minha revolta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Atenção, companheiros. Em aproximadamente uma hora nós chegaremos no nosso refúgio. – disse Jack em voz alta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felipe olhou pra ele, Sílvia arrumou o cabelo. Isabela de um pulo repentinamente uns 15 segundos depois de Jack fazer o anúncio ficou, por uns instantes, ofegante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tudo bem contigo, querida? – disse Augusto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Querida é o caralho, pensei comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Caralho o quê? – disse Jack&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensei alto, ao que parece. Até hoje eu não sei se eu falei toda a sentença ou só o caralho. E provavelmente nunca saberei, dadas as circunstâncias. Mas eu não me importava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; A gente tem mesmo que ir pra esse lugar? – disse ela&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É a nossa melhor esperança. – respondeu Augusto. – porque essa pergunta agora?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ah. Não é nada. Só um pesadelo que eu tive. Acordei ainda meio confusa, sem saber distinguir o real do sonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de detestar até mesmo o som da voz dela, eu também não conseguia simplesmente deixar de ouvir e de me preocupar. Quis perguntar como foi o sonho, mas estava aborrecido demais pra falar. Augusto não demonstrou nenhum interesse no sonho, então ficou por isso mesmo. Nunca tive a oportunidade de ouvir o sonho dela, mas agora imagino que ele pode ter sido, de alguma forma e até certo ponto, um sonho premonitório.&lt;br /&gt;Felipe voltou a deitar no colo de Sílvia e Kimberly apoiou o queixo no joelho e começou a se balançar de um lado pro outro. Jack começou a organizar as armas e todos os recursos disponíveis para desembarcar e descarregar para dentro do refúgio. Todos sabíamos que esse refúgio poderia já ter caído, pois havia contactado as forças armadas convocando-os para lá, sendo, talvez, um pedido de socorro.&lt;br /&gt;Acelerei o trailer e Jack quis me alertar sobre o risco, mas não se importou. Pensou que eu só estava com pressa. Mas eu estava cheio de raiva nem percebi que aumentei a força no pedal e que a velocidade. A cada instante que se passava a minha raiva aumentava. Não me lembro da última vez em que eu senti tanto ódio direcionado e por tudo ao mesmo tempo.&lt;br /&gt;Vimos uma espécie de fortaleza bem longe, e Jack a viu com binóculos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Só pode ser aqui. Há homens alinhados nos muros. Infectados não fazem isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei uma risada maliciosa e discreta. A mim parecia claro que esses monstros eram sim capazes de simular certos comportamentos humanos. Principalmente os jumpers. Mas eu queria mesmo que fosse infectados e que todos morressem. Sílvia conseguiria se salvar e talvez também Felipe. Eu nem tinha interesse em me salvar. Também tinha um acentuado ódio por mim mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Posso ver? – perguntou Augusto em inglês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem imagino porque ele usou essa linguagem. Na hora eu estava procurando motivo pra me irritar, então acabei imaginando que ele só queria se auto-afirmar. Senti vontade se bater nele, mas não podia sair do lugar e provavelmente nem seria capaz de fazê-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Roberto, teremos que dar uma volta naquela colina. Não há como subirmos por ali com esse trailer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu apenas olhei nos olhos dele. Não queria dizer nada pra ele. Na verdade, eu queria assistir sua cabeça explodir diante de mim. Eu estava cheio de ódio.&lt;br /&gt;Como eu estava bem rápido, chegamos logo na colina e virei à direita pra dar a volta nela. Havia mesmo uma estrada de terra batida. Provavelmente para caminhões.&lt;br /&gt;Havia um rio peculiar ali. Era, na verdade, um abismo no fundo do qual corria água. Não pude ver direito porque ele estava do lado direito do carro e a minha janela me mostrava só um monte de mato. A volta foi relativamente longe e com algumas curvas. Estranhamente, passei pelas curvas com facilidade, mesmo sem saber dirigir. Até troquei de marcha num ponto, o que eu não conseguia fazer com facilidade. Depois de uns vinte minutos nós chegamos na frente da fortaleza, onde havia uma porte enorme fechada. Não era uma entrada para carros. Parecia mais uma entrada daquelas antigas, embora o aspecto da fortaleza em si fosse bem moderno.&lt;br /&gt;Identifiquei que os homens lá em cima eram jumpers pela intuição, mas eles nos ignoraram completamente. Estavam como que de guarda contra um perigo que nada tinha a ver conosco.&lt;br /&gt;Ninguém sabia se deveríamos mandar algum sinal, se sabiam da nossa presença. Esperamos alguns minutos dentro do carro até que Kimberly se levantou. Foram os últimos instantes de calma.&lt;br /&gt;Ela foi devagar até a porta e olhou para Jack. Ainda estava como que dopada. Saiu pela porta e uma bala de fuzil atravessou sua cabeça.&lt;br /&gt;Jack correu instintivamente e começou a atirar na direção da frente do trailer, para onde eu estava olhando. Os tiros vieram de um jipe militar, do qual três militares americanos atiravam. Eu vi os olhos de um deles por uns segundos. Estava concentrado e mirando na minha cabeça. Estava pronto pra me matar.&lt;br /&gt;Fechei os olhos e ouvi um disparo.fiquei assustado de início, mas logo percebi de onde ele veio. Augusto acertou a cabeça do atirador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pra dentro porra! Bora! – gritou augusto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi tudo muito rápido. Jack estava com o portão aberto e Augusto atirando contra os militares. Os jumpers não reagiam. Felipe foi o primeiro a entrar e Sílvia desapareceu.&lt;br /&gt;Antes de Isabela sair, um jumper pulou contra a porta e a trancou dentro do carro. Augusto tentou enfrentá-lo, mas foi derrubado. O monstro amassou a porta de tal maneira que Isabela não conseguia mais abri-la. Depois parou por uns instantes e subiu no muro de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Caralho esse lugar já foi infectado! Vota, porra! – disse Augusto&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Volta pra onde?! – gritou Jack.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele correu até a entrada do carro, onde o corpo de Kimberly estava jogado. Se abaixou&amp;nbsp; e começou a chorar. Felipe não voltou de dentro da fortaleza e eu estava ali no meio sem nenhuma arma. Corri pra dentro.&lt;br /&gt;Havia um pátio enorme iluminado pela luz do so que entrava por enorme janelas. Algumas estátuas ficavam ordenadas formando uma espécie de corredor, no qual havia um tapete vermelho com as bordas brilhantes. Era lindo, embora sombrio. A parte brilhante, enquanto você não a fitava, parecia sangue corrente. Todo o ambiente tinha um peso maligno que me agradava. Principalmente naquele momento.&lt;br /&gt;Na medida em que eu ia me aprofundando, a intensidade da luz diminuía. Meus olhos foram se acostumando com a escuridão.&lt;br /&gt;Ouvi os tiros lá de fora. O eco se espalhava pelo ambiente amplo. Jack e Augusto estavam lutando lá fora. Ignorei o som e continuei andando como que ao acaso. Virei num corredor à direita e depois à esquerda de novo. Continuei na mesma direção, mas fora do corredor principal.&lt;br /&gt;No final desse corredor paralelo, havia uma escada. Eu estava andando sem ter nenhuma noção de onde estava e para onde estava indo. Andava por impulso, como se ali fosse minha própria casa, mesmo estando alheio a tudo que havia por ali.&lt;br /&gt;No fim da longa escadaria, direi à esquerda e andei um pouco. Havia uma parte da parede aparentemente destruída, com concreto espalhado pelo corredor.&lt;br /&gt;Mas quando cheguei parto, percebi que justamente do buraco destruído saía uma espécie de corredor. Na verdade era mais como uma passarela, mas com estilo antigo. Toda bem feita, num estilo clássico. Imagino que existem melhores para definir isso, mas não prestei tanta atenção e nem conheço bem esses nomes. Era uma passarela a céu aberto, com uma cerca feita, aparentemente, de cerâmica que ficava na altura da minha cintura. No final dela Felipe estava de pé com um homem de terno. Estavam de frente para as montanhas que ficavam ali atrás.&lt;br /&gt;Continuei caminhando na direção até que levei um susto. O monstro gigante apareceu diante deles. Estava como que abaixado ali.&lt;br /&gt;Só era possível ver seus ombros e sua cabeça por conta da altura daquela passarela que, percebi, não levava a lugar algum. Acabava ali.&lt;br /&gt;O monstro olhou pra mim com um sorriso irônico, ao que Felipe e o homem notaram minha presença. Continuei andando na direção deles da mesma forma como andava no interior da fotaleza. Impulsivamente.&lt;br /&gt;Quando cheguei diante deles levei um susto. Aquele homem era idêntico ao velho que eu vi nos meus sonhos. Que jogava cartas com Mefistófeles. Ele era, de alguma maneira louca, meu irmão.&lt;br /&gt;Era naquele dia, senti, que eu iria descobrir meu verdadeiro destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Então espere até que você tenha aprendido o necessário. Aí sim você poderá assumir sua posição de direito. – disse o velho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei diante deles e o monstro não gostou da minha presença. Ele virou as costas para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quem é esse? – perguntei olhando pro monstro.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pelo que eu sei, seu maior inimigo. – disse o velho.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porque meu inimigo?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não se faça de besta, irmão. Não precisa aqui fingir que não sabe as coisas que sabe. Não estamos entre idiotas. Sabe muito bem o que você já fez contra ele.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Esse rosto me é familiar. – disse Felipe. – ele era alguém famosos antes de se transformar nisso?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Só se você está inteirado acerca de questões de economia. Ele era um banqueiro. Aliás, por mais que os outros não quisessem assumir a quantidade de dinheiro que possuíam, ele alega que era o homem mais rico.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Irônico ele se transformar nesse monstro, não? – perguntou Felipe&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Nem um pouco. Na verdade é o mais sensato. O nível mental selecionado para que um homem possa ocupar a posição que ele ocupava é perfeito para esse tipo de psicoinfecção.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Como assim? Que tipo de infecção é essa? – perguntei&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Dentro dos conhecimentos que você é capaz de manifestar, que são baseados na informação trocada por aqui, explicar isso fica difícil. Até mesmo essa palavra é demasiadamente ambígua. O que quis dizer é que a infecção em si possui um núcleo psíquico com o qual ela realiza todos os seus processos, desde controle até recepção de energia.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quê? Recepção de energia?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você só precisa despertar, irmão. Sobre tudo isso você tem um conhecimento tão aprofundado quanto eu.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quer dizer que a esfera que fica dentro dos infectados não produz energia? – perguntei.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; De maneira alguma. Só produz energia como última alternativa, quando não pode receber energia de fora. Mas dura apenas alguns segundos.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eles gostam do deserto! Caralho! A água!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Viu como está em você?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha cabeça estava num estado de euforia. Muita informação como que jorrando de dentro de mim. Agora tudo fazia sentido. Os monstros não nadavam, fugiam da chuva. A infecção não se desenvolvia dentro da água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Então isso não é como uma infecção viral ou por bactéria, certo? – perguntei&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É uma infecção por consciência. Irmão, tente se lembrar do que sabe antes de me fazer esse tipo de pergunta. Não sabe você mesmo que a consciência está entranhada em todas as coisas?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Desde a primeira mordida, tudo é controlado por inteligência, e não há sequer uma reação puramente química na infecção. Então há como resistir a essa infecção?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Poucos podem fazer isso. Somente os mais hábeis em força de consciência, como os dragões. É o caso deste que está diante de você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente mais uma torrente de informações loucas e, no entanto, surpreendentemente coerentes surgiu na minha mente. Aquela besta me perseguiu por tanto tempo que mal me lembro de existir sem ser perseguido. Como se eu tivesse vivido várias vidas em vários mundos. E já tivesse feito muito mal contra essa criatura, até que agora, finalmente, ela tomava o meu lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tudo isso foi só por querer meu lugar?&lt;br /&gt;A criatura se virou e me olhou nos olhos. Fiquei surpreso quando ela começou a falar, com uma voz bizarra de tão gutural.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Finalmente eu alcancei a liberdade! Agora o seu reinado caiu e o meu começou!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que patético. Você não amadurece?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Segundo que perspectiva? Você caiu nas garras daquela vadia. Era a nossa única inimiga comum que, no entanto, sempre amamos.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você é um escravo. Tudo o que te motiva é teu próprio orgulho e essa ganância insaciável. Tomar o meu lugar não será o suficiente.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tem razão. Ainda preciso de mais. Vou destruir você completamente. Cada aspecto do seu novo mundinho dos sonhos será demolido. Você não está em condições de me enfrentar. Toda essa merda que você aprendeu a amar deixará de existir!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quer destruir todas as coisas que existem? – perguntei&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É o destino do universo. – Disse Felipe. – tudo será reduzido a nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei pra ele sem saber muito o que dizer. Eu tinha em mente que isso era e não era verdade como que por intuição, mas não encontrava uma maneira de explicar tal concepção. Ficamos em silencia por uns instantes e acabei mudando de assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas quem é Mefistófeles? Sei que não é você... – perguntei&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quem? Mefistófeles? Entenda, primeiro, que esse nome foi você quem escolheu. Na verdade, ele não pode ser classificado com um nome. Eu o chamo de A destruição, porque é a única palavra que conheço que se aproxima do que ele é. Pra ele não existe tempo nem espaço, e também não há nada que ele não saiba. Nós comparamos e refletimos para tentar entender. Mas ele sabe de tudo, então não precisa comparar. Ele deixou de conhecer e passou a ser. Ele é a destruição inerente a tudo, e portanto é onipresente. Nada escapa ao seu poder de destruição e nada existe que seu intelecto não englobe. A destruição foi trazida para esse mundo no momento em que Mefistófeles voltou seus olhos para cá. – Respondeu o velho&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas por quê?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não existe porque para ele. Porque não existe passado. Também não existe para quê. Não existe futuro. É porque é. Só é, nada mais.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tenho um nome melhor. – disse Felipe&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Qual? – perguntei&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; A realidade última. Dizer que ele é a destruição presume que há algo que o contraponha diretamente. Mas o que vai para além desse vazio que sucede a destruição não passa de imaginação.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; E Sílvia? – perguntei&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ela coopera conosco, não percebe? – interferiu o velho. – porque acha que ela não está aqui defendendo algum tipo de ideal contrário? Ela entregou vocês dois para serem servos da destruição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senti como que um frio na barriga. Uma pergunta começou a me torturar. Será que era realmente o nosso destino? Será que era aquele o motivo, em última análise, de toda a minha existência?&lt;br /&gt;Eu ouvi Sílvia dizendo: não. E repeti aquilo impulsivamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Hahahaha! Eu sabia! Você nunca mereceu sua posição!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho me olhou com um ar de decepção. Me deu as coisas e deu algo como um comando para o gigante, que saltou em direção à frente do prédio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você sucumbiu ao poder dos nossos inimigos, irmão. Não tenho escolha senão destruir a força motriz desse poder em você.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ele não terá problemas com a morte de Isabela. Parece que ele se motiva por outra coisa agora. Estranho é que Sílvia nunca disse nada disso pra ele.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vai matar Isabela? – perguntei assustado&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; A morte dela só acentuaria o poder deles sobre você. Vamos trazer essa criatura desprezível para o nosso lado e te mostrar que ela não possui qualquer merecimento e que não conseguirá ir além da existência de um infectado qualquer. Vai ver que ela nunca mereceu toda essa dedicação que você dá a ela e que, em última análise, tal ilusão jamais poderia se renovar.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu não estou iludido quanto a ela, mas você não tem o direito de infectá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouvi o berro do gigante e dei dois passos pra trás. Felipe me olhava num tom de curiosidade. Dei as costas e eles e comecei a correr. Apesar de o chão naquela passarela ser um pouco escorregadio eu consegui alcançar minha velocidade máxima de corrida sem problema. Quando cheguei na parte destruída do corredor, escorreguei com a poeira ali acumulada e caí com o braço direito em cima de um bloco de concreto. Sobre um pequeno corte, mas tinha uma dor terrível no interior, bem no cotovelo. Senti como se a junta estivesse deslocada.&lt;br /&gt;Levantei correndo e desci a escada. Quase caí quando estava chegando no nível térreo, mas consegui me manter de pé. Eu nem sabia o motivo de estar correndo. Ela havia me abandonado e eu jamais conseguiria ter seu amor. Aliás, o amor que eu desejava da parte dela inexistia. Não só ela não estava disposta a me dar o que eu queria: ela não possuía aquilo que eu tanto queria.&lt;br /&gt;No entanto, outra força motriz me mantinha correndo. Eu tinha que perseverar, por algum motivo que eu simplesmente desconhecia.&lt;br /&gt;Quando cheguei na entrada vi Jack puxando augusto para dentro. Aparentemente, estava nocauteado. Não sei dizer o se foi o gigante que o derrubou de vez. Dos dois americanos atirando, apenas um continuava de pé. Era ele contra Jack.&lt;br /&gt;Como o monstro passou a ignorá-los, ele correu na direção da fortaleza. Fiquei parado olhando aquela cena por alguns segundos, até que a criatura abriu o traler pelo teto e pegou Isabela. Lançou ela no chão gramado e deu um de seus berros. Nem tocou nela depois disso: simplesmente saltou e foi embora, sem, no entanto, perder a oportunidade de me olhar num tom provocativo.&lt;br /&gt;Corri até o corpo de Isabela com a intenção de carregá-lo para dentro, mas sabia que ali dentro não era nem um pouco seguro. De qualquer maneira, tentei arrastar o corpo dela pelo gramado com minha mão esquerda, enquanto a minha direita estava doendo muito.&lt;br /&gt;Uma multidão surgiu subindo pela colina e atropelou o homem perto o jipe. Não o atacaram, mas apenas pisotearam seu corpo até um ponto que fui difícil acreditar que ele estava vivo. Por certo não foi meu velho irmão que mandou ele nos atacar. Ainda não descobri que era aquele homem que nos atacava, e receio que talvez nunca descubra.&lt;br /&gt;Eu não teria tempo de arrastar o corpo da Isabela até o interior, então chamei Jack e corri na direção dos infectados. Parei e acenei com o braço esquerdo gritando. Eles prestaram atenção em mim e correram na minha direção.&lt;br /&gt;Felipe estava certo: por maior que seja a sua raiva, quando a multidão é grande demais você não tem como Pará-la. Se torna uma massa totalmente irracional para a qual nenhum tipo de sugestionamento se mostra verdadeiramente efetivo.&lt;br /&gt;Corri colina abaixo na direção do rio, mas a inclinação era íngreme demais e eu caí. Fui rolando até a estrada, onde cortei meu braço direito numa pedra. Isso sem falar que ele já estava deslocado. Tive medo de perder meu braço, mas continuei correndo para não morrer, pois assim ambos os braços seriam irrelevantes.&lt;br /&gt;Novamente caí rolando e bati com o joelho direito numa arvore. Estranhei o fato de que eu só me feria do lado direito e essa foi a última coisa que pensei antes de cair dentro do rio.&lt;br /&gt;A água estava congelante e eu nem sentia mais a dor dos meus ferimentos anteriores: sentia apenas aquela dor por todo o corpo decorrente das queimaduras com o frio.&lt;br /&gt;Comecei a tentar nadar, mas não havia nada por perto em que eu poderia me segurar e nenhum caminho para subir. Nadei contra a correnteza, mas meu braço e minha perna estavam feridos. E precisamente os direitos, que sempre foram mais fortes.&lt;br /&gt;Alguns infectados caíram e realmente morreram, se é que posso usar o termo morte, depois de intantes.&lt;br /&gt;Passei por uma pedra pontiaguda e consegui me agarrar nela. Meu corpo doía muito e eu tinha dificuldades para respirar. Imagino que porque eu estava tremendo muito.&lt;br /&gt;Fui perdendo as forças muito rapidamente e percebi que aquilo de me segurar não me levaria a nada. Toda a minha vida passou diante dos meus olhos. Eu sempre estive assim: me segurando numa pedra e impedindo tudo de fluir. Mas eu não podia mais lutar contra o inevitável. Algo passou pela minha mente:&lt;br /&gt;“Preciso me guiar como a água e ser como a água. Não sou eu quem faz o caminho, mas é ele quem me faz.”&lt;br /&gt;Todo o meu receio desapareceu e eu olhei para trás: havia ali uma queda d’agua. Não senti medo e me soltei na água. Abri os braços e comecei a boiar. Não foi difícil.&lt;br /&gt;Abri os olhos e olhei pro céus. Minha mente estava, naquele momento, totalmente vazia. Sem rancor, sem arrependimentos... Tudo que havia era nuvens bonitas no céu e meu corpo flutuando. Caí na cachoeira sem gritar e afundei profundamente na base. Eu não sei dizer até onde foi um delírio. Mas afundei muito e as águas, que pareciam estar prestes a me consumir, fizeram meu corpo dançar.&lt;br /&gt;Elas me moviam de um lado para o outro numa coreografia linda que eu jamais conseguiria executar por contra própria. Meus braços se moviam com fluidez e eu girava dentro da agua. Como poderia água fazer tal coisa? Seu movimento não é caótico e inconsciente? Ou será que existe, por detrás do aparente caos das águas, alguma diretriz?&lt;br /&gt;Só me pergunto isso agora, porque no momento eu não pensava nada. Só dançava como a água ditava. Acabei ficando sem ar e fechei os olhos. Morrer dançando segundo os comandos da água. Não seria essa uma morte feliz?&lt;br /&gt;De repente eu estava num jardim. Apesar de eu normalmente não perceber bem os detalhes da aparência das coisas, todo o aspecto daquele lugar me encantava. Havia no centro do jardim um altar, no qual duas mulheres flutuavam com seus olhos fechados. Nunca na minha vida eu vi coisa tão linda.&lt;br /&gt;Cada uma englobava uma polaridade, e cada uma tinha sua própria beleza. Apesar de que pareciam gêmeas em seus traços gerais, o arranjo de cores a diferenciava profundamente. Uma delas era a pureza de espírito diante do sol nascente. Toda a sua forma era pura e imaculada. Delicada e singela: ela era como um anjo. Tinha origem tão alta nos céus que nada nesse mundo poderia macular tal santidade.&lt;br /&gt;A outra era monocromática e parecia mais provocante do ponto de vista carnal. Em volta dela havia escuridão condensada, como se a noite a seguisse mesmo no amanhecer. Havia sangue escorrendo pelo seu rosto, o que indicava que ela não era anjo. Ela não vinha dos céus, mas era fruto da terra.&lt;br /&gt;A primeira era envolvida por uma faixa branca, enquanto que a segunda era contornada por outra preta.&lt;br /&gt;Ambas estavam na mesma posição, que identifiquei como sendo aquela que estava à minha espera.&lt;br /&gt;E andei na direção delas lentamente como uma filha é levada pela brisa. Andei até ela e, diante delas, vi duas esferas. Elas, de alguma maneira que não posso descrever, se uniram e se tornaram uma esfera maior.&lt;br /&gt;Quando toquei nas duas e tentei abraçá-las, entrei para dentro da esfera que começou a rodar violentamente.&lt;br /&gt;Foi tão intensa a rotação que as cores do ambiente começaram a se tornar indistinguíveis. As imagens, inicialmente tão antagônicas, de fundiram num jogo confuso de cores, o qual é impossível de ser descrito detalhadamente. O que sei dizer é que ela se tornaram uma e a esfera foi lançada longe no céu.&lt;br /&gt;As duas ficaram lá, indiferentes à minha partida. Como que sentindo minha confusão por me separar delas, algo apareceu escrito diante dos meus olhos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que gera e cria&lt;br /&gt;Gera mas sem se apossar&lt;br /&gt;Age sem querer para si&lt;br /&gt;Cultiva mas sem dominar&lt;br /&gt;Chama-se Misteriosa Virtude”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era o que elas estavam ali fazendo. Elas me geraram. Entrei no útero das duas e à partir daquee momento passei a ter duas mães. O elemento feminino em todos os seus aspectos me gerou, e foi dele que a pessoa que existe hoje passou a existir. E eu não era algo a ser dominado. Simplesmente mais um fruto do útero que é lançado no mundo.&lt;br /&gt;A esfera caiu no mar e afundou. A água passava por ela livremente, mas eu não sentia falta de ar. Na verdade, somente naquele momento que eu pude respirar livremente. Foi um momento muito lindo.&lt;br /&gt;A água estava límpida e eu podia ver a luz penetrando na água. Não havia peixes ou qualquer ser vivo ali.&lt;br /&gt;De repente eu vi algo vindo, um vulto sem muita distinção. Prestei atenção e percebi que era uma enorme baleia. Era bonita, e eu sabia que não devia temê-la. Não tinha nenhuma intenção de me devorar.&lt;br /&gt;Parou diante de mim e eu pude ouvir um agudo som se propagar pela água. Era esse o som e essa a imagem que eu precisava ouvir naquele momento. A baleia veio simplesmente se mostrar a mim, sendo ela o próximo mistério a ser desvendado.&lt;br /&gt;Fui puxado para fora do mar violentamente e a esfera foi se desfazendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei no colo de Sílvia. Foi bom ver o rosto dela ali quando acordei. Tão lindos, aqueles traços. Eu não estava pensando nada. Só olhando pra ela e ela pra mim. Ela sorria e seus olhos brilhavam. Por algum motivo, meus ferimentos haviam desaparecido. Até hoje não sei como foi que aquilo aconteceu. Será que eu estava fora de mim e, na verdade, nunca me feri? Será que eu fui curado? Será que ela me curou?&lt;br /&gt;Não sei dizer, mas eu estava bem. Aliás, a água que estava em mim era quente.&lt;br /&gt;Não falamos nada. Só ficamos ali por uns instantes.&lt;br /&gt;Um mosquito grande começou a voar entre nós dois e ela se distraiu com ele. Eu acabei distraído com ela, que tentava espantar o inseto e o fitava com um ar lindo, ingênuo, de menina. Não imaginava esse tipo de beleza nela, que era uma mulher madura.&lt;br /&gt;Naquele momento eu me dei conta de que nós nos separaríamos por tempo indeterminado. Ela não podia ficar ali comigo. Tinha suas próprias missões a cumprir, e comigo não tinha mis assuntos a tratar por hora. Levantamos e caminhamos pela floresta. Bem densa, mas com uma trilha bem delimitada que nos levou até uma longa estrada. Havia na estrada uma tenda com instrumentos médicos e um notebook. Ele estava conectado na bateria de um carro que estava estacionado ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sente-se e escreva tudo o que você viveu. Escreva tudo o que sair da sua mente. Depois leia tudo quantas vezes foram necessárias para que você entenda detalhadamente o que se passou no seu corpo e no seu espírito. Quando estiver consciente de todas essas coisas e se sentir seguro, pegue aquele carro e vá por essa estrada. Simplesmente vá. Os ventos te dirão qual é o teu próximo destino. – disse ela.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Nos veremos novamente? – perguntei em voz baixa&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu não sei dizer. O futuro fica no futuro. Talvez eu te veja amanhã, talvez nunca mais tenhamos contato. Mas não se preocupe com o futuro. Você tem que viver agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me olhou com um sorriso carinhoso pela ultima vez e simplesmente saiu andando para longe da estrada, na direção oposta àquela do qual viemos. Eu não vi nada naquela direção que poderia ser interessante, e ela também não, provavelmente. Mas andou sem se preocupar com isso, da mesma maneira que eu farei logo em breve, quando terminar de entender tudo aquilo que se passou na minha jornada.&lt;br /&gt;E não acaba aqui. Na verdade, creio que nunca acaba. No entanto, esse período passou, e sinto ago como uma sensação de realização. Eu tinha uma missão nesse período e a cumpri. Agora cabe a mim entender tudo o que se passou e pegar o carro.&lt;br /&gt;Apesar de que vou direcionar sozinho meu próprio caminho dirigindo, não serei eu a determinar qual será o meu destino. Eu vou fluir como um rio e voar como os ventos. Sem preocupações, sem passado e sem futuro. Só dançando segundo a melodia da vida...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;b&gt;Fim do primeiro Ato &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4664356695252564512-8613003814605916350?l=biohazardalimpeza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://biohazardalimpeza.blogspot.com/feeds/8613003814605916350/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4664356695252564512&amp;postID=8613003814605916350' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4664356695252564512/posts/default/8613003814605916350'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4664356695252564512/posts/default/8613003814605916350'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://biohazardalimpeza.blogspot.com/2010/01/capitulo-22.html' title='Capítulo 22'/><author><name>Silas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08560610846360060486</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/ScXDtIGMN9I/AAAAAAAAABQ/YF39-2VxJ3k/S220/zumbi.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/S0Chawo4JCI/AAAAAAAAAVk/3yyoZb-zolM/s72-c/teste2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4664356695252564512.post-2483682233905671971</id><published>2009-12-19T10:51:00.000-08:00</published><updated>2009-12-20T07:00:34.811-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Capítulo 21'/><title type='text'>Capítulo 21</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/Sy0gg94jB-I/AAAAAAAAAU4/hTB__xqLYI8/s1600-h/amor-e-odio.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/Sy0gg94jB-I/AAAAAAAAAU4/hTB__xqLYI8/s400/amor-e-odio.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O homem se move por amor e ódio. Por piedade e vingança. Cada uma dessas coisas se multiplica quando toma forma. Amor gera amor e ódio gera ódio. E vivemos nessa guerra, onde nenhum parece vencer. Se num lado alguém ama, no outro alguém odeia. Se alguém salva, outro alguém mata. O mundo se constrói e se destrói, e cabe a nós tomar a decisão. Cabe ao ser humano destruir ou construir. Construir dentro de si o paraíso ou o inferno. E não importa quanto tempo passe: Sempre haverá poder dos dois lados. Mas transcender os dois é um passo inevitável...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Major Robert...&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Suas lágrimas de ódio banharam o travesseiro. Ele esmurrava as paredes até a mão sangrar. Depois da primeira ferida, o sangue começou a sair com maior facilidade. Ele queria morrer, mas também queria vingança. Ele queria sangue.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É incrível como aquilo o mudou. Na invasão ele conseguiu manter a sanidade, mas não com aquilo. Ele conhecia o Pai de Jack. Ele viu em Jack uma boa pessoa. Um bom compatriota.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas ele roubou o avião e abandonou todos para a morte.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não foi por sorte que Robert se salvou. E nem por sua habilidade excepcional. Foi o destino. Foi deus ou o Diabo dando a ele a chance de se vingar. Ele tinha que destruir a existência de Jack.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O desgraçado não tinha família, não tinha amigos. Ele não tinha soldados contando com ele pra perder. Ele tinha pouco a perder, mas esse pouco ele perderia. Sua loirinha puta, sua vida. O desgraçado tinha que sofrer. Ser torturado por todas aquelas mortes.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele percebeu que na rua não havia mais infectados. Eles se agruparam e foram embora. Aquilo que aconteceu no acampamento foi um ataque planejado. Alguém estava controlando aquelas feras. Talvez ele salvasse algum tempo para destruir.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele bebeu o resto da água e saiu do apartamento. Desceu as escadas. Lembrou de subir correndo. Fugindo de um infectado. O corpo ainda estava jogado ali. O extintor de incêndio também. Toda a cena foi revivida.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele saiu do prédio e viu de perto novamente aquele mar de mortos. Empilhados com lixo. Escalou e foi até o acampamento na esperança de encontrar armas e um veículo. Ele sabia que Jack tinha como destino a base no Canadá. E lá era seu destino. Caminhou pisando nos mortos e espantando os urubus. Seu semblante era maligno. Nada como aquele radiante patriota que daria sua vida por sua nação. Não: Sua nação foi reduzida a pó.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Major? – gritou um homem&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Robert olhou para o acampamento e viu o soldado Kyle. Todo sujo, com algo de esperança nos olhos por vê-lo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- É o senhor? Está vivo?! – gritou o soldado&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Sou eu, soldado. Eu sobrevivi.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Wilson! Vem cá! É o Major!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele andou pelos corpos e chegou ao acampamento. Tudo destruído. Corpos esfolados por toda a parte. Gente que poderia ter sido salva se não fosse o filho da puta do Jack. Maldito.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Tem algum carro aqui? – perguntou o Major&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Sim, senhor. Temos um jipe.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Robert se sentou no chão e chorou. Colocou as mãos na cabeça.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Eu devia ter visto isso vindo. Devia saber.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os soldados ficaram em silêncio. Também estavam muito traumatizados com aquilo tudo para falar qualquer coisa. Também choraram. Um misto de ódio e tristeza os despedaçava por dentro.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Eu não sou mais comandante. Não somos mais uma nação.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- O senhor sempre será meu comandante. – disse Wilson.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Meu também. – disse Kyle&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eles estavam contando com ele. Seus soldados fiéis.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Vocês sabem o que Jack fez? – perguntou Robert&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Aquele filho da puta. Roubou o avião e nos deixou pra morrer. – disse Kyle. – e é tudo culpa minha. Eu que liberei pra ele entrar lá.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Eu vou atrás dele e vou arrancar a cabeça dele. Se você quer se redimir. Se quiser se vingar, Venha comigo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Eu coloquei combustível no avião pra ele. Eu odeio aquele desgraçado. Que quero destruir tudo o que ele é. Tudo. Tudo o que ele tem. – disse Wilson&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Então trabalhemos juntos. Vamos destruir esse desgraçado. Vamos encontrá-lo e destruí-lo. Nós éramos os protetores do nosso povo. E graças a esse traidor, não há mais ninguém além de nós. Era um avião gigante. Poderíamos ter salvado muita gente. Vou destruí-lo em nome do nosso povo e em nome dos nossos irmãos caídos em combate! Eu vou pisar na cabeça dele!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não sozinho. – disse Kyle verificando o pente do seu fuzil.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não temos tempo a perder. Vamos pegar a estrada e chegar Ao nosso destino. Não é longe daqui. Temos que organizar nosso estoque de alimentos, água e combustível.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Tá feito, major.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Robert sorriu. Eles sempre foram ótimos soldados. Sempre lutaram com paixão por seus compatriotas. Mesmo nas situações em que eram usados para fazer o mal, a convicção do bem estava em seus corações. Mesmo nas guerras injustas, eles só lutavam pela convicção de que estavam defendendo sua nação. Sempre foram bons homens. Não mereciam essa traição.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Muito bem. Então vamos. Sem enrolação.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Correram pro jipe. Wilson assumiu a direção por ordem de Robert, que explicou que iriam revezar no volante. Mas não chegaram longe. O avião estava abandonado na estrada, a 50 milhas do acampamento..&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não fazia qualquer sentido. Como ele não ouviu o som do avião voltando?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O avião estava com a entrada traseira aberta. Eles desceram e entraram no avião. Tinha uma camisinha com um nó e cheia de esperma. Eles devem ter colocado no piloto automático e trepado aqui rindo da nossa desgraça. Comemorando a traição. No pano do banco mais próximo havia uma marca de mordida. Não foi um infectado. Provavelmente foi a puta com Jack trepando e ela mordeu o pano. O ódio de Robert aumentava a cada segundo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Major. Ele abandonou o avião porque ficou sem combustível. – disse Kyle&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Impossível. Eu enchi o tanque. – disse Wilson&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ele foi pro sul, não foi? Logo que decolou ele foi pro sul. Porque ele faria isso?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Eu soube que ele foi criado por lá. Talvez tenha ido buscar algum parente. – disse Kyle&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- É. E voltou pra cá em busca de mais combustível, mas os infectados o pegaram. Vai ver foi o avião que levou os infectados embora de lá. – disse Wilson.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Que bom... – disse Robert&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Senhor? – disse Kyle&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Nós vamos torturar os parentes dele. Vamos entregá-los aos infectados. Aí ele vai entender a dor que nos causou. Eram meus irmãos, os homens que caíram. Eram a minha família.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Eu vou esfolar a putinha dele. – disse Wilson. – e vou destruir tudo o que estiver com ele.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Senhor. Temos que seguir. Não tem nada de útil nesse avião – disse Kyle&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Você está certo. Temos que seguir nosso destino. Só deixem eu destruir algo dele.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Robert pegou sua pistola e atirou na camisinha. Bem na parte onde o gozo se acumulava, amarrado com um nó. Ele cuspiu na direção, mas errou. Nem viu que errou. Não tinha importância.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Saíram do avião e decidiram investigar a casa. Imaginaram que Jack poderia estar lá. Dentro da casa, encontraram a luz da sala acesa. Revistaram o perímetro e não encontraram nada até que Robert notou um detalhe.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Havia uma estante cheia de fitas, que ficavam milimetricamente ordenadas. Mas a que estava no cato esquerdo estava um pouco para fora e o vidro estava aberto o bastante para uma mão tê-la recentemente usado.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O dia estava ensolarado e os painéis de energia solar funcionavam. Robert colocou a fita e viu a formatura.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Haha! Vejam isso! Que romântico! O traidor também traía a mulher!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Quê? – disse Wilson&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Olha aí a fita que ele tava assistindo. Formatura antiga. Deve ter sido da época dele. Não foi por acaso que ele parou aqui. Ele conhecia essa mulher. E certamente não era irmã dele.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Veio aqui buscar a vadia dele? – perguntou Wilson&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não sei. Mas era importante pra ele. Vou destruir.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Senhor, dá uma olhada aqui! – gritou Kyle do lado de fora.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eles saíram e viram a marca no chão. Era uma marca de roda. Provavelmente um veículo grande, como um caminhão ou um trailer. Não tinha como Ele ter avançado tão depressa num veículo desses.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Robert viu uma vaca pastando ao longe. Acertou uma bala na cabeça dela Dalí mesmo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Bom tiro, senhor.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O tempo começou a fechar, mas o jipe era coberto. A chuva não seria um problema.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Seguiram pela estrada e viram a marca de pneu. Era Jack. Eram as trilhas que os levariam á vingança. Eles ficaram empolgados com a idéia.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Choveu tanto que eles mal conseguiam ver na estrada, mas continuaram. Foi até estranho, já que o dia estava ensolarado até há algum tempo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele viu animais se abrigando contra a chuva. Estranho que eles não tenham sido mortos pela infecção. Pareciam bem. Havia cães soltos no mato, cavalos, vacas. Eles se abrigavam nas construções, ou algo como construções, porque não dava pra ver muito com a água batendo no vidro.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Jack quis matá-los, mas preferiu não abrir a janela.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Seguiram viagem...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Silvana...&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eles passaram a noite dentro do banheiro. Choveu muito.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Apolinário ainda estava com o rosto inchado das pancadas que recebera no dia anterior. Tudo recente. Despertaram com um galo. Foi estranho, porque eles não criavam galos ali. Um dia de sol.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Silvana. Ta tudo bem contigo? – perguntou Apolinário&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ta sim. – disse ela despertando Joana. – tudo bem, querida?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ta doendo meu pescoço. – disse a menina&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- É que você dormiu no chão. Vai passar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Eu vou sair lá e verificar. – disse Apolinário&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não. Eles podem ainda estar lá.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Aqui que não podemos ficar mais. – disse ele. – fica aqui com a Joana.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ela não apoiou a idéia, mas também não o impediu de sair. Ele pegou a pistola do chão. A derrubou quando brigava com Rodrigo. Estava carregada, mas travada. Ele não planejava atirar naquela briga.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Destravou a arma e saiu. Imediatamente uma velha infectada sai do quarto berrando e correndo, ao que ele acertou nela um tiro certeiro. O grito dela atraiu outro infectado. Um soldado. Ele atirou no soldado e mais nenhum infectado veio.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O corpo de Rodrigo estava esfolado perto da porta e o braço esquerdo estendido na direção do quarto de Silvana. Apolinário devaneou por uns instantes sobre como teria sido a morte dele e o que ele teria pensado, mas logo se recompôs e começou a revistar o andar. Em todos os quartos encontrava a mesma coisa. Corpos dilacerados, sem cabeça, com o crânio esmagado.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Aquilo não era uma invasão de infectados normal. Era como que planejada. Não fazia sentido. Ele aprendeu sobre os infectados para ensinar ás crianças e sabia que infectados não planejam.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele revistou o segundo andar inteiro e disparou um tiro contra um vidro. O som só fez espantar uns pássaros. Não atraiu nenhum infectado. Todos estavam mortos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Apolinário sentou na escada com a pistola na mão e abaixou a cabeça. Ele não suportava mais aquilo. Tanta morte. Mesmo depois de tudo o que ele passou ainda era terrível olhar para um cadáver. Lembrar que aquela carne morta já esteve viva. Ver seus colegas esfolados no chão. Uns com pavor impresso no rosto. Todo o lugar cheirava a morte. Destruição.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quase começou a chorar, mas foi interrompido por um som na porta. Apontou a arma impulsivamente e viu um mico. O animalzinho olhou para ele e inclinou a cabeça para a direita. Quando ele se levantou, o mico correu para fora assustado. Provavelmente pensava que Apolinário era louco e agressivo como os infectados. Deve ter sido a impressão que os animais guardaram das pessoas. Pra eles não há nada pessoal. Só aprenderam que a nossa espécie é sempre, de uma forma ou e outra, ameaçadora.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tudo estava limpo e teoricamente seguro. Ele voltou para o quarto de Silvana. Quando voltava, não estava mais tão tenso e já não focava sua atenção na percepção, então sentiu mais intensamente a dor de seu corpo. Rodrigo realmente o arrebentou. Maldito...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Apolinário? Fala alguma coisa! – disse Silvana&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ta limpo lá fora. Aliás, ta bem sujo, mas sem infectados. É seguro&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Eu tenho que tirar a minha filha daqui, Apolinário.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Engraçado você me chamar pelo nome. As pessoas sempre inventam apelidos pra mim.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não muda de assunto!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Quer que eu fale o que?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Vamos sair daqui em busca de nada? Esse mundo acabou, Silvana.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não. Esse lugar fede a morte. Eu não quero ficar aqui.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Mas querida. Isso não faz sentido.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Quê?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Que o quê?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Você me chamou de querida?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Chamei?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ah, não importa. Nós temos que sair daqui. Não importa se faz sentido. Eu não vou ficar aqui com a minha filha. Não vou limpar todos esses corpos e fingir que nada aconteceu. Tem que ter um lugar melhor. Você não viu o avião que pousou aqui antes do Rodrigo chegar? Ele tem que ter saído de algum lugar e tem que ter alguém pilotando. Ficar aqui é esperar pra morrer.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Apolinário sentou na cama. Ainda estava bagunçada. Trazia más lembranças. Viajar com Silvana não poderia ser má idéia. Quem sabe apoiá-la daria pontos a ele? Ele voltaria a ser pai e marido. Nada mais tinha importância, afinal...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E de qualquer maneira, ela não deixava de ter razão.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Quer sair quando?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Agora.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Agora? Olha, sei que está ansiosa, mas temos que armazenar alimentos, armamento e também conseguir um veículo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não o quê?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não vamos levar nenhuma arma. Eu não quero minha filha perto de arma.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Nem a minha pistola?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Só se você deixar escondida.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Vou ver o carro e os mantimentos, então. Fica aqui com ela. Quando formos sair é melhor ela estar vendada. Sério...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Silvana se levantou e foi até a porta. Mandou Joana ficar no banheiro. Ela se prostrou diante do corpo de Rodrigo e chorou. Foi uma cena incômoda pra Apolinário, mas ele não quis criticar o morto. Esforçou-se, aliás, para fazer o contrário.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ele morreu por nós. Por vocês. – disse ele&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ele era um filho da puta. Isso não compensa as coisas que ele fez.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Então porque você ta chorando?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ele é o pai da minha filha, porra.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Só por isso?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Quê que é isso? Questionário?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não. To saindo. Fica com a Joana no banheiro que quando eu terminar eu te chamo&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele saiu e começou a verificar se havia danos na passagem. Estava tudo em ordem. Pegou a visão noturnas e olhou para dentro do túnel. Tinha um infectado parado lá dentro. Ele pegou um fuzil com silenciador e acertou a cabeça dele. Um tiro de pistola provou que não restou nenhum. Se estivesse vivo correria feito louco atrás do som.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O jipe estava preparado para sair, mas Apolinário teve que tirar a metralhadora acoplada, o que tomou um bom tempo. Estava muito bem presa e era muito pesada.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Enchei o espaço com água e alguns mantimentos enlatados. Era loucura sair dali. Eles tinham uma horta. Mas ele estava mesmo é tentando agradar Silvana. Quanta merda os homens não fazem pra agradar mulheres?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O mico subiu no jipe e olhou para Apolinário. Ele abriu uma lata de sardinha e deu uma para o animal, que pegou e comeu um pedaço. Olhou para ele, mostrou os dentes e pulou em sua direção, ao que ele derrubou a lata de sardinha e saltou para trás. O animal pegou a lata fugiu.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Bicho filho da puta! – gritou ele.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Acabou rindo. Um macaquinho o enganou e levou sua comida. Que vergonha!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Terminou de organizar tudo e ligou o jipe. Tanque vazio. Desligou e encheu o tanque. Lembrou, também, de levar combustível reserva. Não tinha muito.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O mico não poderia abrir latas, mas Apolinário cobriu tudo mesmo assim. Ele poderia tentar roubar assim mesmo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Subiu até o quarto de Silvana. Ela já estava esperando com a menina vendada. Arrumou o cabelo, limpou o rosto. Estava linda. Nem precisava muito.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Deixou a menina vendada esse tempo todo? – perguntou Apolinário.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não. Eu vendei só agora. Vi você chegar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- A gente vai pra onde, tio Apolinho?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Vamos pra praia, joaninha. A gente vai ver o mar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Oba! Eu adoro praia! Uma vez a gente passeou de barco.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Silvana olhou para Apolinário com um olhar de reprovação.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Tem uma praia aqui, Silvana. A gente passa lá rapidinho só pra Joana ficar um pouco.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Só um pouco. A gente tem que ir pro aeroporto. Acho que de lá a gente pode tentar fazer contato com alguém.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Tem uma praia particular perto do aeroporto. A gente vai ali. Jogo rápido.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ta bem então.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Eba! – a menina vibrou&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Apolinário sorriu com a alegria inocente dela. Ele sempre gostou de vir sua filha assim alegre. Sentia como se fosse sua própria filha feliz por causa de uma coisa tão efêmera. Ver o mar. Silvana também sorriu. No fundo, o motivo maior dos dois de não se entregar ao desespero era ela. Dependia deles para praticamente tudo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Major Robert...&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por causa da visibilidade precária, bateram num amontoado de corpos. Os airbags se encheram. Saíram do carro e viram aquele mar de corpos. Alguns ainda se arrastavam, mas lentamente. Parecia assustados.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não teria como passarem de carro ali. Muitos corpos empilhados.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- E agora, senhor? – disse Kyle&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Vamos andar. – respondeu Robert&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- O quê? – disse Wilson&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Querem dar meia volta?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não senhor. Mas podemos pegar uma pneumonia com essa chuva. – disse Wilson&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não sei vocês, mas minha sede por vingança não permitirá que eu adoeça. Não antes de matar aquele desgraçado.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Tem certeza que quer pegar estrada a pé na chuva, senhor? Já está escurecendo. – disse Kyle.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Porra. Vamos dormir no carro então, seus viados.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A estrada estava vazia. Sem aquele mar de corpos. Ele estava com um carro que lança míssil. Tudo pronto para o massacre. Uma mulher veio falar com ele. Parecia com a sua avó, mas era mais nova. Aliás, quando ele olhou de novo, percebeu que era uma adolescente. Mas ainda assim era a sua avó.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Você tem que ir? – perguntou a mulher&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Eu vou. Não importa se tenho que ir. Eu vou. E vou deixar minha marca.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não pensa em perdoar?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele se sentiu mal. Era a sua avó pedindo a ele que perdoasse. Ele sempre gostou da avó. Um velho chegou. Estava envolvido numa capa avermelhada que voava ao vento. Um capuz escondia seu rosto.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Você pode você quer e nunca irá perdoar...  E você condena a vida dele. Você é conduzido para a insanidade da ira excessiva, destruição e vingança, você nasceu para odiar... Seu destino é seguir essa estrada. – disse o velho.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não. – respondeu Robert&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Pensa que pode escapar?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Eu não vou e nem quero. Mas eu não nasci para odiar. Nasci para proteger. Apenas me tornei isso por conta dessa ironia do destino.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Tolo. Não percebe que sempre foi o seu destino ser um soldado das trevas? Não vê que você nasceu para destruir? Vê quantas pessoas tiveram que morrer para você despertar? Não sente como só agora você está sendo o verdadeiramente é?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os corpos começaram a surgir na estrada e o velho o levou voando até um desvio que ficava a duas milhas dali. O mostrou como, chegando numa fazenda ele sairia por uma estrada de terra e contornaria os mortos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Você tem agora e sempre terá a chance de abandonar esse caminho, netinho. – disse a avó adolescente. Você ainda pode viver bem.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Viver? Bem? Ilusão! Tudo ilusão! Não existe boa vida. Só existe o ódio, a destruição e o nada. O resto são ilusões criadas por pessoas que não suportam a realidade. Eu vou destruir Jack e todos os que estiverem com ele. Eu vou destruir tudo o que eu encontrar pelo caminho. Tudo!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Caiu um raio na avó dele, que ficou com aspecto terrível. Ela ficou carbonizada. Seus olhos claros e esverdeados mostravam ódio. Ela chegou perto de Robert e deu um tapa em sua cara.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Então aceite as conseqüências!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele viu a si mesmo na infância. Ele estava brincando na casa da avó. Ela ofereceu bolinhos de chuva pra ele. Ele nem sabia de onde vinha esse nome. Só ela que falava por aquelas bandas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O caminhão apontou para a casa e disparou. Tudo foi destruído, e no lugar ficou uma cratera, da qual saia fumaça preta.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele ficou olhando para aquela cena. Olhando para a sua morte, para a morte do que tinha sido a família. Não se importou.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Robert acordou dentro do jipe. A chuva passou e já não havia nenhum infectado se arrastando. Tudo ficou calmo, e ele sabia o que fazer.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ta certo. Nós vamos voltar duas milhas, pegar aquele desvio e contornar essa merda.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Sim senhor. – responderam os dois soldados ao mesmo tempo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Deram meia volta com o jipe e foram até o ponto. Estrada de terra batida. Cheia de lama.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O jipe passou bem por ali. Estava preparado para esse tipo de terreno. Chegaram até a fazenda e um grupo de infectados estava dentro da casa. Quando avistaram o carro, atacaram, e foram todos mortos. Uns vinte.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Depois dele saiu um jumper. Se esquivando dos tiros. Robert reconheceu o monstro. O mesmo desgraçado que o impediu de derrubar o avião com Jack.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O monstro não o atacou.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não atirem. Esse é meu. – disse Robert.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Soltou o fuzil e pegou a pistola. Correu na direção do monstro atirando, ao que este só se esquivava com um olhar confuso.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele descarregou a arma e pegou uma faca. Tentou acertar o monstro, que se esquivou com relativa facilidade. Parecendo aborrecido, o jumper pulou em cima dele, ao que ele deu-lhe um balão com a perna.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os dois se levantaram e Robert berrou. Ele odiava aquele monstro. O monstro também gritou e um infectado correu na direção deles. Kyle o matou com um tiro no ouvido.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O jumper desarmou Robert, empunhando sua faca. Ele a enfiou na própria cabeça e caiu morto.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Robert sorriu e foi em direção ao monstro. Pegou a faca e arrancou sua cabeça. Foi bem difícil, mas ele não desistiu até terminar. A criatura tinha longos cabelos, que ele usou para amarrá-la na frente do carro. Quando ele terminou, cuspiu no chão e entrou no carro. Ele pegou o volante e os soldados foram no banco de trás. Estavam assustados e não fizeram nada. Ficaram com medo até de falar com o major. Ele estava totalmente fora de si. A cada instante mais raivoso. No entanto, não demonstrava nenhuma intenção de ferir seus soldados.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Vamos revezar no volante e alcançaremos em breve aquele maldito. Lembrem-se da estratégia: sem muita enrolação. Matamos todos, rendemos Jack e o torturamos até a morte. – disse Robert&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Mal posso esperar, senhor. – disse Wilson&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Nem eu. Isso é pela nossa nação...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O riso dele foi um misto de orgulho e deboche. Difícil de definir qual foi o que teve mais peso ali. Os soldados interpretaram como orgulho e se sentiram mais seguros. Afinal, porque ele debocharia do que ele mesmo falou?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Chegaram num posto de gasolina arrombado. Levaram recursos e dinheiro. Idiotas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pegaram algumas garrafas de vodka que estavam ali jogadas. Esvaziaram todas e encheram de gasolina. Pegaram a roupa de um cadáver e tamparam as garrafas. Os coquetéis seriam úteis numa perseguição.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Comeram algumas coisas e beberam refrigerantes, mas não levaram nada. Só encheram o tanque e continuaram.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Continuaram à toda a velocidade pela estrada. O carro até derrapou quando Robert arrancou. Pista molhada.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No meio do caminho, dois homens os atacaram. Estava atirando com pistolas. Quando chegaram mais perto gritaram.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Entreguem o carro ou matamos vocês!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Robert acertou um tiro na cabeça de um deles, ao que o outro largou a arma e levantou as mãos. Os soldados saíram do carro apontando a arma pro homem.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Pro chão porra! – gritou Kyle&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ta querendo roubar do exercito, seu merda? – disse Wilson.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não senhor. Pensei que esse jipe era roubado. Ninguém dá carona nessa estrada. Dizem que não vão se arriscar. Se ficássemos aqui morreríamos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O homem começou a chorar. Se abraçou no cadáver.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Era meu irmão. – disse ele.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Mentira. Seu ladrão de merda. Vai morrer. – disse Robert&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Senhor. Podemos levar ele. Talvez ajude. – disse Kyle&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Você tem merda na sua cabeça, soldado? Me diz o que foi que aconteceu da última vez que confiamos num cara que não conhecemos. Me diz? – gritou ele.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ele nos traiu, senhor. – disse Wilson.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Então vamos deixar ele aqui pra morrer? – disse kyle.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O homem abaixou a cabeça sobre o cadáver e começou a chorar enquanto Robert acendia o molotov. Os soldados ficaram assombrados com o sorriso. Dele.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Se não fizermos isso ele vai nos seguir e pode nos roubar. Tem que ser assim. – disse ele.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Mas senhor... – disse kyle&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Está me questionando, soldado? – retrucou ele.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não senhor.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele chamou o homem e assim que ele viu o molotov fez uma cara de desesperado. A expressão que ele procurava. Jogou o coquetel nele. A garrafa quebrou em sua cabeça, mas ele não desmaiou.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Fogo no chão, no cadáver e no pobre diabo correndo até um rio que estava ali perto. Caiu na beira do rio e não se levantou mais. Ele tinha cheiro de carne de porco queimada.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Kyle. Você dirige agora. – disse Robert – já estamos perto.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Seguiram pela estrada. Wilson olhou pelo retrovisor e viu o corpo de movendo novamente. Caiu no rio e foi arrastado. O fogo não apagou.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Silvana...&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tudo estava preparado. O carro pronto. Estavam saindo sem nenhum destino. Apolinário achava tudo aquilo uma grande loucura, mas dirigiu assim mesmo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Entraram no túnel e Joana fechou os olhos. Ela tinha medo de escuro. Apolinário achava estranho alguém fechar os olhos por medo do escuro, pois com os olhos fechados tudo fic escuro. Mas acalmava a menina, então ele não falava nada.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quando saíram do túnel o pano que cobria os mantimentos subiu e revelou o mico desesperado, se segurando em qualquer coisa.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Silvana gritou.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ah! Tem um bicho no carro!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Apolinário parou o jipe e olhou. O mico roubou uma lata, mas Apolinário conseguiu pegá-lo antes de ele pular. Ele mordeu a mão dele e pulou sem a lata. Subiu numa arvore ali perto e todos ficaram olhando pra ele. Tinha bananas ali, que os soldados colhiam numa plantação que ficava por ali. Joana pegou uma banana e desceu do carro. Descascou e arrancou um pedaço. Andou tranquilamente na direção do mico, que não se assustou.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele pegou na mão dela e comeu. Os dois ficaram pasmos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- É o Robertinho. – disse ela. – A gente brincava lá no casarão. É meu amigo, ele.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ué, mas deu nome de gente pra ele? – perguntou Apolinário sorrindo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ele não é Roberto. É Robertinho. Vocês conhecem algum Robertinho? É como eu. Eu sou Joana, mas tem um bichinho que se chama joaninha. Ele é o Robertinho, ué.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Vai trazer o Robertinho pra praia? – disse Silvana.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O mico subiu no ombro da menina. Subiram no carro e o animalzinho não largava da barriga dela enquanto avançavam. Talvez pensasse que ela era a mãe dele. Sempre dava uns berros de medo quando o carro passava num buraco.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Passaram pelo aeroporto e havia muitos corpos apodrecendo ali.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Fecha o olho, filha, que aqui tem coisa feia. – disse Silvana.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Joana tapou os olhos e abriu um espaço entre os dedos. Quando viu os cadáveres, tapou de vez e fechou os olhos. Ela não gostava de corpos. Davam medo nela. Dizia que eles pareciam que estava pra levantar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pegaram o anexo e saíram na marina. Não era bem uma praia, porque ficava numa pedra. Viram o iate e ficaram pasmos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Viu, Robertinho. Eu não disse que a gente ia passear de barco? – disse Joana&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Apolinário se assustou, mas logo Silvana esclareceu a questão.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Eu e o Rodrigo passeávamos de barco. Herdei do meu pai. Sempre que íamos pra praia era pra pegar o barco e passear. – disse Silvana. – daí quando dissemos que estávamos indo pra praia ela deve ter associado as coisas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Putz! Acha que podemos pegar esse barco?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Devemos. Tenho certeza que o dono não vai reclamar. Deve ter ido naquele avião.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Vou lá ver se está tudo limpo – disse Apolinário. – daí se estiver eu te chamo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não. Se tivesse perigo já teria mostrado as caras. Os monstros não são de ficar escondidos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não sei. Esse barco é gigante.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Silvana ignorou os argumentos de Apolinário e entrou no barco. Levou a menina com ela de mãos dadas. O mico foi no ombro de Joana. Era muito pequeno, o Robertinho.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O barco tinha combustível de reserva e estava com energia elétrica. Era tudo automatizado. Só colocar os comandos e ir. Nem precisava saber muito. Quando Silvana chegou à sala de comando, viu todos os painéis em pleno funcionamento. O computador tinha uma pergunta na tela: “Por favor, entre com as coordenadas do próximo destino”.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Abaixo havia várias sugestões de destino. Primeiro ela escolheu Califórnia, mas a maquina deu um feedback de que o canal do panamá estava fora de funcionamento e que não havia combustível suficiente para dar a volta no continente.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Depois ela escolheu o segundo destino sugerido pela maquina. Fernando de Noronha. Foi pra lá uma vez quando era pequena.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A tela mostrou a quantidade de combustível registrada nos computadores no início e todo o trajeto do barco. Fez uma estimativa de que distância eles ainda poderiam percorrer. O barco saiu do Rio de Janeiro, e isso trouxe um frio na barriga de Silvana. Rodrigo esteve ali.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O barco saiu e Apolinário se assustou.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Você que ligou o barco aí, Silvana? – perguntou ele.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Fui eu sim. Coloquei pra irmos pra Fernando de Noronha.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não. Ta tudo destruído por lá.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Deixa. É longe daqui. Chegando perto eu mudo o destino.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Vai mudar pra onde?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não sei.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Quê? Ta saindo sem saber pra onde vamos?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- É.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele achou aquilo um absurdo e estava perto de deixar essa vontade de ficar com ela. Já estava cansado daqueles impulsos e da forma como ela negava a razão. Mas essa passou. No mar estariam mais seguros do que na terra.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No início o Mico ficou com medo, mas logo se acalmou. O Iate quase não balançava.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Exploraram o Iate, que parecia não ter fim. Uma cama estava molhada. Alguém se mijou ali. Tinha cheiro de bebida alcoólica naquele quarto e as camas estavam bagunçadas. Ela imaginou que Rodrigo dormiu ali. Uma sensação estranha tomou conta dela. Quis se livrar de tudo que pudesse lembrar a imagem dele. Pegou as garrafas de bebida, que ele tanto gostava, e jogo no mar. Achou as armas que ficaram no barco e jogou todas fora. Ela não queria Joana tendo contato com essas coisas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Apolinário achou a sala dos computadores, e um estava ligado. O Word estava aberto, e um texto estava por terminar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;“A minha garotinha é a única coisa que me mantém vivo. Minha vida nem tem mais sentido. Não tinha antes, mas eu me distraía e pensava que poderia viver. Mas tudo se foi. Tudo foi destruído e eu to na merda. Quero ver minha menina sorrindo porque eu cheguei. Minha filhinha. Vou proteger ela de tudo. Nunca ninguém vai feri-la sem me matar antes.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Caralho...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu escrevendo assim como se fosse um diário! Mas que viadagem! Nunca pensei que eu ia fazer essa merda. O mundo dá voltas...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Queria deixar um recado pra Silvana. Nem sei está viva ainda. Eu ...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Yt6hh”&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Provavelmente ele bateu com a cara no teclado e caiu. Apolinário clicou em fechar e não salvou as alterações...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4664356695252564512-2483682233905671971?l=biohazardalimpeza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://biohazardalimpeza.blogspot.com/feeds/2483682233905671971/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4664356695252564512&amp;postID=2483682233905671971' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4664356695252564512/posts/default/2483682233905671971'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4664356695252564512/posts/default/2483682233905671971'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://biohazardalimpeza.blogspot.com/2009/12/capitulo-21.html' title='Capítulo 21'/><author><name>Silas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08560610846360060486</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/ScXDtIGMN9I/AAAAAAAAABQ/YF39-2VxJ3k/S220/zumbi.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/Sy0gg94jB-I/AAAAAAAAAU4/hTB__xqLYI8/s72-c/amor-e-odio.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4664356695252564512.post-2809184145180732711</id><published>2009-12-09T07:22:00.000-08:00</published><updated>2009-12-12T08:13:24.717-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Capítulo 20'/><title type='text'>Capítulo 20</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/Sx_AoFYGiEI/AAAAAAAAAUg/m2lfUFqL7P4/s1600-h/Road_to_SFranX.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/Sx_AoFYGiEI/AAAAAAAAAUg/m2lfUFqL7P4/s400/Road_to_SFranX.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Dia após dia, era após era, o ser humano sempre está lutando pela liberdade. É comum acreditar-se que é um direito inalienável de todas as pessoas.&lt;br /&gt;Mas mesmo que todas as grades e que todos os ditadores não mais existissem, ainda assim o ser humano continuaria ansiando por liberdade. Porque há uma prisão pior do que a bola de aço e uma escravidão pior do que o trabalho forçado: é a prisão invisível que a própria pessoal cria. Sem que ela o veja, essa prisão a orienta. Sem que ela sinta, ela a impede de caminhar. O homem vai para onde quer dentro de um cubículo. Mas nunca para fora dele...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu e um velho amigo estávamos numa fila. Eu não sabia pra onde a fila nos levaria. Havia uma menina linda na minha frente. Eu não ousava falar com ela.&lt;br /&gt;Um grupo de garotos, que parecia um tanto idiota, roubou algo de mim. Eles disseram que só iriam me devolver se eu falasse com a menina. Eu hesitei, porque falar com ela me assustava, mas acabei tomando coragem.&lt;br /&gt;Falei com ela, e como esperava, ela me deu um fora. Nem falou nada. Depois eu voltei ao grupo e eles me devolveram um telefone publico. Era como os orelhões, mas só com o aparelho. Eu tinha que ligar o telefone num muro ali perto para fazer uma ligação, mas a garota veio e tirou minha concentração. Ela exercia algo como um magnetismo sobre mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu te conheço, sabia?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Aé? De onde?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu falo contigo no MSN. Mas você não sabe que sou eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando olhei pra ela, percebi que ela nunca tinha saído da fila. Ela olhou pra mim e depois virou a cara. Liguei o telefone e fui transportado pra outro lugar. Um acidente, dezenas de mortos. Eu estava sendo carregado num carrinho de mão. Estava morto.&lt;br /&gt;Os infectados atacaram os homens que empurravam o carrinho, e&amp;nbsp;o corpo que estava acima do meu despertou. Quando ele se afastou, meu corpo se reanimou. Talvez eu estivesse fingindo de morto.&lt;br /&gt;Fui me arrastando pela lama. Estava chovendo. Eu me escondi dentro de um carro pequeno e minha cabeça ficou exposta.&lt;br /&gt;Um muro caiu em cima do barro, mas não se desfez. De repente eu não estava mais preso ali, mas era outra pessoa. Eu estava fora e vi a outra pessoa que eu havia me tornado sair de baixo do carro. Havia mais uma pessoa presa debaixo dos escombros, ao indivíduo que havia acabado de sair buscava uma maneira de soltar a pessoa, mas suas idéias eram ineficazes e até mesmo idiotas.&lt;br /&gt;Tirei a pessoa, era um sujeito pelado. Estava se afogando na lama, mas consegui tirá-lo a tempo. Havia fumaça e fogo para onde andávamos, a despeito da chuva. Destruição por todos os lados.&lt;br /&gt;Choramos.&lt;br /&gt;Apareci num prédio com meu velho amigo e o cara que salvei dos escombros. Ele estava agora de cueca. As pessoas olhavam para ele pasmas. Ele era japonês.&lt;br /&gt;Quando saímos do prédio, vimos um microônibus correndo num cruzamento próximo. Infectados o perseguiam.&lt;br /&gt;Corri pra dentro do prédio e avisei para as pessoas fugirem e se esconderem, mas ninguém me ouviu. Ficaram olhando a confusão e eu fugi. Subi pelas escadas e comecei a perder as forças no terceiro andar. Eu pulava de três em três degraus.&lt;br /&gt;Comecei a ir de dois em dois e recuperei minha força. Não sabia se ia pro quinto andar ou para o sexto. Tinha que chegar na casa de uma garota com a qual fiquei&amp;nbsp;há um tempo. Pensei em me esconder ali.&lt;br /&gt;Decidi ir para o sexto andar, mas todas as portas estavam trancadas. Olhei pelo vidro da porta da escada e vi infectados subindo. Eles me viram. Corri pelo corredor e achei outra escadaria.&lt;br /&gt;Eu poderia subir até cansar, mas no fim das contas eles me matariam de qualquer maneira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei assustado, mas deitei e dormi de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu cheguei ao terraço do prédio. A garota com quem eu fiquei estava na piscina lá em cima com o novo namorado. Ficou vermelha quando me viu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Roberto, o que você ta fazendo aqui?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Baixa a cabeça. Eles estão vindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegamos perto da borda da piscina e deixamos a cabeça abaixada. Como a piscina ficava numa área elevada eles não nos viram. Um barulho na escada os atraiu. Eram dois. Um deles era meu velho amigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porra, não podemos ficar aqui. Não tem comida nem água.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Na verdade aqui tem água. – respondeu a garota&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Da piscina? Perguntei.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Tem uma geladeira ali que tem água de beber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei definitivamente.&lt;br /&gt;Foi uma noite triste. Como todas as noites em que eu sonho com os infectados. Não fiquei triste porque eles estavam na minha mente até no sono. Poderiam ficar na minha mente o quanto quisessem. O problema é que eu acordei e me dei conta de que não era só sonho. Não estava só na minha cabeça. Era real. Eu estava correndo de um lado para o outro pra sobreviver. Tudo real...&lt;br /&gt;Sobre o meu sonho eu poderia falar, mas ele foi profético. Pra quem estiver lendo isso, que saiba que isso é pessoal demais. Mas essa menina, a do sonho. Ela eu a considerava uma farsa. E, no entanto, era apaixonado por ela. O sonho foi uma mensagem, todo no esquema. Se você realmente quiser entender, vai conseguir. Se pouco se importa, melhor. Eu não quero que saiba.&lt;br /&gt;Kimberly estava dirigindo. Parecia mal. Fui até lá e falei com ela. Meu inglês não é como o de um nativo, mas consegui falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tudo bem contigo? – perguntei&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você fala inglês? – perguntou ela&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu falo sim. Aprendi por causa dos filmes.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Desculpa pelas coisas que eu disse...&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não estou entendendo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu pedi desculpas... por causa das coisas que eu disse...&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Entendi o que falou, mas não sei porque você acha que tem que me pedir desculpas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela olhou pra trás e viu que Jack estava dormindo. Sono pesado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Concordamos em não falar, mas eu falei. Você não entendeu?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Falar o quê?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Olha, essa sua namorada é mentirosa.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quê?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Foi só você sair que ela ficou com aquele cara ali. Augustus.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ela ficou com o Augusto?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu sinto muito.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É difícil pra mim imaginar. Mas também parece absurdo que você esteja mentindo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Todos pensamos que você estava morto. Ela ficou sem controle quando você saiu. Vivia abraçada com o joelho. Uma noite ela agarrou o Augustus e não desgrudou mais dele.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Também foi assim comigo. Ela nunca me amou mesmo. Acho que ela nem tem muita consciência.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você não está bravo?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Estou sim. Mas eu fico tentando me fazer de compreensivo pra mim mesmo. Desprezo esse sentimento que eu tenho. Eu realmente a amo, mas sei que ela não faz idéia de quem eu sou. Ela só estava comigo por conta desse trauma. Achava que sou um anjo, mas não sou. Eu não sou porra nenhuma.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você tem bom coração. – disse ela ao passar a mão no meu rosto&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu agradeço sua tentativa de me consolar. Não vou dizer que você está mentindo, mas é que você não me conhece. Você não sabe como é dentro de mim. É um imenso vazio cheio de fogo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não estou te entendendo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu também não entendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficamos em silêncio por algum tempo. Olhando para a estrada. Uma placa anunciou que em dez milhas chegaríamos. Olhei pro velocímetro e ele estava marcando mais ou menos quarenta por hora. Deveríamos chegar lá em quinze minutos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você acha que lá está infestado? – perguntei.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Espero que não. Não agüento mais. Eu to com fome. Só tem bebida alcoólica aqui. – respondi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei pra trás. Todos estavam dormindo. A iluminação deixava tudo mais triste. Voltei pro lugar onde eu tava sentado. Do lado de Sílvia, que dormia tranquilamente. Parecia estar tendo um bom sonho.&lt;br /&gt;Felipe estava falando dormindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não deixa ele sair. Não. Ele é novo. Não pode nascer ainda. Prematura. Não me deixa sair ainda. É muito cedo. É cedo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felipe levantou e abriu os olhos. Pensei que estava acordado, mas ele se deitou imediatamente e fechou os olhos. Ignorou meu chamado. Talvez tenha ignorado por escolha. Não sei.&lt;br /&gt;Augusto protegeu o rosto com os braços. Parecia lutador. Eu nunca tinha reparado como na hora de dormir as pessoas continuavam fazendo coisas. Voltei La pra frente e Jack acordou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quer que eu dirija, Kim?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Descansa. Você já fez demais.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você ta sem comer.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Detesto me sentir inútil. Se soubesse dirigir eu ajudaria. Sério.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu te ensino. – disse Jack. – vai aprender. É fácil.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Se eu aprender, dirijo. – respondi.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;Chegamos num posto de gasolina. Tinha uma loja. Sangue no vidro e um freezer na frente da porta. Olhamos pelo vidro. Um homem se matou lá dentro. Seu sangue estava seco e seu corpo cheio e moscas. Não tinha ninguém ali. Empurramos a porta e conseguimos entrar. Mas demorou bastante. Era pesado e ficou agarrado.&lt;br /&gt;O cheiro lá dentro era horrível. Carne podre, comida estragada.&lt;br /&gt;O caixa estava aberto e sem dinheiro. Talvez alguém tenha roubado. Pegamos sucos, água, batatinhas, chocolate. Coisas que não tinha passado da validade. Jogamos quase toda a vodka fora. Deixamos só uma garrafa, porque eu pedi. Eu estava com vontade de me destruir. Aquilo da Isabela estava me corroendo por dentro. E ela dormia tranqüila. Olhos fechados, totalmente alheios àquele caos que eu via. Como no sonho. Voando de olhos fechados.&lt;br /&gt;Eu podia mentir pra mim mesmo com palavras, mas no fundo ela me fazia me sentir especial. Porque eu a ouvia, e me sentia indispensável. Sentia ser importante, se não para mim mesmo, ao menos para alguém.&lt;br /&gt;Mas era tudo uma fraude. Uma mentira que criei para mim mesmo. Eis aí a verdade. Era tudo uma mentira. Não havia nada bem e nem nada ficaria bem. O mundo estava um caos, e minha alma também. E eu sentia que isso era algo perpétuo. Prisão perpétua nesse mundo e em mim mesmo. Tortura dupla. Ser e estar.&lt;br /&gt;Todos acordaram inclusive Isabela, que tentou me beijar. Eu a abracei. Não tive coragem de dizer que sabia, mas abraçá-la já não era a mesma coisa. Não me trazia mais paz. Apenas um desejo misturado com repulsa. Era como querer mergulhar na lama, mas ter vontade de permanecer limpo. Não encontro outra maneira de definir. A gente sente e vive, mas pra explicar nem sempre é possível. Faltam palavras...&lt;br /&gt;Dei a desculpa de que estava me sentindo estranho e não falei com ela. Quando comecei a beber com o Felipe ela percebeu que eu sabia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Me dá um pouco? – disse ela.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você quer beber?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Se eu não quisesse eu pediria?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fundo eu mandei ela tomar no cu com aquela hostilidade, mas não falei nada. Detonamos metade da garrafa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Fala aí, Felipe. Teve pesadelo essa noite?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sol estava já nascendo, e todos acordaram. Aprendemos a dormir quando fica escuro e a acordar quando o dia começa. Menos eu, mas eu já tava me adaptando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sei que tive um sonho, mas esqueci,&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sei como é.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Falai, cara. Como você conseguiu parar os jumpers?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não parei eles. Alguém fez isso. Tinha alguém controlando eles.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quem?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sei lá. Um velho.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não é verdade. – disse Silvia. - Foi você.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porra, eu tava lá. Quer saber mais que eu?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu sei mais do que você. Você nasceu. Prematuro, mas nasceu. E é promissor.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porra. Mais uma maluca.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você não acha isso de verdade. Você sente o seu destino. Sente que está despertando. Não sente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felipe deu uma golada grande. Olhou pra ela. Andou em sua direção e deitou em seu colo. Não entendi nada. Ele ficou apontando pro teto. Dizia que tinha estrelas de plástico coladas lá, mas eu não vi nenhuma. Ele estava muito chapado. Abraçava Silvia e esfregava o rosto no ventre dela. Pensei que ela ficaria chocada, se sentindo estranha, mas ela sorriu e fez carinho na cabeça dele. Foi realmente a primeira vez que eu o vi sorrindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Viu, Roberto. Ele só é prematuro. Prematuros sofrem mais. Mas ele tem o destino dele e está se saindo bem.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu não consigo te entender, Silvia. Você parece ter uma sabedoria incrível, mas acho que vai pra além de mim.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não vai. É porque você cria essas idéias pra filtrar o que sente. Cria essas barreiras. Mas lá no fundo você sabe. Está escrito na sua essência como uma marca na pedra. Você não pode apagar. Só que você vai nascer na sua hora.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Nascer?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É. O homem para chegar onde você quer tem que nascer de novo. Tem que nascer da água e do espírito.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Isso não é fala de Jesus? – disse Isabela&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É fala dele sim. Ele já sabia, mas poucos entenderam. Pensam que isso é o mesmo que se converter a uma religião. Mas a água é o fundo da alma da pessoa. A parte que ela não vê porque fica escondida. E é lá que reside o espírito real. A essência. Quando o indivíduo mergulha na água e descobre o espírito, ele renasce. E aí sim ele pode dizer que é o que é. Até lá, ele é um vulto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei uma golada na garrafa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sabe que você é linda? – perguntei&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Obrigada.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ta me agradecendo por quê?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu vou te auxiliar em tudo o que você precisar. Conte comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela estava me desconversando. Entendi que ela não aceitaria envolvimento comigo. Não pessoal ou romântico. Eu nem sou digno mesmo. Uma mulher tão sábia, tão linda. Boa demais pra mim. Mesmo assim eu fiquei imaginando. Não manchei a imagem dela na minha mente com banalidades sexuais. Só me imaginava com ela numa rede. Estávamos balançando na rede. Na beira da praia. Tão bom...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pra onde estamos indo? – perguntei.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Jack disse que tem um lugar seguro lá pro Canadá. Ele tem o endereço. Está nos levando lá. – respondeu Isabela&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É uma mansão. Parece que um milionário conseguiu sobreviver e deu um chamado pro exercito. Só que só sobramos nós, daí vamos pra lá. – disse Augusto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava com raiva dele, mas sabia que não era culpa dele. Da mesma forma que eu, ele não deve ter entendido ela, mas também não deve ter conseguido resistir. Ela é assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quando você fecha os seus olhos, você sabe. Por que ainda me pergunta? Disse Sílvia a Felipe&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não sei. Eu tenho medo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Dói. Eu sei que dói. Mas tem que ser assim. Precisa ser assim.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Por quê?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu não sei. Mas é assim. A gente tem que sofrer pra aprender. É só na base do fogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felipe pegou no sono de novo. Bebeu demais. Eu queria estar no lugar dele.&lt;br /&gt;O vazio dentro de mim foi aumentando. Não era mais aquela tristeza de antes. Era mesmo algo que faltava. Algo dentro de mim que eu precisava e não tinha. Eu troquei de lugar, fiquei na janela. Nada adiantou. Ela estava lá. Eu era obrigado a olhar. Eu queria sumir, ou então que ela sumisse da minha vista.&lt;br /&gt;Jack acelerou e ouvimos um som no telhado. Um impacto rápido. Vi os jumpers pela janela de trás.&lt;br /&gt;Felipe levantou do colo de Sílvia e foi até Jack. Mostrou no retrovisor que os jumpers nos acompanhavam facilmente, uns saltando e outros só correndo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Para o carro. – disse ele&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quê? Ta maluco, cara? – perguntou Augusto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jack freou devagar. Os jumpers se alinharam na direção da porta do trailer como um triangulo: da maneira que pássaros em migração se alinham. Felipe saiu, e todos nós o seguimos. O jumper que estava na ponta do triangulo deu um grito, mas nada alto demais.&lt;br /&gt;Felipe tirou uma esfera do bolso e jogou para ele. Ninguém falou nada. O monstro fitou a esfera. Tinha um brilho maligno nos olhos. Ele parecia ter uma consciência como a nossa. Não era só uma fera, como os outros.&lt;br /&gt;Jogou pra cima e abocanhou. Engoliu rápido, sem mastigar.&lt;br /&gt;Seu corpo começou a inchar, como que prestes a explodir. Mas ele não explodiu. Seu corpo cresceu. Deve ter ficado com uns cinco metros de altura. Aliás, as proporções do corpo dele ficaram intocadas. Até o cabelo dele cresceu e ficou mais grosso.&lt;br /&gt;Ele nos olhou e sorriu. Pegou Isabela com uma mão e saltou. Foi tão alto o salto que ele ficou pequeno no céu. Corri na direção dele, mas os jumpers me derrubaram. Silvia parou os jumpers e me puxou de volta para o trailer. Não fui capaz de reagir.&lt;br /&gt;Quando cheguei na porta os jumpers se levantaram e correram na direção em que o gigante pulou. O vento ficou intenso. Assoprava poeira. Entramos no trailer.&lt;br /&gt;Minha cabeça não parava de se mexer. De um lado pro outro, como que negando o que havia acontecido. Desejei uma coisa e no instante seguinte ela se tornou realidade. Eu tinha que fazer alguma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vamos até uma bifurcação. Depois viramos à direita e vocês deixarão Augusto e Roberto na beira de um rio. Eu vou ficar com eles. Nos encontraremos a dez milhas do refúgio no Canadá. - disse Silvia.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quê? – perguntou Jack&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você entendeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Realmente chegamos numa bifurcação e Jack pegou a direita. Depois de algum tempo vimos um rio. O silêncio que reinava no trailer foi quebrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Chegou. Pare aqui. – disse Sílvia. – você tem certeza, Roberto?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu tenho.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que porra é essa? – perguntou Augusto. – vocês estão loucos.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu to indo atrás da Isabela. Você vem?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Como sabe que ela ta por aqui?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu só sei. Você vem ou vai fugir?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu vou, mas isso ta muito mal contado.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Foda-se. To indo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar daquela certeza íntima, na verdade eu não sabia de porra nenhuma. Peguei uma metralhadora e uma faca. Saí do trailer e corri na direção do rio. A água estava muito gelada, mas eu tinha que atravessar. Procurei um ponto estreito, mas não encontrei. E nem nenhuma ponte. Pelo menos não tinha correnteza.&lt;br /&gt;Corri e saltei. Não sei mergulhar direito, então caí de barriga na água. Mas nem foi isso o que mais me atingiu. A água estava gelada demais. Depois de dois segundos eu já não sentia nada além de uma agonia enorme. Augusto não veio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Olha lá! – ele disse apontando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do outro lado eu vi o gigante com Isabela em cima de uma pedra. Parecia um ritual de sacrifício. Nadei o mais rápido que pude, e quando cheguei na outra borda meu corpo tremia. Eu nem conseguia abrir minha boca direito.&lt;br /&gt;Tentei correr, mas caí. Andei meio cambaleando. Larguei meu casaco. Não percebi, mas molhei a arma e ela parou de funcionar. Peguei minha faca. Eu sabia que era suicídio, mas não ligava. Morrer não podia ser tão ruim.&lt;br /&gt;Olhei pra trás e vi que todos estavam fora do trailer olhando. Augusto, Jack, Kimberly e Sílvia estavam com armas apontadas para o monstro, e Felipe estava abaixado com as mãos no chão. Ele encheu as mãos e terra e as levantou. Estava, por algum motivo, me mostrando a terra. Não entendi nada.&lt;br /&gt;Começaram a atirar. Talvez por causa do tamanho do monstro, que tinha três vezes a minha altura, eles só acertaram tiros nele. Mas ele não se importou.&lt;br /&gt;Ele me segurou numa mão e me levantou no alto. Alguém jogou uma granada no pé dele, ao que sua mão afrouxou e soltei meu braço esquerdo. Peguei a faca e enfiei na mão dele. Caí no chão, lá do alto. Fiquei tonto. Tudo rodando.&lt;br /&gt;Quando eu caí no chão eles começaram a disparar, mas a pele daquele monstro era muito resistente. Os tiros de pistola nem a perfuravam. E os de fuzil não faziam muito estrago.&lt;br /&gt;Ele se abaixou até Isabela e chupou o cabelo dela. Olhou pra mim com algo maligno, mas não hostil. A testa dela estava exposta, e ele abriu a boca. Parecia que queria engolir a cabeça dela. Consegui me levantar, mas caí de novo.&lt;br /&gt;Ele cortou a testa dela com os dentes e depois lambeu a ferida. Era o fim. Isabela estava infectada.&lt;br /&gt;Eu senti ódio. Dessa vez não era um ódio por tudo, mas direcionado. Eu odiei aquele monstro maldito. Levantei e me recuperei. Corri na direção dele gritando, ao que os tiros pararam.&lt;br /&gt;Tentei acertá-lo com a faca, mas ele a tirou da minha mão. Mesmo desarmado eu corri na direção dele. fui lançado pra trás de novo, e voltei correndo. A cada vez que ele me atingia eu voltava mais raivoso.&lt;br /&gt;Na terceira vez eu gritei com toda a minha força. Minha garganta doeu. Senti a vibração.&lt;br /&gt;Dois jumpers surgiram do nada e atacaram o monstro, que partiu um deles no meio com facilidade e saltou com o outro agarrado em seu braço tentando alcançar sua cabeça.&lt;br /&gt;Caí de joelhos no chão e desmaiei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apareci no jardim de Gaia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não faça essa pergunta. Você sabe a resposta. – disse Gaia.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu sei. Devo só ter apagado. Tava arrebentado.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você não tem muito tempo. Aquele que não renascer da água e do espírito não pode entrar no reino de Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebi que ela tinha a forma de Silvia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você é Sílvia? – perguntei&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você não percebeu? A minha forma é você quem escolhe, porque eu mesma não tenho forma. Eu sou tudo e estou em todo o lugar. Antes você me via como uma figura que te impressionou, e agora sou essa mulher, porque ela te fascina. Pare de perder tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei. Silvia estava perto do altar, diante do corpo de Isabela. Ela estava seca. Devem ter encontrado outro caminho pra chegar ali. Ela me olhou, e o olhar dela me fez lembrar o sonho, que quando acordei tinha desaparecido da minha mente por causa da dor que eu sentia por todo o corpo.&lt;br /&gt;Andei meio mancando até o altar. Consegui pegar Isabela no colo. Muito leve. Cheguei na beira do rio, e Augusto gritava do outro lado. Imaginei o motivo de ele também não ter cruzado o rio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não joga ela no rio! Ta maluco!? Caralho!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar do desespero, ele não tentou cruzar o rio. Ficou fixo numa rocha. Eu pensava que ele viria, mas não veio. Afundei a cabeça dela na água por uns segundos. Vi o sangue saindo pelo corte em sua testa e sendo levado pela correnteza. Foi como se naquele sangue a antiga Isabela tivesse sido levada. Ela nunca mais foi a mesma.&lt;br /&gt;Despertou assustada. Rapidamente se soltou de mim e se encolheu. Ela olhou pro trailer e olhei junto. Sílvia estava saindo de lá.&lt;br /&gt;Olhei pra trás a não a vi. Será que tive uma alucinação. Fiquei pensando que estava sonhando, e isso me deixou aflito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Roberto, a gente tem que conversar. – disse Isabela&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pode falar. – respondi.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu acordei.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não sei se entendi bem. O que quer dizer?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu abri os olhos, Roberto. Não estou mais dormindo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você voava comigo de olhos fechados. Foi assim que sonhei.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; E agora meus olhos abriram. Tudo mudou. Tudo isso tinha me levado a perder a mim mesma. Eu não sabia o que estava fazendo. Uma força me carregava.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não era amor, essa força?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Eu só era dependente. É que você tem bom coração. Você nem sentiu que te suguei esse tempo todo. Tem tanto a ser sugado que quase não fez diferença.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não tenho. Eu sou vazio.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não é ilusão minha mais, Roberto. Você me ouviu, me entendeu. Você me amou. Deu tudo o que eu precisava. E agora eu consegui me recuperar. Nada disso teria acontecido sem você.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas...?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Foi isso.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Foi?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É. Eu já não tenho nada a te oferecer. Nunca tive, no final das contas. Estou liberta e não posso mais continuar assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tirei o papel do meu bolso. Queria ter entregado a ela antes. Meu recado, que escrevi quando estava isolado. Triste reler.&lt;br /&gt;Eu estava certo. Ela nunca lerá esse recado. Mas também não posso apagar da minha memória.&lt;br /&gt;O vento levou da minha mão e o papel caiu no rio. Boiou um pouco, mas logo começou a desmanchar. Fiquei olhando pro papel. Eu tremia ainda com o frio e mal podia me mexer de tanta dor por causa dos tombos. Mas eu quase não senti isso naquele momento. Só olhava para o papel se desmanchar com meus sonhos. Minha esperança de ser humano teria ido por água abaixo?&lt;br /&gt;Eu tinha um pressentimento sombrio sobre meu destino. Quis me matar. Mais por medo do que por tristeza. O monstro não me matou porque não quis?&lt;br /&gt;Augusto conseguiu encontrar uma ponte com um mapa e já estava vindo pro nosso lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que papel era aquele? Ela perguntou.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não era nada.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não parecia nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não tava com cabeça pra inventar desculpas. Estava cansado. No limite.&lt;br /&gt;O trailer chegou e Felipe me trouxe uma toalha. Isabela abraçou Augusto e o beijou. Foi uma facada pra mim. Entramos e o carro seguiu. Dessa vez sem mais paradas para o nosso destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Cadê a conexão agora? – perguntou Felipe. – não foi só acabar o interesse que acabou também o amor?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Verdade. Cadê a conexão?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Agora entende que nossa existência não é nada mais do um vazio?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não sei cara. Me dá a vodka aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bebemos o resto. Chorei. Isabela fechou os olhos. Fingiu que estava dormindo, mas o ritmo da respiração não me enganou.&lt;br /&gt;Interesse. Sempre foi tudo por interesse. Eu buscava essa “conexão” nela e ela buscava um salvador em mim. Não tinha como dar certo assim. Ela ficou com a ilusão de que eu a salvei, mas e eu?&lt;br /&gt;Minha tristeza foi se transformando em raiva. Eu arrisquei minha vida, eu doei minha vida. O que ela me deu? Sorrisos, abraços! Pro diabo! Maldita!&lt;br /&gt;Voei no reino cor do de rosa por todo esse tempo pra perceber a ilusão. Ela nunca me amou. Tudo foi uma farsa. Uma maldita ilusão.&lt;br /&gt;Sílvia me deitou em seu colo. Felipe ficou nos olhando. Eu me identifiquei com esse cara. Parecia como um irmão pra mim. E Sílvia tomou o lugar de uma mãe. Minha e dele. Acho que eu era a única pessoa ali a gostar dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Como é a sensação, Felipe? – perguntei&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; De quê?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; De controlar os monstros?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É como uma conseqüência, observei. Você sente ódio e deixa o seu ódio fluir pra fora você. E é ele que controla os monstros. Ódio...&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; E você, Sil? Controla como? – perguntei&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Amor. Eu não controlo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quê? – perguntou Felipe.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Se você tem amor em si para dar a esses monstros, eles não vão ser capazes de te tocar.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porquê?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porque eles são trevas e destruição. E isso não se mistura com o amor. São forças complementares mais opostas. O amor constrói, e isso confunde e paralisa os montros.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não consigo. – disse eu. – eu não consigo amar nem a mim mesmo, Sil.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Consegue. É que você não nasceu ainda.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; E eu? E o amor pra mim? – disse Felipe&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você quer amor?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu queria que existisse, mas é uma farsa.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você terá o que procura.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ilusão. As pessoas procuram coisas por toda uma vida e não encontram. Isso não passa de uma falácia do senso comum. – disse Felipe&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Se você a interpreta com senso comum, então é um erro. Mas veja seu espírito e para onde o seu íntimo se move. Veja o que ele quer ter, e verá que está prestes a alcançar. – respondeu Sílvia.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O quê?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Caos.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Errado. Realidade.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Use a palavra que quiser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não agüentei mais. Muita informação pra mim. Acabei por me render ao sono tranqüilo no colo dela. Minha deusa...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4664356695252564512-2809184145180732711?l=biohazardalimpeza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://biohazardalimpeza.blogspot.com/feeds/2809184145180732711/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4664356695252564512&amp;postID=2809184145180732711' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4664356695252564512/posts/default/2809184145180732711'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4664356695252564512/posts/default/2809184145180732711'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://biohazardalimpeza.blogspot.com/2009/12/capitulo-20.html' title='Capítulo 20'/><author><name>Silas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08560610846360060486</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/ScXDtIGMN9I/AAAAAAAAABQ/YF39-2VxJ3k/S220/zumbi.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/Sx_AoFYGiEI/AAAAAAAAAUg/m2lfUFqL7P4/s72-c/Road_to_SFranX.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4664356695252564512.post-392518746514758720</id><published>2009-12-02T12:51:00.000-08:00</published><updated>2009-12-12T08:28:29.548-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Capítulo 19'/><title type='text'>Capítulo 19</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/SxbTDGu1RwI/AAAAAAAAAUQ/-Aowq-gCenw/s1600-h/mascara.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/SxbTDGu1RwI/AAAAAAAAAUQ/-Aowq-gCenw/s400/mascara.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A casa está vazia. Os meus chamados não recebem resposta. O quintal está vazio. Tudo está vazio. Eu descobri minha resposta e percebi que ela revela algo que não é assim tão bom. Tudo é vazio. Eu descobri um ser humano agachado, encolhido, ressentido. Descobri a mim mesmo. E a casa está vazia. Ninguém saberá disso. Ninguém saberá que eu passei a minha vida me escondendo de mim mesmo com medo do tormento que seria me encontrar.&lt;br /&gt;Eu descobri que sou orgânico, e não uma força do universo. Como toda estrutura orgânica, eu posso apodrecer. E, abandonado nas cadeias do submundo, eu apodreci. Agora tento juntar as partes e formar um ser. Tentar entender. Mas meu cheiro de podre é insuportável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu descobri a resposta para a pergunta. Eu descobri o motivo de o homem ter se matado. Eu sou ele, e ele sou eu. Ele estava nessa casa vazia. Ninguém poderia ouvi-lo. Ninguém poderia fazer companhia real, humana. Ninguém apodrecia, ninguém sofria, chorava, sorria. Ele vivia num mundo onde nunca era confrontado, nunca poderia ter um amigo. Quem não se mataria? Como minha vida é diferente?&lt;br /&gt;Eu ando junto com pessoas, mas sou alheio a elas. Eu me importo com o bem estar delas, mas de alguma maneira sempre me vi como algo diferente. Longe de ser humano.&lt;br /&gt;Quer dizer, eu andava, porque agora e estou sozinho nessa casa. Eu precisei perder tudo aquilo que eu tinha e não sabia para perceber que estava diante de mim a oportunidade de me tornar humano.&lt;br /&gt;Eu saí do inferno e pensei que estava pronto para enfrentar esse mundo real. Afinal, em comparação àquele lugar, isso deveria ser brincadeira de criança. Mas eu tomei um tapa na cara. O mundo real se mostrou mais difícil de compreender do que o inferno. Porque o inferno existe dentro de mim, e isso eu entendo bem. Mas o mundo real existe fora, e o que está fora sempre é um mistério. É autônomo. Eu precisaria ser humano para entender o mundo externo e entender o mundo externo pra ser humano. Um ciclo fechado, para dentro do qual eu só poderia entrar depois disso. De ficar preso nessa casa infernal e descobrir as verdades que a Deusa queria me passar. Aqui eu tenho liberdade pra pensar qualquer merda sem que alguém venha rir e zombar de mim por que acreditar em absurdos. Mas aqui eu jamais poderei aprender qualquer coisa, porque não há ninguém. A casa está vazia.&lt;br /&gt;Eu nem levantei da cama de manhã. O despertador tocou às sete, mas eu voltei a dormir e fui até uma da tarde.&lt;br /&gt;Levantei meio morto, meio abatido. A comida estava fresca na geladeira. Muita cerveja. Detesto isso.&lt;br /&gt;Peguei um biscoito de chocolate. Nem gosto disso, mas foi a primeira coisa que encontrei. Saí da casa e fui para o celeiro. Os donos da fazenda estavam duros feito pedra. Rigor mortis.&lt;br /&gt;Tentei cavar um túmulo ali com uma pá, mas a terra era batida. Cavei do lado de fora do celeiro. Só fiz isso porque eu queria fazer alguma coisa.&lt;br /&gt;Foi muito mais difícil do que eu imaginei. Vai ficando pesado com o tempo. O braço começa a doer. Nem consegui abrir dois túmulos: arrastei os dois para o túmulo. A senhora estava totalmente dilacerada. Quando puxei os braços, a coluna se desprendeu das pernas. Tive que fazer duas viagens. O homem estava esfolado, mas chegou inteiro no túmulo.&lt;br /&gt;Ela caiu de barriga pra cima, embora as pernas tenham fica meio tortas em relação ao corpo.&lt;br /&gt;Ele caiu de barriga pra baixo bem em cima dela. Ironicamente, se não fosse peço braço dele na frente ele estariam com os lábios se tocando.&lt;br /&gt;Eu estava cansado demais pra tapar a cova, então entrei na casa. De novo. Bebi água e liguei a TV. Pareceu bizarro que ainda tivessem luz elétrica. Verifiquei mais tarde que eles possuíam painéis de energia solar em casa.&lt;br /&gt;Naturalmente nenhum canal exibia programação. Eu achei algumas fitas cassete na estante. Coloquei a primeira e vi um vídeo de cobertura de uma formatura. Todos rindo. Uma menina estava se formando no segundo grau. Provavelmente filha deles. Ela tinha algo lindo no olhar.Lembrava até a deusa dos meus sonhos.&lt;br /&gt;Peguei mais água e continuei assistindo àquele vídeo. Ela tinha o cabelos castanho, pelo que vi nas fotos, mas tinha feito luzes na data daquele vídeo. Ela estava radiante. Alegava ter conseguido ma vaga na universidade com bolsa. Os pais estavam orgulhosos. Apesar de todo esse brilho, não vi os outros formandos dando atenção a ela. Eles como que fingiam que ela nem existia. Como podiam excluir uma pessoa com tal expressão?&lt;br /&gt;Continuei a ver o filme, mas lá pro meio eu comecei a devanear. Deram um carro pra ela de presente e ela disse que o usaria na universidade. Isso queria dizer que ela não morava mais ali. Imaginei que ela poderia ter sobrevivido. Quis encontrá-la.&lt;br /&gt;Passou um carro na estrada. Uma minivan em alta velocidade. Nenhum infectado a perseguia. Corri o mais rápido que pude, mas não cheguei a tempo. Ela já estava longe demais quando comecei a acenar.&lt;br /&gt;Lá dentro eu me entreguei aos devaneios novamente. E se ela viesse para a casa dos pais?&lt;br /&gt;Talvez esperando ali eu pudesse encontrá-la. Eu tinha que encontrá-la de qualquer maneira. Eu sentia isso. Mas algo dentro de mim me lembrava que isso estava muito longe das minhas possibilidades: que eu não encontraria ninguém.&lt;br /&gt;Saí da casa com um casaco do velho. O lugar era bem frio, por mais que estivesse fazendo sol. Os corpos estavam repletos de vermes e moscas. Alguns deles estavam mortos.&lt;br /&gt;Joguei terra e me assustei com o movimento que o velho fez. Foi ao um espasmo, mas num mundo povoado por gente morta e assassina você acaba ficando meio paranóico. Consegui encher a cova de terra. Só espero que a infecção não seja transmitida aos outros seres vivos da cadeia alimentar. Senão toda a vida na terra será destruída.&lt;br /&gt;Lembrei do hábito do sargento e fiz uma lista mostrando o estoque da casa. Excepcionalmente bem abastecida com água e comida.&lt;br /&gt;O computador estava funcionando. Rodava em Windows 2000. Fiz uma planilha no Excel, mas depois percebi que aquilo era uma idéia muito idiota. Nem tinha folha pra imprimir. Todas foram usadas pra imprimir aquela pilha de papel. “the fear of freedom” por Erich Fromm. Eu não lia muito bem em inglês, mas alguém me recomendou esse autor a algum tempo. Decidi pegar o livro para ler. Talvez ele tivesse alguma relação com o bilhete. Talvez minha resposta fosse ser ampliada ou mesmo modificada por ele.&lt;br /&gt;Depois de ler o início, lá pra trinta páginas, eu cansei. Aparecia profundamente interessante, mas eu estava me sentindo muito sujo. Cheio de areia no corpo. Achei as roupas do velho e fui pro banheiro. Quando tirei a calça, percebi que tinha algo no bolso. Um papel de ofício amassado. Reconheci a letra de Isabela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu fiquei tão assustada quando você estava estranho. Sabe, eu tinha medo de você não gostar mais de mim. Mas eu senti algo diferente. Estou escrevendo no avião. Você dormiu, mas eu fiquei acordada. Achei isso no banco. Eu nem ia escrever nada, mas você falou o meu nome enquanto dormia. O meu nome...&lt;br /&gt;E você sorriu feio um idiota. Nunca imaginei aquela cara em você. Pensei em como sempre é agradável estar contigo. Eu adoro quando você tem essas crises românticas e fica todo sensível. Daí você se dá conta disso e começa a se gabar. É um palhaço. Mas eu gosto.&lt;br /&gt;Eu gosto de como você chuta a perna quando anda distraído. De como coça a cabeça quando não está entendendo. Eu te amo. Mas não digo isso sempre. Pra mim as vezes é difícil falar. Eu nem sei porque. Mas isso vai ficar no seu bolso. Em breve você vai ler. E eu quero ver a sua cara. Eu descobri as poesias que você fazia pra mim no mercado. Sempre que você pegava aquele notebook você escrevia uma. Porque nunca me mostrou?&lt;br /&gt;Uma delas tinha até o meu nome...&lt;br /&gt;Eu gravei num pen drive. Daí elas não se perderam na estrada. Eu reli no iate. Senti mais segurança.&lt;br /&gt;Quando eu comecei a escrever eu não sabia o motivo, mas agora sei. É que eu quero que você saiba. Sei que você já vê nos meus olhos, mas eu queria ter certeza. Queria que você fizesse como eu. Que lesse o que eu escrevi escondido e sorrisse, chorasse. Queria que enquanto eu estivesse dormindo ou, por qualquer motivo, não estivesse contigo, você olhasse esse pedaço de papel. Nossa, essa frase ficou doida. Espero que consiga entender. Sem rasuras nesse bilhete.&lt;br /&gt;Da sua Isabela.&lt;br /&gt;Obs: você vai tirar essa barba! Isso é um decreto!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu dei uma gargalhada no final, mas estava chorando ao mesmo tempo. Eu estava soluçando. Sentei no canto do banheiro, bem do lado do vaso sanitário, e comecei a chorar. Beijei o bilhete algumas vezes, mas percebi que o estava babando, então parei. Eu reli a mensagem, e cada letra parecia trazer ela pra perto. Como se, através daquele bilhete, ela estivesse tendo contato comigo.&lt;br /&gt;Não havia esperanças, mas ainda assim o sentimento queimava no peito. Essas coisas a gente não controla e nem decide. Só sente e pronto. E eu aproveitei o sentimento. Li e reli até que fui lentamente acordando pra realidade. O avião a levou embora. Eu nem imaginava onde ela estava. Apesar da distância, eu não sentia que o laço estava quebrado. Apesar de que, com o avião, eles poderiam estar em qualquer lugar, eu não perdi a esperança.&lt;br /&gt;Tinha uma banheira ali. Eu nunca tinha usado uma na vida. Pareceu estranho. Afinal, como eu faria pra me esfregar debaixo da água?&lt;br /&gt;Havia sabonetes líquidos e outras coisas que eu não entendi bem. Coloquei sabão demais e a espuma quase ultrapassou minha cabeça.&lt;br /&gt;Eu ri por um instante, mas depois fui tomado por uma profunda melancolia. Só naquele momento que eu senti a dor que estava dentro de mim por causa de toda a tragédia. Antes eu estava com ela. O mundo estava caindo, mas eu estava com ela. Estava tudo bem. Eu tinha sido humano aquele tempo tudo. Só não sabia disso. Olhei pro bilhete dobrado em cima do vaso. Não tinha nenhum cheiro, mas eu gostei de ficar imaginando que a essência dela ainda estava no pedaço de papel.&lt;br /&gt;Esvaziei a banheira e deixei o ralo aberto. Tinha uma ducha, então assim eu consegui tomar um banho mais ou menos da maneira que eu estava acostumado.&lt;br /&gt;Depois de vestir a roupa do dono da casa, peguei o papel e coloquei no bolso da jaqueta. A TV ainda estava ligada, mas a fita estava acabada. Estava retrocedendo automaticamente. Quando terminou, a fita saiu e eu guardei. Saí da casa. Estava tudo deserto. Andei sem rumo. Não mudei de direção pra não me perder. Depois de alguns minutos eu vi uma cerca. Tinha uma vaca presa. Estava sozinha. Na verdade nem estava presa. Um portão ali perto estava aberto. Quando cheguei perto, ela se levantou. Mas estava muito fraca. Fiz carinho na cabeça dela e ela cheirou minha mão. Imaginei que estava com fome e voltei no celeiro.&lt;br /&gt;Ainda estava fedendo. Tinha sangue no chão.&lt;br /&gt;Eu não sabia qual era a ração dela. Tinha de dois tipos. Levei os dois até lá. Estava pesado, mas eu me sentia leve.&lt;br /&gt;Coloquei as duas diante dela e ela comeu ambas. Pensei que ela poderia estar com sede, então dei água a ela também. Trouxe uma espécie de pote de madeira. Não sei qual é o nome, mas é normal o gado beber água naquilo. Era bem pequeno, provavelmente só duas vacas conseguiriam beber ali.&lt;br /&gt;Enchi de água e ela bebeu tudo. Deitou de novo e dormiu. Talvez estivesse doente ou velha. Talvez os dois.&lt;br /&gt;Era uma vaca, mas eu não tinha mais companhia. Deitei no gramado e peguei o bilhete. Comecei a ler e o vento o arrancou da minha mão. Levantei e corri. Não parei até conseguir pegá-lo. Fui parar dentro de uma pequena floresta. Ficou preso numa árvore, e eu tive que subir pra pegar.&lt;br /&gt;Lá de cima eu vi um telhado. Subi mais um pouco e vi uma cabana. O galho em que eu subi pra ver era frágil e quebrou. Caí com as costas na raiz da arvore e apaguei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apareci num jardim. Era o jardim da Deusa. Comecei a chorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu morri? – perguntei&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Isso é motivo para chorar? Quantas vezes você já não quis acabar com sua vida?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É que eu achei um bilhete. E eu li uma charada. Eu queria viver. Irônico eu morrer logo agora.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não morreu não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vi meu corpo estirado na raiz da árvore. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você ficaria paralítico com isso, mas não ficará.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Por quê?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É que você não sabe como seu espírito controla seu corpo. Ainda não despertou.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porque eu sou ignorante eu vou ser curado.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Você será curado porque conseguiu.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Consegui o quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me abraçou. O ar saiu pelo nariz dela e me deu um calafrio na espinha. Eu sorri. Senti-me feliz. Em paz.&lt;br /&gt;Vi raízes levantando o meu corpo. Fiquei curioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não olhe. – disse ela. – feche os olhos.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas estou curioso.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não é a hora de você entender isso. Tem que deixar o universo te guiar no caminho e não querer controlar tudo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tudo bem. Desculpe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu fechei os olhos e de repente comecei a voar. Isabela estava voando comigo. Ela não me viu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Está vendo ela? Vocês estão voando juntos agora. – disse a deusa.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Onde você está? – perguntei.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Estou em você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isabel desceu. Fui junto com ela. A abracei lá em baixo e subimos. Entendi que estávamos agora construindo nossa história juntos. Que eu não poderia mais simplesmente voar para qualquer lugar. Agora estávamos construindo o nosso destino juntos. Ela estava de olhos fechados. Nem me olhou. Mas voou comigo. Demos voltas no céu. As vezes eu a seguia e outras ela me seguia. Tínhamos um destino, mas nos desviávamos dele constantemente. Um ajudava o outro a continuar. Não consegui ver o meu destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei na raiz da arvore. Eu estava me sentindo bem. Passei as mãos nas costas e senti uma cicatriz. Parecia cirúrgica.&lt;br /&gt;Segui na direção da cabana. Tinha um velho com uma espingarda sentado numa cadeira de balanço. Chamei, fiz barulhos, joguei uma pedra na varanda. Ele não despertou. Cheguei perto e toquei nele. Estava frio. Morto. Pelo menos não tinha nenhuma ferida, então provavelmente morreu naturalmente. Ele tinha um pote nas mãos. Tinha uma mensagem escrita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“The medicine for the cow. This is urgent.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notei que o bilhete estava na minha mão. Estava tão acostumado que andei alguns metros sem perceber. Guardei no bolso da calça e peguei o pote. Pensei em pegar a arma, mas mudei de idéia e deixei lá.&lt;br /&gt;Andei de volta para onde a vaca estava. Demorei um pouco pra chegar lá. Não tinha percebido a distância que corri atrás do papel. Ela ainda estava deitada, mas quando cheguei ela levantou. Parecia um pouco melhor.&lt;br /&gt;Segurei a coleira dela e a levei pra casa. Usei uma corda pra amarrá-la. Nos fundos e fui até o celeiro com desinfetante e uma vassoura.&lt;br /&gt;Varri os pedaços pequenos que ficaram ali e joguei desinfetante no sangue. O cheiro de podre ficou melhor, então eu trouxe a vaca até ali. Fechei as entradas, só deixando aberta a parte do teto. Eu nem sabia fechar.&lt;br /&gt;Dei a ela um pouco mais de ração misturada com o remédio e fui pra casa. Ela comeu e se deitou num canto cheio de feno. Saí e deixei-a lá.&lt;br /&gt;Dentro da casa, peguei a primeira página do livro e comecei a escrever no verso. Só tinha o título nela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“São tantas as coisas que eu queria te contar. Só tenho medo de você pensar que sou louco. Porque eu estou isolado e provavelmente nunca mais nos veremos, acho que não tem problema. Vou sonhar que você está lendo. Vou fazer isso até a solidão desse lugar me enlouquecer e as minhas ilusões deixarem de me proteger. Eu falei com a Deusa.&lt;br /&gt;Eu estava pensando aqui que queria brigar contigo. Eu nem sei o motivo. É que eu queria fazer qualquer coisa contigo. Até isso me faria bem.&lt;br /&gt;Eu sonhei que estávamos voando. Tão lindo. Você estava de olhos fechados sorrindo. Claro que tinha que estar. Você não sabe que estou aqui vivo pensando em você e te escrevendo. Também não sei como você está.&lt;br /&gt;Cadê você?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deitei na cama e descansei. Não dormi: só fiquei olhando pro teto. &lt;br /&gt;Fiquei de cabeça pra baixo na cama e deu pra ver o céu. Noite bonita. Desliguei a eletricidade, porque estava gastando as baterias.&lt;br /&gt;Quando abri as cortinas, vi a lua. Queria que Isabela pudesse ver aquilo. Lindo.&lt;br /&gt;Peguei o papel de novo para escrever, mas nada me veio em mente. Juntei com o bilhete dela e coloquei no bolso. Continuei com as roupas de frio.&lt;br /&gt;Depois de muito tempo imaginando coisas eu acabei me aborrecendo. Muitas fantasias, nada real. Peguei no sono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive um sonho relaxante e sombrio ao mesmo tempo. Belo e terrível. Só sei disso pela sensação que eu tive ao acordar no dia seguinte. Não lembro do conteúdo. Só de andar por uma rua. Coisa vaga.&lt;br /&gt;Eram sete da manhã. Nem acreditei que eu estava tão disposto numa hora daquela sozinho. Foi no celeiro e descobri a porta aberta. A vaca não estava ali, mas a coleira dela sim. Tinha um sino na coleira. Peguei do chão e toquei, ao que um infectado surgiu do nada. Não sei se ele dormiu no celeiro ou o que. Mas ele estava lá. Pulou em cima de mim, mas consegui me soltar e dar um chute no peito dele. Era de baixa estatura.&lt;br /&gt;Olhei nos olhos dele, ao que ele parou. Parecia um pouco confuso. Talvez até assustado. Senti algo como ar saindo da minha boca. Mas me dava um calafrio agradável e ao mesmo tempo reprovável. Era como uma espécie de prazer demoníaco. Coisa louca.&lt;br /&gt;Abri um pouco mais a boca e percebi que saia mais. Com as mãos eu controlava o fluido. Lancei-o contra o infectado, e com isso consegui controlar as ações dele. Uma coisa bem estranha, mas curiosa e até mesmo divertida. Ordenei que ele espalhasse feno pelo celeiro e ele fez isso.&lt;br /&gt;Algo estranho aconteceu quando ele terminou. Ele colocou as mãos sobre a cabeça e começou a berrar. Parecia estar sofrendo. Eu pude ver a esfera na cabeça dele. dentro dela eu vi um velho barbado apoiado num cajado. Ele disputava comigo pelo controle do infectado. Eu consegui superá-lo facilmente, e ele olhou pra mim. Começou a rir e chamou um amigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Olha aí quem tá me enfrentando? – disse ele.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O renegado! Hahaha! Ta querendo voltar, é? – disse o outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fechei as mãos e a esfera se desfez na cabeça do infectado. Ele caiu morto. Se é que estava vivo antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O som do avião me despertou. Perdi um pouco a noção da realidade. O sonho pareceu tão real. E se eu estivesse sonhando naquele momento também. Ocorreu-me, de repente, que toda a existência é um sono. Que quando nascemos nos estamos na verdade indo dormir, para despertarmos apenas se formos capazes. Não tive muito tempo para refletir sobre aquilo. Peguei o papel com a charada e saí correndo para fora. Vi o avião. O mesmo avião que me trouxe aqui estava de volta.&lt;br /&gt;Por mais que eu estivesse eufórico, entrei no estaleiro e descobri que a vaca realmente não estava mais lá e que tinha o sino com a coleira no lugar onde ela deitou pra dormir. Sacudi o sino e nenhum infectado apareceu.&lt;br /&gt;Saí para estrada e acenei para o avião. Não seria o bastante, então levei feno pra lá e acendi com um isqueiro que estava no bolso da jaqueta. Peguei a espingarda do velho, mas percebi que estava descarregada.&lt;br /&gt;O fogo atraiu o avião, que começou a descer. Vi no horizonte os infectados chegando. Tentei imaginar em que ponto da estrada o avião iria parar, mas não consegui. Correr para qualquer lado poderia ser um erro fatal. Só fiquei pulando e acenando. Eu parecia um idiota com meu sorriso. Do ponto de vista geral, não muita coisa mudara. O mundo foi destruído e o avião provavelmente não teria lugar algum para ir. Mas eu li um bilhete, tive um sonho, respondi a uma charada e minha vida tinha mudado. Mesmo no meio de toda essa tragédia, algo na minha vida aconteceu que parecia bom. Bom demais, talvez.&lt;br /&gt;O avião soltou um pára-quedas quando pousou. Freou rápido e parou bem perto do celeiro.&lt;br /&gt;Todos desceram do avião e atiraram nos infectados que corriam a alguns quilômetros como uma massa negra no horizonte. Corri até eles curioso. Felipe foi o primeiro a descer e corre na minha direção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vou te contar, maluco, tu deve ser bom de cama mesmo. – disse ele&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quê?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tua mulher fez um escândalo no avião e fez a gente voltar aqui atrás de você.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ela fez isso?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Bonitinho, né? Só que temos um pequeno problema. O motor do avião acabou de estragar. Vamos todos morrer. Não é romântico.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tem um trailer nos fundos da casa. Talvez possamos usar ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isabela chegou correndo e pulou em cima de mim. Quase caí, mas consegui ficar de pé. Ela é bem leve. Eu nunca tinha sentido o gosto de um beijo de reencontro. Fiquei até um pouco anestesiado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu achei seu bilhete. – disse eu&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Gostou, né?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Hahahaha! Convencida!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Roberto, onde está o trailer? – perguntou Jack&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Lá. Nos fundos da casa. – disse eu apontando a direção.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Borá rápido. Os jumpers vão chegar aqui rápido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corremos para o trailer e percebemos que não havia chave lá dentro. Por mais absurdo que isso possa parecer, Kimberly achou a chave dentro do sino da vaca. E olha que eu estava reclamando que ela não estava ajudando.&lt;br /&gt;Jack iniciou o trailer. Estava com o tanque cheio. Saímos pela estrada torcendo para que os infectados não estivessem naquela direção também. Sabíamos, no entanto, que eles estavam e todos os lugares. Nós provavelmente morreríamos como Felipe falou. Era mesmo o mais lógico a se supor.&lt;br /&gt;Eu quis aproveitar meus últimos momentos para contar minhas experiências, mas depois de parar de me beijar ela começou a falar sem parar.&lt;br /&gt;Ouvi o que ela dizia e até fiz alguns comentários, mas não tive nenhuma oportunidade para contar minhas aventuras. Depois de um tempo ouvindo o que ela dizia, percebi que tudo era concreto. Fiquei com vergonha de contar meus devaneios para ela, então deixei pra lá.&lt;br /&gt;Foram muitas as coisas que ela me disse, e ela disse tão rápido que eu não lembro bem do que se tratavam. Ela só me contou as aventuras que teve enquanto estávamos distantes. Pra onde o avião foi, como ela sentiu minha falta e lutou para voltarmos. Augusto não falava uma palavra, mas estava sempre nos olhando.&lt;br /&gt;Com o tempo, tudo se acalmou e ela parou de falar. Apesar de gostar de ouvi-la, fiquei frustrado por não poder falar. Quando fui pegar meu bilhete, que nem sabia se entregaria, derrubei o enigma e Felipe pegou. Leu e ficou parado pensando. Releu. Parecia perplexo.&lt;br /&gt;Em alguns instantes ele fez uma expressão com o rosto de quem chega a uma conclusão, e veio me devolver o papel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O que achou? – perguntei&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não é obvio? – respondeu&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pra mim não pareceu.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ele se matou porque precisava de sofrimento. O ser humano precisa da Pulsão de morte.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Claro que não. Ele se matou porque se sentia sozinho.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Ele ficou saturado com toda a companhia e não conseguiu mais desejar. Na verdade solidão e tédio são a mesma coisa.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu não disse isso. Falei só que ele precisava de contato com um ser humano. Precisava de uma conexão de verdade. De algo mais.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Então você acha que o ser humano tem algo a mais? Que não somos animais?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Claro que somos animais. Mas nós temos empatia. Nos conectamos. Não é por conveniência.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Então isso é um desejo. De uma forma ou de outra você pode se saturar e ficar entediado.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Conexão é algo que basta. Você se conecta e pronto.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Hehehe. Sei. Como você e sua namoradinha?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Por que tem que falar no diminutivo?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Por mais que eu adore trazer a má notícia, combinamos que eu não faria isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isabela levantou num susto. Bateu com a cabeça na janela e deitou no meu colo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pesadelo? – perguntei&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Horrível. – ela respondeu.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Do que você estava falando, Felipe?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que a minha resposta é superior à sua.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ah. Acho que isso seria mesmo uma má notícia. Enfim, acho que nós só somos diferentes e por isso chegamos a conclusões diferentes.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Deve ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos estavam num silêncio meio constrangedor. Se entreolhavam, me olhavam. Depois do que Felipe falou eu me senti desconfiado, mas não sabia do que desconfiar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; I think we should tell him. – disse Kimberly. – it’s not fair…&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tão falando de que aí? – perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém falou nada e o trailer parou bruscamente. Fomos todos para a parte da frente do trailer e vimos uma multidão parada no meio da estrada. Estávamos no campo de visão deles, mas não reagiram à nossa presença. Jack se aproximou com o trailer e vimos uma mulher parada diante dos infectados. Estava com as duas mãos estendidas. Eram milhares de infectados. Felipe desceu do trailer. Chegou perto dela e caiu de joelhos. Rapidamente se levantou e voltou para o trailer. Parecia apavorado e ao mesmo tempo eufórico. Os infectados saíram da estrada. Como que abriram caminho. Um deles ficou, e ela fechou a mão direita, o que aparentemente o matou. Arrastou o corpo para fora da estrada e andou de costas na nossa direção, se afastando dos infectados. Chegou na porta e deu um grito. Todos caíram, e ela desmaiou. Fui o primeiro a chegar nela e me assustei. Era a mesma garota da formatura. Devia já ter uns trinta e poucos anos, mas era ela. Eu tinha certeza. Ainda linda. Felipe também reagiu assim à imagem dela, mas ele parecia mais apavorado do que perplexo. Ela despertou e falou com a voz debilitada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Passa. Não vou segurar por muito tempo. – ela falou em português.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Qual é o seu nome? – perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela desmaiou e não me respondeu. Consegui levantar ela no colo e colocá-la no lugar onde eu estava sentado. Jack acelerou e ficamos olhando pra ela por uns instantes. Vi que os infectados ainda estavam vivos na beira da estrada. Alguns com dificuldade conseguiam se arrastar. Era como se estivesse, por alguma razão, imobilizados. Os olhos dela estavam virando e eu fiz carinho no cabelo dela. Era aquele mesmo rosto. Tão lindo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você conhece ela, Roberto? – perguntou Isabela&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Conheço não. Porquê?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você parece reconhecer ela. Como se já a tivesse visto em algum lugar.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ah. Eu vi sim.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas você disse que não conhece. Tá mentindo pra mim?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não se precipita. Ela morava naquela casa onde me escondi. Tinha uma fita com a formatura dela que eu assisti. Acho que é ela mesmo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ah ta. Mas você ta fazendo carinho nela. Como se tivesse com saudade. Porquê?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu não sei.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quando você ta me escondendo as coisas você fica dizendo que não sabe. Sempre faz isso.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ta brava porquê?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu não to brava!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Deve ser a TPM. – disse Felipe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois disso ficamos em silêncio. Sentei no chão e vi Felipe bebendo. Achou vodka no frigobar. Na verdade só tinha vodka.&lt;br /&gt;Eu senti que algo estava errado, mas não percebi naquele momento o que era. Quando dizem que o que os olhos não vêem o coração não sente estão errados. Eu estava sentindo algo, e meus olhos só não diziam o que era.&lt;br /&gt;Atravessamos a multidão e os outros infectados chegaram até ela. A mulher acordou e os outros levantaram.&lt;br /&gt;Pensei que as multidões se uniriam, mas começaram a atacar-se. Jack olhou pra trás e bateu o trailer numa pedra enorme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Fiquem de olho aí! – disse ele&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele e Augusto foram consertar o problema, segundo eles não muito grave, que foi causado pela batida. A mulher veio para o meu lado. Uma figura magnífica. Profundamente fascinante. Olhou para os infectados se matando. O sol se refletia nos olhos dela. Cor de mel, como na fita. Não mudaram.&lt;br /&gt;Olhei para aquilo e fiquei abismado. Dois jumpers pularam e se encontraram no ar. Estavam cheio de ódio. Nenhum infectado parecia se importar. Eu vi uns cinquenta correndo de forma absurdamente rápida. Chegaram pelo lado direito daquela massiva guerra. Eles corriam tão rápido que o corpo tinha que ficar curvado pra frente. Eram jumpers.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Estamos com problemas. Consertem isso mais rápido! – disse a mulher&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Qual é o seu nome? – perguntei&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É Silvia. E o seu?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Roberto.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Muito prazer, Roberto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei meio confuso com a forma como ela me tratou. Naquela confusão toda e ela dando atenção à formalidades?&lt;br /&gt;Os jumpers recém chegados começaram a matar os outros infectados muito rápido. Vi corpos voando, lançados por eles. Uma coisa inacreditável diante dos meus olhos.&lt;br /&gt;Felipe correu em direção à batalha e eu quis ir atrás, mas Silvia me segurou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ele tem que ir. – disse ela&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O quê? Do que você ta falando? Ele vai morrer!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O destino é dele. Não tente mudar.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Destino não existe!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não me deixou ir. Nem era forte, mas a palavra dela teve poder sobre mim. Um poder incrível. Eu fiquei como que hipnotizado. Parado diante dela. Senti-me bem. Em paz. Incrível como uma mulher pode manipular um homem.&lt;br /&gt;Eu vi Felipe chegando à multidão. Eu estava sorrindo. Parecia que eu tava meio drogado.&lt;br /&gt;Ele parou diante dos infectados e estendeu as mãos. Os jumpers que vieram juntos foram na direção dele, matando todos os infectados no caminho.&lt;br /&gt;Não tinha como aquilo ser real. Parei de rir quando os jumpers pararam diante dele e deram meia volta. Os infectados vieram e os jumpers os destruíram lentamente todos os infectados.&lt;br /&gt;A estrada ficou cheia de cadáveres e os jumpers foram embora. Felipe voltou andando pela estrada. Seu olhar parecia profundo. Nem olhava para as coisas. Tropeçou e quase caiu no meio do caminho.&lt;br /&gt;Todos ficamos espantados, mas ninguém teve coragem de perguntar que merda foi aquela que ele fez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pronto. Caralho, o que aconteceu!? Morreram todos? – perguntou Augusto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém falou nada. Era a primeira vez que eu ouvi a voz dele naquele dia. Estava muito quieto, e isso nem era comum.&lt;br /&gt;Subimos na van. Silvia olhava para Felipe com um olhar de quem está perplexa, mas não assustada. É como se ela realmente soubesse. Totalmente louca, minhas percepção, mas foi o que pareceu. Felipe parecia cansado e mergulhado em si mesmo. Deitou nos fundos onde ficava a roupa suja e apagou.&lt;br /&gt;Seguimos pela estrada: peguei a garrafa de vodka e dei uma golada. Que dia...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4664356695252564512-392518746514758720?l=biohazardalimpeza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://biohazardalimpeza.blogspot.com/feeds/392518746514758720/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4664356695252564512&amp;postID=392518746514758720' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4664356695252564512/posts/default/392518746514758720'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4664356695252564512/posts/default/392518746514758720'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://biohazardalimpeza.blogspot.com/2009/12/capitulo-19.html' title='Capítulo 19'/><author><name>Silas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08560610846360060486</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/ScXDtIGMN9I/AAAAAAAAABQ/YF39-2VxJ3k/S220/zumbi.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/SxbTDGu1RwI/AAAAAAAAAUQ/-Aowq-gCenw/s72-c/mascara.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4664356695252564512.post-4531063992125718680</id><published>2009-11-29T17:10:00.000-08:00</published><updated>2009-12-20T07:33:29.982-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Capítulo 18'/><title type='text'>Capítulo 18</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/SxMbazuXEuI/AAAAAAAAAUA/9zfAR8NUvf8/s1600/amarga_transf.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/SxMbazuXEuI/AAAAAAAAAUA/9zfAR8NUvf8/s400/amarga_transf.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A caça à bruxa é algo que agrada a muita gente. Não me surpreende que esse hábito tenha se tornado comum. Pois o ser humano é cego quando precisa olhar para si mesmo. Poucos são os homens capazes de tal façanha. A maioria simplesmente descobre seus próprios demônios no outro, e quando isso acontece o outro precisa sofrer. Porque quando se caça uma bruxa, a entidade combatida existe na verdade dentro do próprio sujeito. Triste é o destino de quem leva uma vida inteira caçando bruxas e no final descobre que a bruxaria reside em seu coração.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Bora Rodrigo. Sobe aí porra! – disse Glauco, o motorista do jipe.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Vai, Rodrigo. Encontra tua família – disse o sargento Matheus. – to com a pistola aqui. Vou me matar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Rodrigo subiu no jipe e deram meia volta. Com um fuzil de bala silenciada ele começou a acertar os mortos que os perseguiam. Não durariam muito fugindo dos jumpers, principalmente porque eles se movem mais rápido entre as árvores. Mas no meio da estrada havia uma passagem subterrânea que foi aberta quando eles chegaram e fechada logo em seguida. Não havia iluminação no túnel a não ser pelo farol do carro.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Caralho, Glauco. Essas porras desses zumbis vão seguir a gente até o esconderijo?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não. Tem atiradores com visão noturna aqui. São dos melhores. Eles limpam a área quando entram zumbis.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O atirador da metralhadora estava com um holofote e acertava os que podia ver. Era um longo túnel. Rodrigo não tinha o que fazer naquele carro, e os pensamentos ruins o assaltaram, como sempre. Não era pro Matheus ter morrido. Ele estava pronto para vir pra cá de helicóptero. Só não foi porque ficou para ajudar Rodrigo a encontrar a família. Ele sacrificou a vida por Rodrigo. O remorso o corroia por dentro. Ele tinha que falar alguma coisa para aliviar o stress.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Como que ta a Silvana? – perguntou Rodrigo&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Tua mulher? Ta tranqüilo, cara. A gente combinou a data na moral. Ainda falta um mês pra liberarem ela pro abate. – respondeu Glauco.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Porra nenhuma. Eu to aqui. Tem mais abate com ela não. Eu agora to aqui.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Tá tranqüilo. Tu tem que ver como o negócio está lá. Essas porras saem e só voltam com mulher. Ta cheio, lá. As mulheres que seduzem melhor são as que os soldados preferem. Daí elas ganham mais comida. Irônico que uma mulher chupe um pau por causa de comida, não?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Comida... porra nenhuma. É tudo puta mesmo. Chupava de graça qualquer um antes dessa merda. É tudo igual, essas porras. Mulher é sempre puta.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- E a sua mãe?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Minha mãe era uma vadia.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- E a sua mulher?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Piranha também. Nem sei porque eu gosto tanto dela.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- E a sua filha?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Vai tomar no cú, cara! Minha filha é criança. Não vou deixar transformarem ela em puta.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Beleza. Sem stress aí.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Saíram do túnel e chegaram num portão grande. Havia barricada ali com metralhadoras silenciadas. Assim que o carro saiu, colocaram uma rede na entrada. Um jumper pulou pela saída e ficou preso. Deu um berro antes de o matarem. Começou a confusão por causa do berro.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Porra, sabia que não era pra deixar esse babaca na portaria. Porra, parece que nem sabe o que é um fuzil. Esse grito vai trazer uma porrada de zumbi pra cá e esse merda vai ter que carregar todos os corpos. Num fode! – estava gritando Frederico, o comandante.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Coronel! – disse Rodrigo entusiasmado.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Fala, capitão! Conseguiu, em? Já tava aqui me preparando pra comer sua mulher.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Tira o cavalo da chuva! Agora só come minha mulher quem me matar primeiro!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Perder um atirador como você por causa de uma boceta? To fora. Tá cheio de mulher aqui. – respondeu Frederico.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sorriram e se abraçaram. Foi um abraço rápido de cheio de tapas das costas. Pareciam ter algum problema com expressar carinho. Rodrigo conhecia alguns dos militares servindo ali.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Era um casarão enorme. Parecia preparado literalmente para guerra: havia proteção antiaérea.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- A Silvana ta aonde? – perguntou Rodrigo&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Terceiro andar. Lá pro lado direito com as velhas. – respondeu um soldado.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ta com as velhas por quê?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Crianças também. Ali ficam as pessoas inúteis.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ela é inútil? Pelo que eu sei, ela cozinha bem pra caralho.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não, maluco. É que ninguém come ela. As esposas ativas ficam no subsolo. Lá é mais protegido e tudo. É até mais confortável.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Maluco é o caralho. Olha o respeito, soldado.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Desculpe, senhor. Nós perdemos nosso antigo senso de disciplina desde que tudo isso começou.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Pois é melhor começar a procurar o que perdeu. Sem disciplina nós somos iguais a aqueles cadáveres lá fora. Pra isso aqui funcionar tem que ter ordem.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Sim, senhor.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A mansão era cheia de placas improvisadas. Separaram tudo em setores. Rodrigo foi ao banheiro. Estava muito nervoso. Lavou o rosto, molhou o cabelo. Olhou no espelho. Tava ficando careca cedo...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O lugar estava fedendo. Não era merda. Abriu a porta do vaso e achou um cadáver. Um homem se matou ali. Uma tremenda sujeira. Porque não se matou ao ar livre? Parece que tem gente que gosta de dar trabalho pros outros.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Rodrigo pegou o fuzil dele. Todo sujo de sangue. Limpou com papel higiênico enquanto saia. Chamou um soldado que estava na porta comendo uma maçã.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Soldado. Vai pro banheiro e limpa a bagunça lá. Um sujeito se matou.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Quê? Porra, é meu dia de folga!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Eu não te perguntei nada, soldado. Você recebeu uma ordem. Você me entendeu? Agora fiz uma pergunta. Você me entendeu!?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Sim senhor. Porra, nunca ninguém se matou nessa merda. Tinha que ser no meu dia de folga! Sacanagem. – murmurou o soldado enquanto ia para o banheiro.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Rodrigo colocou a bandoleira da arma nas costas. Ele sempre se sentia mais seguro quando bem armado. Aquilo ajudou a aliviar a tensão. Depois de tudo, era até difícil olhar pra ela. Mas era mais difícil não olhar. Desde que tudo isso começou, a única coisa que ele pensava era que queria estar com a família. Queria poder proteger a família. Pensou em falar pra ela que foi ele que mandou salvarem ela e a Joaninha. Mas preferiu não falar. Não queria que parecesse que ele só queria consertar as coisas. Preferia sentir pra si mesmo que o que ele fez foi por puro carinho. Pra um filho da puta e de um estuprador, até que aquilo era bem nobre.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Subiu pelas escadas. Muito pomposas, cheias de enfeites. Mas estavam marcadas pelos coturnos. Até que estava limpo, mas o tapete estava já gasto. O teto era muito alto, e por mais que só tivesse três andares, parecia ter bem mais. Meio estranho, isso, porque geralmente isso se faz pra evitar o calor. Mas estavam no sul.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Chegou no terceiro andar, e uma velha o abordou.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Você é de alta patente, não é?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Eu sou capitão.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Rosângela! É capitão! Corre aqui!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Preciso ir, senhora.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Espera só um pouco. Você vai gostar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Que é?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Uma mulher de uns quarenta anos saiu com uma menina de uns quinze. A menina não tirava os olhos do chão.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- O que acha?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- O que acha do que? Seja direta.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ela já está velha o bastante. Faz quinze semana que vem. Você quer?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Olha, eu já sou casado. Minha mulher e minha filha estão aqui. Como vocês podem oferecer a menina assim? Isso é escroto!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não é casado! – disse Silvana no fim do corredor. – nos divorciamos a mais de sete meses.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;As mulheres não entenderam muito bem a situação. Não sabiam se deviam ter esperança. Interessante como é fácil as pessoas ditas civilizadas tentarem vender uma menina como escrava sexual por comida. As pessoas são tão desprezíveis como sempre foram.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Silvana entrou e fechou a porta. As mulheres falaram alguma coisa, mas Rodrigo não prestou atenção. Seguiu pelo corredor até o quarto de Silvana. Bateu na porta.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Abre aí. Só pra gente conversar. Eu não vou fazer nada. Prometo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Vai embora, seu merda!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Por favor. Deixa só eu te olhar de perto.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- E dizer que você se sacrificou por mim? Até com uma tragédia dessas você quer fazer barganha?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Eu não me sacrifiquei. Do que você está falando?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- O cara que me tirou de casa que falou. Disse que você atraiu os monstros pra ele poder sair e me buscar. Achei que você tava morto. Eu dei graças à Deus.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Deixa eu entrar. Por favor. Cadê a Joana?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Silvana abriu a porta. Estava com o olho direito roxo e inchado. Ainda assim era delicada, linda. Nunca ele conseguiu entender o que ele tinha para atraí-la. Ela tão delicada, ele tão bruto. Se não fosse por Joana, com certeza ela nunca teria casado com ele.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Que foi isso?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não é nada. Eu caí.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Fala a verdade, porra! – gritou ele.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Silvana tentou fechar a porta, mas ele entrou. Segurou nos braços dela e repetiu a mesma fala. Estava visivelmente furioso.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Que foi? Só você que pode me bater agora? Acha que eles não me comeram até agora porque te respeitam? Quando você vira as costas eles cospem em você.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele ficou sem ter o que dizer. Largou o fuzil e a abraçou. Ela não correspondeu. Tentou se soltar, mas ele apertou. Não o suficiente para machucar, mas o bastante para ela não conseguir se soltar sozinha. Muito frágil.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Me solta, Rodrigo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ta.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele a soltou e limpou os olhos. Ficaram cheios de água, mas não chegou a chorar. Ele nunca chorava perto dela. Olhou ao redor. Havia uma cama enorme. Uma poltrona e uma porta. Levava a um banheiro enorme.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Cadê a Joana?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ta na aula.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Aula? Caralho, tem escola aqui é?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Aula de tiro.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Quê? Porra, ela só tem cinco anos. Nem agüenta uma pistola.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Com militar não tem discussão. Disseram que ela já tem que crescer aprendendo a atirar. Que é a única coisa útil de verdade pra ela aprender nesse mundo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- De certa forma é verdade. Mas ela é pequena demais.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ela cresceu desde a ultima vez que você a viu. Você a abandonou com cinco anos, mas agora ela já tem seis.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não fala merda. Eu não abandonei.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Você ficou um ano sem nem ligar pra ela. Se isso não é abandonar, então o que é?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Vergonha. Eu tinha medo de falar com ela e ela ter medo de mim.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Você tem vergonha? Você se importa? Você é uma farsa, Rodrigo. Só quem vive perto de você que sabe como você é por dentro. Podre.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Rodrigo olhou para o chão. Sentou na poltrona e colocou a mão na cabeça. Pela primeira vez, uma lágrima saiu do seu olho na frente dela. Não conseguiu segurar, mas limpou antes de ela poder olhar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Sabe o que me manteve vivo esse tempo todo?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Seu fuzil. Só ele te trás segurança. Lembra que foi isso que você me disse?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele tirou uma foto do bolso. Intacta.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Lembra naquele dia em que fomos na praia. A Joana tinha um ano e meio. Conseguimos tirar uma foto do brilho que ela tinha nos olhos. Isso me manteve vivo. Eu lutei esse tempo todo porque eu queria ver minha menina de novo. Eu sei que não tenho mais nenhuma chance contigo. Depois de toda a merda que eu fiz, nem mereço. Mas deixa eu ficar perto. Deixa eu conviver com a minha menina.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ficaram em silêncio por alguns instantes.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Você não precisava sumir, sabia?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Porquê?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ela não lembra do que você fez. Quero dizer, ela só lembra da nossa última briga. Mesmo assim, ela não entende o que aconteceu. Ela sempre me pedia pra te chamar pra casa. Ela não tem culpa do pai que tem.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele não agüentou segurar o choro. Caiu da poltrona de joelhos no chão e começou a chorar amargamente. Abaixou a cabeça no chão. Silvana não reagiu. Pensou que fosse mais uma das mentiras dele. Como ela poderia confiar nele, afinal?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ela foi pro banheiro e começou a escovar os dentes. Quando terminou ele já tinha parado de chorar. Só estava sentado no chão apoiado com o braço direito na poltrona.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Todas as noites em que ele lutava contra o telefone e não conseguia ligar. Até aquela vez que ela atendeu e ele não conseguiu falar. Tudo em vão. Ele viveu aquele tempo todo longe da filha, do tesouro dele, sem necessidade. Ele sentiu algo como ressentimento contra si mesmo, mas no fundo estava alegre. Sua menina não o odiava. Não o temia.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele se levantou e saiu do quarto. Silvana o seguiu até a porta.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Pergunta onde é a aula das crianças pro soldado da porta. Ele vai te mostrar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;As mulheres estavam murmurando no corredor. Perceberam pelo olhar dele que ele não tinha chance. Não falaram mais com ele, mas ele ouviu do corredor alguns comentários avulsos. Deduziu que tentariam arrumar um jeito de empurrar a menina para ele. Como elas ousavam? Aquela menina era a Joaninha de alguém. Ela tem um pai. Ou tinha. No entanto, era bem gostosa pra idade. No fundo ele queria comer a menina sim. Mas algo o segurava. Alguma coisa que ele nunca havia considerado com atenção. Era errado.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No primeiro andar ele se deparou com o soldado arrastando o corpo sozinho. Nem sangrava mais. Pegou os braços do cadáver e o ajudou. Carregaram até a área externa e jogaram em cima de uma pilha de corpos que ficava de frente pro muro. Estava fedendo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Esses corpos ficam aí mesmo?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Até amanhã. Os caminhões saem cheios de corpos e voltam cheio de mantimentos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não infecta a comida?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não. Eles limpam direitinho. Além disso eles colocam tudo em saco.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Beleza soldado. E desculpa por te fazer trabalhar no dia de folga.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Sem problema, patrão. Eu não tava fazendo nada mesmo. Valeu pro me ajudar com o corpo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Tá limpo lá o banheiro?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ainda não. Mas ta quase. Esse corpo lá só atrapalhava a limpeza. Vou terminar agora.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Isso aí, soldado. Quando o corpo não agüente, a moral sustenta.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O soldado sorriu inspirado. Parece que ele realmente respeitava Rodrigo. Mesmo nos momentos de crise ele sempre conseguia manter a imagem.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- O senhor viu que o cara deixou um bilhete?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Vi não. Cadê?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele pegou o bilhete e leu. Relativamente curto. Tinha a objetividade de um militar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;“Escolhi a forma menos dolorosa para morrer. Ninguém vai chorar no meu túmulo. Seremos destruídos muito em breve, e eu já cansei dessa luta por sobreviver. Viver pra quê? Quem não se matar também, vai sofrer muito mais.”&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Rodrigo devolveu o bilhete pro soldado e não falou nada. Lembrou que ele também queria se matar. Se não fosse pelo Matheus, ele teria feito o mesmo que o soldado. Decidiu ir até a aula da filha. O soldado apontou a direção e ele seguiu. Chutava pedras, olhava para os muros. Fazia de tudo para não dar abertura aos maus pensamentos. Mente vazia é oficina do diabo, dizia ele. Se você fica parado, começa a pensar merda. Por isso que ele sempre detestou as folgas. Quem não tem trabalho e ocupação começa a inventar merda. Por isso que tem tanto moleque vândalo por aí. É o que ele pensava.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Entrou na sala. Era originalmente usada para gravar músicas, mas estava sendo aproveitada para os tiros, pois não se podia ouvir os sons lá de dentro.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Joana não estava atirando. Só assistia os maiores atirando. Apesar de a pistola carregada pesar em torno de um quilo, o impacto do disparo era grande demais para alguém do tamanho dela.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Rodrigo ficou perplexo com o tamanho da menina. Como cresceu, nesses meses. Ficou com medo de ela não o reconhecer, então esperou do outro lado do vidro. Ela estava de costas, então não o viu. O professor, embora fosse firme, era bem amistoso. Ensinava as crianças como sobreviver perto dos monstros.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- É importante vocês lembrarem. Não tentem lutar ou fugir. O melhor a se fazer é se esconder e esperar os monstros se afastarem. Nunca saiam sozinhos do limite da mansão. Entendido? Qual é o nosso lema?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Criança boa é criança esperta! – gritou a turma.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Acabou por hoje.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;As crianças se levantaram e saíram correndo. Joana ficou na sala. O professor deu uma barra de chocolate com ela e se sentou ao lado dela. Começaram a conversar. Ele não ouviu muito bem o que falavam, mas a menina parecia animada. O homem viu Rodrigo e pediu para a menina esperar. Ela nem se importou em olhar pro outro lado do vidro. Só pegou um papel e começou a desenhar, enquanto comia o chocolate.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Sou o soldado Apolinário. O senhor precisa de alguma coisa, senhor?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Só estava olhando. Cheguei apenas recentemente.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Sim, eu soube. O senhor é o capitão Rodrigo, certo?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Sim. Porque a menina não saiu com as outras crianças?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ah, ela se apegou a mim. Não sei os detalhes, mas parece que o pai dela faleceu nessa tragédia. Eu gosto disso, porque eu também tinha uma filhinha que perdi. Acho que acabamos ficando próximos porque precisávamos um do outro. Muito bem comportada, ela.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- E a mãe dela?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- É a mulher mais magnífica que eu já conheci. Ela tem pulso firme, mas é tão delicada. É linda e tem personalidade forte. Joana me apresentou a ela, mas ela não foi muito com a minha cara. Acho que pensou que eu estava usando a menina para me aproximar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- E não estava?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não, senhor. Mas depois de conhecer a mãe dela, senti vontade de me aproximar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Então quer dizer que você já está formando uma nova família?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Queria formar, mas acho que a mãe dela não quer nada comigo. Só passamos algum tempo juntos por causa da menina. Normalmente eu diria que é por causa da minha patente, mas ela parece não ligar muito pra isso. Soube que ela bateu no Coronel.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- E ele não fez nada?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Quê? Coronel não fazer nada? Deu um murro nela. Fiquei puto, mas vou fazer o que? Se eu peitar o coronel eu to é fodido, e mesmo assim eu ia me arriscar. Ela que não deixou.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A menina saiu do outro lado da sala e puxou o braço do soldado. Ela nem olhou pra Rodrigo. Mostrou-lhe um desenho que ela fez.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Muito bem feito pra uma criança da idade dela. Ela desenhou uma família e o Soldado era o pai. Rodrigo ficou indignado e saiu de lá. O soldado nem o viu saindo. Ele gostou do desenho.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Foi direto pra o quarto de Silvana. Uma senhora que dividia o quarto com elas o avisou que ela estava no refeitório. Estava cozinhando. Enquanto ele andava pra lá, pensava no que falar com ela. Apesar de ele começar a formular frases na cabeça, ele sempre parava no meio. Ele simplesmente não sabia o que dizer.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Chegou lá e ela estava servindo a comida. Joana entrou com Apolinário. Estava de mãos dadas com ele. Rodrigo se sentou num canto escondido e ficou observando. Os olhos de Silvana brilhavam enquanto olhava para o soldado, mas ela ainda permanecia desconfiada.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas o brilho era o mesmo que ela tinha no começo do namoro deles. Ela estava apaixonada.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Rodrigo ficou furioso, mas não tinha nenhuma maneira de culpar ninguém. Pela primeira vez, ele sentiu ódio de si mesmo e não fez nada para fugir desse pensamento. Saiu do refeitório improvisado e foi pro pátio. Queria um pouco de ar puro.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Silvana continuou sem ele e estava já formando outra família. Até a filha dele já tinha trocado de pai. Ele sentiu ódio, mas não sabia bem a quem odiar. Percebeu que sentia ódio por si mesmo, mas isso não lhe era natural. Então ele começou a pensar em quem era o culpado por tudo aquilo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não foi muito longe, porque a senhora com a menina que ela oferecia o abordaram.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- O senhor está bem, capitão?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele tentou ignorá-las, mas a roupa da menina o chamou a atenção. Ela parecia menos tímida e o olhava nos olhos. Eram brilhantes olhos verdes. Não expressavam qualquer alegria. Pelo contrário, eram um tanto vazios. Ela tentava passar um brilho que talvez tenha tido um dia, mas que já não tinha. Seus cabelos eram lisos e loiros. Pareciam bem penteados, embora não muito bem tratados por causa da ocasião.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- O mundo acabando e você me faz uma pergunta dessas? – ele disse tentando ser o mais agressivo possível.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- É que mais cedo lá dentro o senhor não parecia assim tão abatido. Não quer tomar um café e conversar?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por mais estranho que aquilo parecesse, a menina o atraía. Ele não soube dizer se foi pro quarto da velha por causa dela ou só porque queria conversar. Talvez as duas coisas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Elas o levaram, cada uma segurando em um dos seus braços, para o quarto do qual saíram na primeira vez que eles se encontraram. Estava muito bem arrumado e limpo. A mulher que provavelmente era a mãe da menina estava preparando o café. Ele adorava aquele cheiro. O sentaram numa cadeira acolchoada que ficava de frente pra uma mesa pequena.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Então você já descobriu? – perguntou a senhora idosa.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Descobri o que?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Que a sua ex-mulher já tem outro.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ela não tem nada com ele.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Mas andam juntos de cima pra baixo. São como uma família aqui já. Acho que eles só não tiveram nada porque o Coronel decretou que ninguém poderia fazer nada com ela até o mês que vem.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ela pensava que eu estava morto. Isso vai mudar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Olha, filho. Sei que tudo isso é muito difícil. Mas você não controla tudo. Às vezes é melhor seguir adiante na vida, sabe? Bola prá frente!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Esse café está muito bom. – disse ele mudando de assunto.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Eu fiz pra você, disse a mulher.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Agradeço a generosidade, mas eu realmente preciso de um tempo sozinho pra colocar a minha cabeça no lugar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Tudo bem. Enquanto estiver pensando, lembre do que te falei.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele se levantou e olhou para a menina. Como que aquela mini-saia foi parar ali? Talvez elas a tenham encontrado na mansão. A pele dela era lisa. Parecia muito macia. Ele se despediu e saiu. Meio atormentado, desceu as escadas e se encontrou com o coronel. Queria espancá-lo, mas não fez nada,&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Vem comigo, Rodrigo. – disse Frederico&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Pra onde?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Pra minha sala. Fiz um uniforme pra você. Na verdade é de outro capitão, mas eu troquei os nomes. Só tinha menos medalhas que você, mas eu sei bem do seu mérito.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Foram até o subsolo da mansão e entraram num local que parecia a zona segura daquela casa na ilha. Só era um pouco maior. Lá dentro havia uma mesa com quatro cadeiras, um sofá, uma TV de plasma e alguns eletrodomésticos. Ele tirou o uniforme do armário e deu pro Rodrigo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Saiu da lavanderia agora. Tem outro lá pra reserva que nós catamos de um cadáver. Inteirinho, até.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Rodrigo se sentou na cadeira e abaixou a cabeça. Queria dormir, ou morrer. Não sabia direito.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ta cansado, cara?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Um pouco. Mas não quero ficar parado. Aliás, eu quero sim.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Quer ou não quer?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Eu não sei.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Capitão Rodrigo sem saber o que fazer? O mundo tá girando ao contrário?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Porra, pelo que eu saiba o mundo acabou.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Tu ta assim por causa da Silvana, não é?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Rodrigo não respondeu. E Frederico continuou.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Porra, vai se deixar abater por causa de mulher? Maluco, a gente aqui tá na lei da selva. Tu é capitão. Bota moral nessa porra.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não quero assustar a minha filha.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ah sim. Aí é complicado. Mas ta cheio de mulher aí, cara. Tu arruma outra.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Preciso de ar fresco.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Uma garota entrou na sala. Parecia nova, mas era mais velha do que a outra que estavam oferecendo pra Rodrigo. Parece que ela estava esperando ele sair. Rodrigo acenou com o sinal comum entre os militares e saiu. Subiu as escadas e saiu da mansão. Na parte de trás da mansão havia um jardim. Estava bem cuidado. Provavelmente alguém estava regando as flores. Lá dentro havia uma espécie de varanda, onde estava pendurada uma rede. Depois de verificar que estava tudo limpo, ele se deitou. Abraçou o fuzil e pegou no sono. Depois que pegou no sono, derrubou o fuzil e se encolheu quase num formato fetal.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele estava na mansão. O quarto dele, que nem havia sido definido, era na verdade o da menina, e o dela ficava na frente, onde havia janelas na mansão original. O ambiente era parecido e ele se sentiu na mansão, mas estava alterado. Ele foi pro colégio com a menina, e conversou com ela. Era uma menina graciosa e excitante ao mesmo tempo. Ele escreveu uma carta pra ela. Nessa carta ele declarava amor por ela, mas no íntimo ele não via em si tal amor. Só a desejava o bastante para estar disposto a mentir. No fundo, ele não sabia se estava mentindo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Assim que ela recebeu a carta, veio ao quarto. Estava de biquíni, e ele ficou com a atenção presa nas pernas dela. Tão torneadas. O rosto da menina parecia mais jovial. O corpo, pelo contrário, era bem parecido com o original. Era como ver a menina antes da tragédia.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Era isso que você tinha a me dizer? Por que não me disse antes? – ela estava sorrindo, mas ao mesmo tempo confusa.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Naquele momento, ele desejava a menina, mas tinha medo de perder Silvana, que aparecia em sua mente. Ele não conseguia se decidir, mas no sonho ele decidiu aceitar a menina. Sabia que não tinha chances com Silvana. Que ela, naquele momento, não passava de um fantasma. Mesmo assim, ele sabia que só podia jurar amor a ela. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Acordou antes de responder à pergunta da menina. Já estava escuro. Dali ele conseguia ver a lua. Pensamentos sombrios, os mesmos pensamentos de sempre, começaram a assolar a mente dele. A fera estava gritando dentro dele. Era a hora do abate. Foi até a mansão e até a casa da menina, e ela estava sozinha. Quando o viu na porta, ficou toda vermelha. Convidou-lhe a entrar, e ele não perdeu sequer um segundo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Agarrou-a para junto de si. Ela não esboçou reação. O primeiro beijo foi como beijar um defunto. Ela nem mexeu a boca. No segundo ela deixou fluir. Ela nem sabia bem o que estava fazendo, mas estava fazendo. Deitou a menina na cama. Ela parecia nervosa. Ele sentiu o coração dela acelerado. Não fez questão de acalmá-la. Ele gostava daquela tensão. Puxou a saia que ela estava usando. Não era mais a pequena, mas era bem frouxa. Ela estava usando uma ceroula bem estranha. Provavelmente por falta de opção. Não tinha muito pelo na virilha e nem os pubianos. Pareciam ter sido meticulosamente aparados recentemente. Foram preparados para ele, talvez?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tirou a ceroula dela. Não se importou com a blusa. Ela nem tinha peitos tão grandes. Mas ele queria é a dor dela.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Espera. Vai devagar. É a minha primeira vez. – disse ela bem baixo. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ela tinha uma voz bem grossa. Ele imaginou que a voz seria mais fina.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O sorriso maldoso ficou imprimido no rosto dele. Ele encontraria sangue. É o que ele estava procurando. Queria ver aquele rostinho loiro esboçando dor. Tudo aquilo o excitou muito rápido, e ele nem tirou a roupa toda. Só abaixou a calça e segurou as pernas dela por debaixo do joelho. Não esperou muito. Entrou com violência. Ela gritou. Tentou empurrar ele, mas não conseguiu. Era muito pesado. Ela tapou a boca e continuou gritando. As duas mulheres entraram correndo. Estavam esperando do lado de fora.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Larga ela, seu animal! – disse a velha.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A mulher mais nova bateu na cabeça dele com uma bolsa cheia de laranjas e ele caiu no chão. Levantou cheio de fúria e deu um soco na cara dela. Ela desmaiou. Olhou pra menina, se escondendo debaixo do corredor. A cama estava cheia de sangue.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Eu quero mais.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Vai embora! – gritou a velha ao se jogar sobre a menina. – Me perdoa, minha filha. Me perdoa.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele passou a língua no sangue da cama. Sua expressão era terrível. A menina estava totalmente aterrorizada.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Saiu correndo do quarto pelo corredor e entrou no quarto se Silvana. Ela estava na porta ouvindo o barulho do corredor e quando ele arrombou a porta ela caiu no chão. Bateu a porta e pegou ela do chão. Ela reconheceu o olhar dele. Era o monstro que ele se tornava de vez em quando. Ela deu um murro na cara dele, e feriu a bochecha dele por dentro. Sua boca estava sangrando, e seu sorriso maligno se tornou demoníaco. Empurrou-a contra a cama, mas ela se segurou na parede. Tentou dar um chute no saco dele, mas ele impediu o ataque. Tirou ela do chão e a jogou na cama. Ela não parava de reagir por nada. Jogou uma estatua de vidro que ficava na mesa de cabeceira nele, mas errou. Ele puxou a perna dela, ao que ela chutou seu ouvido. Ele ficou tonto e ela conseguiu sair da cama, mas logo ele a capturou. Pegou ela por trás e a carregou até a cama. Ela se debatia e gritava, mas ninguém fazia nada. Puxou o short dela, e ela conseguiu se virar na direção dele. deu três murros na cara dele. Ele gostava, por isso deixou. Deu apenas um na cara dela, e ela ficou atordoada. Tirou a camisa dela. Estava sem sutiã.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Seu animal! Sabia que você nunca iria mudar! – gritou ela.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Segurou os dois braços dela só com uma mão e enfiou um dedo dentro dela.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ta molhada, né sua puta. Você gosta, não é, sua cachorra?!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Apolinário entrou correndo e puxou ele de cima de Silvana. Começaram a brigar, mas Rodrigo rapidamente o derrubou. Apolinário não desistia. Ele se levantava e lutava, mas Rodrigo era tanto mais rápido quanto mais forte. O derrubou pela segunda vez perto da porta, e ele se arrastou pra porta.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Vai pra sala do chocolate, Joaninha.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Você se machucou, tio Apolinho?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- É. Eu caí.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Rodrigo saiu do quarto e Apolinário segurou suas pernas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Corre e se esconde. Ele é um deles! – disse Apolinário.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;As mulheres que assistiam a cena sabiam que não era verdade, mas a menina fez exatamente o que a ensinaram. Ele foi atrás dela e a encontrou. Ela se escondeu atrás de um vaso de plantas. Quando ela o viu, se apavorou.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Papai virou monstro! Papai virou monstro! &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ela correu até o quarto da mãe e Apolinário conseguiu se levantar. Seu rosto estava sangrando e seu braço direito estava sobre a costela, enquanto o esquerdo se apoiava na porta. Todos estavam olhando pra ele com horror, e ele de repente se sentiu culpado. Um sentimento de culpa que tirou do corpo dele toda aquela força. Andou cambaleando e desceu as escadas. Pegou a pistola e foi até o jardim.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele sobreviveu todo esse tempo porque queria vir até a filha dele e a proteger de todos aqueles monstros lá de fora. Mas os monstros não estavam ali. Ele era o único monstro ali. Ele sempre foi o pior monstro da vida daquela criança. Será que se não fosse por seus pais ele seria como é?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sem ele, a menina poderia ter uma chance de ser boa. Com ele, ela certamente se tornaria um monstro. Para proteger sua Joaninha, para ser ao menos um pouco generoso, ele tinha que se matar. Ele tinha que por um fim em toda a violência.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Meteu a arma na boca e o coronel Frederico o seguiu. Ele tentou falar alguma coisa, mas na mesma hora um jumper pulou sobre ele e o esfolou com cotoveladas na cara. Rodrigo matou a fera com dois tiros certeiros e correu em direção à mansão. Escondeu-se atrás de um arbusto e viu os jumpers entrando. Eram pelo menos quinze. Eles só lançavam os soldados para fora dos muros. Parou pra ouvir com atenção e percebeu que lá fora havia uma multidão de infectados. Aliás, pelos sons aqueles monstros não estavam infectando ninguém. Aquilo era Blitzkrieg: eles estavam entrando e só destruindo tudo rápido.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A despeito da dita segurança, todos eles foram primeiro pro subsolo. Rodrigo aproveitou a oportunidade e subiu as escadas novamente.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No terceiro andar, as velhas estavam curiosas com o barulho lá fora. Ele correu direto pro quarto de Silvana e fechou a porta, mas ela estava arrombada.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Silvana, coloca a estante na frente da porta.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ela saiu com uma vassoura nas mãos e tentou atacá-lo, mas ele se esquivou e tomou a vassoura dela. Ela colocou os braços na frente do rosto, esperando o ataque dele, mas ele só a empurrou pra dentro do quarto. Apolinário saiu e olhou pra ele.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Entra aí. Agora é você quem vai tomar conta delas. Os jumpers tão aqui e vão matar geral.  Fiquem dentro do banheiro e não façam um som. Eles tão aqui só pra destruir, então quando tudo estiver terminado eles vão embora.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Porque eu deveria confiar em você?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Rodrigo apontou a arma pra ele.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não tem que confiar. Se não fizer isso eu te mato. Pega a porra da estante e coloca na frente da porta.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O jumper gritou e os infectados começaram a tentar quebrar o portão. Apolinário chamou Silvana e começaram a empurrar a estante. Os jumpers já estavam no segundo andar. Apolinário jogou um fuzil e munição pra Rodrigo antes de fecharem a porta.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um jumper saiu pela janela e invadiu o quarto da menina. Ele ouviu os gritos, mas foram logo interrompidos. Os sons de carne se partindo e ossos se quebrando era asqueroso, chegaram, e ele começou a atirar. Derrubou um.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Entraram nos quartos, e ele percebeu que tentariam vasculhar todos. Atirou até eles chegarem nele. Não estavam com pressa para matá-lo. Só queriam se certificar de que todos estariam mortos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No final do corredor, ele fingiu que estava tentando entrar no quarto. Lá dentro, não se ouviu nenhum som.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os monstros o derrubaram. Um deles começou a golpear sua costela. Ele podia sentir seus ossos quebrando e o sangue chegando até sua garganta. Os monstros invadiram o quarto da frente, pois uma criança gritou, mas não entraram no quarto de Silvana.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não o mataram e foram embora. Talvez quisessem deixar um infectado ali só para garantir.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele apontou a arma e acertou a cabeça de um deles. Todos voltaram e golpearem seu corpo violentamente. Ele ficou totalmente desfigurado.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os monstros saíram da mansão e levaram os infectados embora.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4664356695252564512-4531063992125718680?l=biohazardalimpeza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://biohazardalimpeza.blogspot.com/feeds/4531063992125718680/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4664356695252564512&amp;postID=4531063992125718680' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4664356695252564512/posts/default/4531063992125718680'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4664356695252564512/posts/default/4531063992125718680'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://biohazardalimpeza.blogspot.com/2009/11/capitulo-18.html' title='Capítulo 18'/><author><name>Silas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08560610846360060486</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/ScXDtIGMN9I/AAAAAAAAABQ/YF39-2VxJ3k/S220/zumbi.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/SxMbazuXEuI/AAAAAAAAAUA/9zfAR8NUvf8/s72-c/amarga_transf.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4664356695252564512.post-2736249536541122172</id><published>2009-11-25T15:09:00.000-08:00</published><updated>2009-12-20T06:57:35.389-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Capítulo 17'/><title type='text'>Capítulo 17</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/Sw2474NRRrI/AAAAAAAAATY/WXPaz4sjExY/s1600/banco_solidao.JPG" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/Sw2474NRRrI/AAAAAAAAATY/WXPaz4sjExY/s400/banco_solidao.JPG" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Enquanto só, o homem se vê desesperado. Sua alma fica paralisada. Desconectada. E quem não teme a solidão? Corre pelo mundo atrás de companhia, mas não encontra. Porque as pessoas não querem amigos, não querem contato com o outro. Querem controlar os outros. Que os outros sejam maquinas prontos a satisfazer cada capricho estúpido. Chegará o dia em que tais pessoas construirão robôs que farão tudo o que querem. E aí, vivendo um reinado pseudo-divino, vão descobrir o que é uma alma solitária. Que no meio da multidão, sua alma está vazia. Se separam e nome de privacidade, se torturam em nome da liberdade. Nessa solidão o homem não é livre. Controlando tudo o homem não se conecta com os outros, porque só ama a si mesmo. E é isso que as pessoas fazem: se acorrentam numa cela solitária. Sem contato, sem liberdade. Tudo errado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouvi o som de um avião se aproximando. Parei de atirar e olhei pro céu. Um avião enorme e voando baixo. Estava vindo pousar naquele aeroporto. Não sabia se um avião daquele tamanho conseguiria pousar ali para decolar novamente. Parecia impossível.&lt;br /&gt;Nós nos afastamos dali e fomos para a torre de comando. Augusto queria tentar se comunicar com o avião. Felipe conseguiu fazer os zumbis voltarem. Eles simplesmente foram embora andando. Por mais absurdo que aquilo possa ter parecido, eu não parei pra refletir. Não podia fazer aquilo. Ele voltou tranqüilo em nossa direção. Parecia imerso em reflexões. Augusto subiu na torre e nós ficamos lutando contra os jumpers. Felipe conseguiu fazer um deles simplesmente volta e ir embora. Devia ter descoberto alguma forma de manipular os monstros, como o cientista na estrada. Não sei.&lt;br /&gt;Os infectados normais desistiram de tentar atravessar as cercas, e só os jumpers nos enfrentavam. Criaturas peculiares. Eles percebiam a direção dos nossos tiros e como que calculavam o percurso deles. Antes de puxarmos o gatilho eles se esquivam, como uma mosca que pula quando percebe a ameaça. O jeito era acertar eles no ar, quando não podiam se esquivar tão bem. Então atirávamos de vários ângulos e eles caiam.&lt;br /&gt;A cabeça tinha que ser literalmente destruída, pois eles continuavam vivos mesmo com buracos de bala na cabeça. Só perdiam grande parte da perícia quando atingidos.&lt;br /&gt;O avião pousou, e isso parece ter assustado os jumpers. Alguns hesitaram e não ultrapassaram a cerca. Abatemos os mais ousados. Uma mulher saiu do avião. Pequena, loira. Parecia o protótipo de garotinha Americana. Ela tinha cara de líder de torcida, como se vê nos filmes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Help us! We need fuel! – gritou ela.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Fuel, there. End. – respondeu Augusto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como ele sabia daquilo? Será que tão rápido ele percebeu? Nunca pensei nisso com atenção.&lt;br /&gt;A mulher correu em direção à frente do avião e apontou para onde ele deveria levar o avião para receber combustível. Um jumper pulou perto dela. Bem do lado. Esperei um grito, um pedido de socorro. Mas ela sacou uma pistola e começou a atirar. Enquanto o monstro de esquivava ela se afastou para perto de nós. A criatura não pulava alto enquanto perto do avião. Ele a assustava. Por isso foi mais fácil matá-la. Esperamos, no entanto, ela se aproximar, pois não queríamos danificar o avião.&lt;br /&gt;O avião facilitou ligeiramente a nossa defesa. Augusto dirigiu um veículo e fez coisas que nem entendi bem. Abriu uma parte dele que eu nem percebi que poderia ser aberta e começou a encher o tanque. Impossível ele saber tanto. Teve que aprender em algum lugar.&lt;br /&gt;Eu não tinha percebido, mas havia uma terceira entrada. Não estava completamente infestada. Perto dela havia uns cinco. Ouvi tiros vindos dali. Um jipe militar quebrou a entrada e dezenas de mortos passaram. Estavam atirando contra os intrusos. Tinha ali um pequeno rio que bloqueada a passagem da maior parte dos infectados. Mas ainda assim era possível perceber uma pequena multidão entrando. Eram centenas. Atiramos de forma feroz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tenta parar ele aí, ô macumbeiro! – disse Rodrigo pra Felipe.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu não posso. São muitos. – respondeu ele um pouco ansioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele também começou a atirar. Os monstros não paravam de chegar e a nossa munição estava acabando. Perdi Isabela de vista por uns instantes. Estava abaixada recarregando as pistolas. Senti pânico. Depois daquilo fiquei mais próximo dela. Tinha medo de me separar dela. Meio estúpido naquela hora, porque estávamos encurralados. Se ela morresse, provavelmente eu morreria junto. Não seria abandonado sozinho e vivo.&lt;br /&gt;A metralhadora do jipe, depois de um certo tempo, passou a dar conta do recado. Nossa munição acabou. Eu só tinha um pente numa pistola. Rodrigo e o sargento se aproximaram do jipe. Rodrigo estava eufórico. Parecia até mesmo feliz. Como se aquele jipe que nos trouxe tantos problemas fosse de fato uma espécie de salvação.&lt;br /&gt;A pista estava cheia de corpos, e fui o primeiro a perceber que o avião não poderia decolar daquela maneira. Teríamos que arrastar os corpos dali.&lt;br /&gt;Usaram cordas amarradas no carro para arrastar alguns corpos de uma vez e também carregamos corpos manualmente. Eles pareciam mais leves, embora fossem mais ou menos do mesmo tamanho que aqueles que carregamos para o frigorifico do mercado. Talvez o meu desespero tenha me dado forças. Não sei.&lt;br /&gt;Eram duas pistas, mas pela curva do avião seria mais fácil ele decolar de uma delas. A saída dele ficava na parte traseira. Como aqueles aviões que deixam caixas de mantimentos caírem de para-quedas. Um homem negro com cara e mal e gigante saiu de lá com uma metralhadora na mão. Ele começou a atirar e de repente percebi que o sargento estava enfrentando um jumper. Ele estava ainda meio lento porque bebeu no dia anterior. O jumper mordeu o braço dele bem antes de receber um tiro certeiro na cabeça.&lt;br /&gt;Rodrigo ficou desesperado. Correu para perto do sargento e finalizaou o jumper, que parecia desorientado depois do tiro. Continuou atirando no corpo do jumper até descarregar a metralhadora e se abaixou até o sargento, que se levantou. Foi uma mordida bem pequena, mas ele estava infectado. Era tarde.&lt;br /&gt;Rodrigo chorou. Eu nunca tinha visto ele chorar antes. Parecia sempre tão cheio de si mesmo, como se fosse um maioral. Não conseguia imaginar aquele sujeito chorando. Principalmente aos prantos como ele estava. Era como se só naquele momento ele tivesse se dado conta da tragédia da nossa existência.&lt;br /&gt;O avião ficou pronto. Matamos mais alguns infectados. Mas aquela situação prendeu minha atenção. Parece que todo o sofrimento dele era transferido para mim. Lembranças, apreensões. Também senti vontade de chorar. E eu fiquei tão acostumado a chamar o sargento de sargento que eu nem sei o nome dele. Sei o sobrenome, só.&lt;br /&gt;A pista estava limpa e o avião pronto para decolar. Recuamos, mas Rodrigo ficou. Voltei até ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vem cara. Vamos sair daqui. Bora! – disse eu.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu não vou subir nesse avião, moleque. Vai você.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eles vão entrar aqui, cara. Você precisa entrar no avião. Vai morrer!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vai tomar no cu. Não vou deixar meu amigo pra trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei em silêncio por uns instantes. Me perguntei se eu faria o mesmo por um amigo. Provavelmente não. Ele estava para morrer, não havia como curá-lo. Não naquela época. Há momentos como esse que não saem da minha memória. Momentos em que eu devia ter um conhecimento e não tinha. Em que eu precisaria ter experiência e não tinha. Eu queria saber, naquela época, como salvá-lo. Mas eu era ignorante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não tem jeito, Rodrigo. Ele foi mordido.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você não entende. Não é tudo tão simples no mundo real. Só no mundinho de Bobby que você vive.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não é simples nesse mundinho também.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vai embora, moleque. Eu me viro aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isabela estava me gritando do avião. Os monstros começaram a entrar. O homem no jipe atirava neles. Imaginei que eles poderiam fugir no jipe, mas aquilo tudo não fazia nenhum sentido para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Roberto. – me chamou ele.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tá me chamando pelo nome agora?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Fica esperto, cara. Tem que ficar esperto. Vai embora logo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei meia volta e comecei a correr. Desviei de um jumper que tentou me acertar. Felipe o paralisou com o olhar. Eu tinha que fazer perguntas a ele. Entender como ele fazia aquilo pra talvez podermos usar como auxílio na sobrevivência. Mas meu conflito interno não deixava. Eu detestava o fato de que não podia entender o que acabara de acontecer. Uma pessoa se sacrificando só pra passar alguns minutos com outra. Não havia esperança, mas ele não abandonou o amigo. Não fazia sentido algum. Talvez ele estivesse certo. São coisas que só os humanos podem entender. &lt;br /&gt;Era uma decolagem perigosa. A pista era bem curta para o tamanho do avião que pousou nela. O piloto e a loirinha conversavam algo que não entendi direito. Estavam cochichando em inglês.&lt;br /&gt;A entrada do avião fechou. Sargento estava morto, Rodrigo provavelmente também. É estranho quando você se acostuma com a presença de uma pessoa e ela se vai. Deixa um buraco que parece nunca ser preenchido. Não que eu vá sentir falta das conversas que nunca tive com o sargento ou das provocações do Rodrigo. Mas é horrível. Eram seres humanos.&lt;br /&gt;Com o passar do tempo eu fui perdendo a capacidade de sentir ódio. Seria uma boa forma de ter forças para continuar lutando pela vida. Eu fui ficando cada vez mais desesperado. Não sei qual era a pior idéia. Eu morrer ou todos os outros morrerem. Pensei que eu ficaria louco se estivesse sozinho enquanto devaneava na minha casa, mas naquele momento parecia que sozinho ou acompanhado eu estava prestes a entrar em colapso. O avião acelerou rápido. Estávamos presos nos bancos pelos cintos de segurança. Uma sensação estranha.&lt;br /&gt;Quando ele saiu do chão, tudo ficou mais pesado. Até minha mente. O clima ali era horrível. Acabáramos de sair dum paraíso. Uma ilha bela, um iate que nem arrisco dizer o preço. Agora enfrentamos novamente o mundo real. Um mundo terrível, de mortes. Quantas pessoas morreram? Quase todas, talvez? Sem comunicação, não há como sabermos. O mundo outrora interconectado se separou novamente.&lt;br /&gt;Isabela chorou, mas eu não. Eu quis chorar, mas não chorei. As lágrimas ficaram dentro de mim. Queria deixar aquele tormento sair, mas não consegui. &lt;br /&gt;A algum tempo eu havia percebido algo incrível: que eu era eu. Algo estranho, você tomar consciência de que é alguma coisa única. Iniciei uma viagem longa dentro da minha própria mente e me surpreendi com as coisas que descobri. Mas eu fique tanto tempo nesse meu mundo que acabei me separando do mundo lá de fora. Agora em nem percebo quando estou sob influencia de fora. Passei tanto tempo procurando saber quem eu era que perdi o senso de contato. Talvez seja por isso que eu era incapaz de entender o Rodrigo. Porque ele vivia algo que para mim era completamente absurdo. Difícil dizer.&lt;br /&gt;Mas naquele momento eu fui expulso do meu jardim do éden. Eu saí do meu mundo imaginário e harmonioso, onde eu me refugiava. Naquele momento eu vivi o terror da realidade. E os portões do mundo de dentro estavam trancados. Eu tinha que entender o mundo lá de fora. Não suportei a tensão por muito tempo. Acabei fugindo de novo.&lt;br /&gt;Acabei pegando no sono. Eu não fazia idéia de para onde deveríamos ir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava entrando num prédio enorme. Nunca vi na minha vida um daquele tamanho. Sabia que se apresentaria alguém considerado importante ali. Imaginei que era o presidente americano. Eu estava nos Estados Unidos.&lt;br /&gt;Todos estavam bem vestidos, menos eu. Mas ninguém se importou. Na entrada, eu vi um pequeno hall e uma escada enorme. Subi até o topo. Foi bem mais rápido do que eu imaginei. Na verdade, pelo tamanho da escada, não havia como ela caber dentro daquele prédio.&lt;br /&gt;Lá no topo encontrei o presidente. Uma imagem meio distorcida. Não percebi uma pessoa. Ele representava o presidente, mas não era uma pessoa.&lt;br /&gt;Falei com duas crianças. Queria trocar meus dólares por reais. Ofereci 50 dólares em troca de 50 reais. Tentei explicar o motivo pelo qual elas estariam lucrando, mas não entenderam.&lt;br /&gt;Lá em baixo a carnificina começou o prédio foi fechado e os infectados começaram a matar as pessoas.&lt;br /&gt;Mas eram infectados diferentes. Eles tinha olhos claros. Completamente azuis com um ponto negro no meio. Tinham expressão cruel, e não desesperada.&lt;br /&gt;Minha mãe estava num quarto e eu noutro. Ela me deu um pacote de biscoito e me mandou ir para o outro quarto. Chamei-a pro meu, mas ela não entendeu o que eu estava falando. quando os infectados chegaram já era tarde. Nos trancamos, cada um num quarto lá no topo do prédio.&lt;br /&gt;Pensei em usar o telefone que eu tinha. Era via satélite. Mas fiquei com medo. Senti que se eu fizesse isso os infectados conseguiriam entrar no quarto, porque ouviriam o barulho e saberiam onde eu estava. Olhei pela janela e a rua estava normal. Pessoas andavam, carros passavam.&lt;br /&gt;Um grupo de extermínio da polícia estava tirando infectados do prédio ao lado. Eles não entendiam nada da infecção,e&amp;nbsp; pensavam que aqueles zumbis eram apenas marginais normais. Espaçavam os mortos para eles pararem de gritar, mas ele não paravam. Como parariam se é isso o que fazem?&lt;br /&gt;Fui levado para outra cena, onde eu era outro homem. Sabia que se tratava de mim, mas a aparência era de outra pessoa. Era adulto, mais ou menos da minha altura. Mais forte, branco. Parecido com um ator brasileiro, aliás.&lt;br /&gt;Nesse ponto eu via tudo como se estivesse fora. Eu estava deitado na cama com os olhos sangrando. Havia ali uma mulher e um homem nas preliminares. Depois de alguns beijos ela percebeu que eu estava ali agonizando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você infectou ele? – perguntou ela?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Infectei. É o que eu faço. – respondeu o outro homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estranhamente, o infectado era muito parecido com o outro que agonizava. Ele mordeu a mulher, e ela sabia que estava condenada. Ela pulou para fora da janela e apoiou-se do lado de fora. Olhou para trás por um instante e saltou. Quando ela caiu morta eu despertei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Agora você tem duas escolhas. Ou se torna um infectado ou pula pela janela. – disse o infectado com seu olhar cruel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu decidi pular e me matar. Achei que era o melhor a fazer, pois eu poderia fazer o mal contra o mundo se eu me tornasse um infectado. Me segurei do lado do prédio como a mulher.&lt;br /&gt;Quando eu olhei pra baixo, consegui como que aproximar-me mais do chão com minha visão. Como se eu fosse uma águia ou se usasse um binóculo. Quando eu olhava um pouco mais para cima, no entanto, a altura real se mostrava. Bastava eu não olhar diretamente para a coisa que eu a via como verdadeiramente é.&lt;br /&gt;Uma voz de mulher falou aos meus ouvidos. Disse que havia uma forma de me curar. Disse que me guiaria e me mostraria como.&lt;br /&gt;Senti paz, e comecei a descer pelas escadas. Quando cheguei no quarto andar, saltei e caí no chão. Caí diante de uma tela enorme, mas não consigo lembrar o que estava senso exibido nela. Provavelmente alguma propaganda.&lt;br /&gt;Eu fui seguindo minha intuição, andando pelas ruas daquela cidade. Nunca estive por ali.&lt;br /&gt;Cheguei no prédio onde eu estava preso. Tinha que descobrir uma forma de salvar a mim mesmo daquele isolamento.&lt;br /&gt;Entrei num beco ao lado do prédio e havia um homem vendendo nuggets de frango na grelha num estacionamento. Perguntei quanto custavam com um inglês tímido, ele não me respondeu. Pensou que eu não teria como pagar. Aquilo pareceu um terrível insulto, então tirei dez dólares da certeira. Eu nem sabia que tinha uma carteira até aquele momento. Perguntei novamente e ele respondeu: dois dólares o quilo.&lt;br /&gt;Achei estranho ele usar essa medida, porque nos Estados Unidos eles medem o peso de forma diferente. O mais bizarro, na verdade era o preço. Barato demais.&lt;br /&gt;Uma mulher gorda e velha me ofereceu bebidas. Eu queria guaraná, mas não vendiam. Ela me ofereceu citrus, mas eu não conhecia essa bebida. Decidi não beber nada.&lt;br /&gt;Saí do estacionamento e vi um mercado enorme. O Wallmart.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Então o Wallmart já destruiu o comércio local? – perguntei&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher me olhou de forma estranha. Era um olhar um pouco demoníaco, mas não ameaçador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui levado dali até um lugar totalmente escuro. Eu nem via a mim mesmo. Havia uma voz que vinha de todos os lugares. Ela falou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não é frio? Não é solitário e terrível quando você percebe quem é e que está irremediavelmente separado do universo. Eu tentei te ajudar, irmão. Te manter conectado ao universo. Eu estou preso, mas não conectado. Só queria te privar desses sentimentos horríveis. Mas agora é tarde. Agora você passará pela pior prova da sua vida. Pior do que todas as outras. Agora você sentirá na pele as conseqüências da sua separação. Espero que consiga superar eu desafio e que seu espírito se eleve aos céus. Que você siga um caminho que não te levará a lugar algum só por seguir, porque é só o agora que importa. Que o universo conspire em seu favor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E acordei sem alma: todas as forças imaginarias que normalmente me davam força de vontade me abandonaram. Sem Gaia, sem Mefistófeles, sem nada. Talvez fosse aquela a humanidade que eu desejei. Foi terrivelmente assustador constatar que eu já não vivia no meu mundo. Imaginei que talvez fosse essa a minha grande provação. Todos despertamos quando sentimos o avião pousar. Estávamos numa estrada. Perto de uma fazenda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Precisamos de mantimentos. Nessa fazenda poderemos coletar o necessário até pensarmos em para onde iremos. – disse o homem gigante que pilotava. – meu nome é Jack e essa é Kimberly. O campo de refugiados se foi e estamos procurando um local para nosso refúgio. Sei que estão em choque, mas precisamos de toda a ajuda de que pudermos dispor para coletar os recursos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me levantei junto com Augusto. Tentamos acordar Felipe de todas as formas, mas ele parecia desmaiado. Nem jogando água na cara dele conseguimos despertá-lo. Decidi deixar Isabela dormindo no avião. Tinha medo de ela se ferir ou correr perigo lá fora.&lt;br /&gt;Jack nos deu armas. Eram mais pesadas, mas eu já estava habituado a esse tipo de coisa.&lt;br /&gt;Saímos até um celeiro, mas logo percebemos que era uma má idéia. Um homem tentou atirar na gente, e o barulho foi alto demais. Os infectados começaram a correr. Eu nem imaginava que eles estivessem tão perto. Não estavam berrando. Só correndo.&lt;br /&gt;Meu corpo estava muito fraco. Nem sei bem por que. Eu estava fazendo exercícios com freqüência e estava bem alimentado. Talvez eu não deva buscar um motivo, por que eu perdi as forças, mas sim um para que.&lt;br /&gt;Alguém ligou o avião, e eu tropecei na estrada. Já estava ficando para trás, porque não conseguia correr direito. Minhas pernas estavam muito pesadas. Minha cabeça também. Levantei, mas caí logo em seguida. Dessa vez caí com a testa no asfalto. O mundo estava girando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vem, Roberto!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Corre cara!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos estavam gritando e eu senti um calafrio. Naquele momento eu pensei que minha vida iria acabar. E por mais que eu tivesse pensamentos suicidas, eu tive medo. Tive pavor. Não era como a ansiedade que senti antes de sair do mercado. Era como se tudo o que realmente tinha importância estivesse prestes a se perder. Isso era Isabela, por mais que eu fosse o que estava prestes a morrer.&lt;br /&gt;Eu vi um jumper chegando perto do avião. Ele ia entrar e lá dentro provavelmente mataria todos. Gritei pra ele, e ele correu na minha direção. Os infectados estavam chegando e ao avião tinha que decolar. Andei até o celeiro lentamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Decola! Vai, porra! - gritei&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estavam longe demais para me ouvir, então fiz sinais com as mãos. Isabela estava gritando. Chorava muito. Augusto segurou ela, porque tentou sair do avião. Aceleraram e decolaram. Vi a roda do avião acertar a cabeça de um infectado.&lt;br /&gt;Minha cabeça estava a mil. Talvez fosse essa a provação com a qual sonhei. Eu tomei uma atitude humana naquele momento. Pra uma pessoa que viveu como um psicopata que nunca se conectou com ninguém, aquilo foi uma bela conquista. Todos se salvaram por mim, e eu seria sacrificado. Provavelmente Isabela conseguiria se virar sem mim. Afinal, que era eu senão uma grande farsa? Ela pensava que eu era um herói, um anjo. Mas eu não era nem demônio. Não era absolutamente nada. Só um quadro em branco para alguém fazer os desenhos que gosta.&lt;br /&gt;A porta do celeiro era dupla, mas só uma podia ser aberta. Me apoiei na parte bloqueada e abri a parte livre. O homem atirou lá de dentro, e então entrei. O sargento me ensinou sobre armas. Ele ficava falando comigo sem eu perguntar nada, mas eu gostava de ouvir. Só nunca falei nada digno de volta. Por isso eu sabia que aquilo era uma espingarda de caça. Que o homem teria de colocar balas na arma para poder atirar de novo.&lt;br /&gt;Depois do tiro eu aproveitei o tempo em que ele recarregava e entrei. Ele jogou uma faca na minha direção, mas errou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sir, calm down.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem tirou o chapéu de palha que tinha na cabeça. Um velho. Sua esposa levantou a cabeça. Estava do lado dele.&lt;br /&gt;O barulho dos infectados ficou próximo demais, então subi numa escada para o segundo andar. Derrubei a escada.&lt;br /&gt;O velho chegou perto da escada para levantá-la, mas assim que tocou nela os monstros invadiram. Foi tudo rápido, eles mataram os dois. Nem tiveram tempo para gritar. Ou talvez os gritos tenha sido suprimidos pelos berros dos infectados, que lotaram o lugar.&lt;br /&gt;Pensei que talvez se eu não tivesse derrubado a escada ele teria conseguido subir. Mas ele não estava atrás de mim. Na verdade estava atônito e antes de eu chegar lá em cima ele nem se aproximou da escada. Provavelmente não conseguiria subir a tempo.&lt;br /&gt;Mesmo assim, até hoje eu continuo com um profundo sentimento de culpa em relação a isso.&lt;br /&gt;Eu ainda estava com a água e com as barras de cereais, mas não abri as barras pra não fazer barulho. Perdi minha arma quando caí na estrada, mas mesmo assim eu nunca conseguiria enfrentar os infectados. Eu só estava prolongando meu sofrimento escondido naquele monte de feno, mas não consegui me entregar. Tive medo.&lt;br /&gt;O tempo foi passando, mas eu sempre me assustava com cada barulho lá de baixo. Sempre pensava que um jumper me encontraria. Afinal, ele poderia só pular até ali e me encontrar.&lt;br /&gt;Meu vazio aumentou bastante naquele momento. Só então eu pude perceber como a presença de Isabela fazia falta. Eu ficava pensando nela. Será que estaria bem?&lt;br /&gt;Com certeza se tivesse descido do avião estaria morta. Ou talvez eu estaria morto. Não sei.&lt;br /&gt;Anoiteceu e tinha um buraco no teto ali. Na verdade parecia como que uma janela enorme que estava aberta. Eu quis ver a lua. Seria uma ótima ultima visão.&lt;br /&gt;Me movi com cuidado e consegui não fazer nenhum barulho. Mas foi uma perda de tempo, porque o céu estava cheio de nuvens. Começou a chover logo, e isso afastou os monstros. Achei estranho, mas agradeci. Nem sei bem ao que eu agradeci, mas senti essa necessidade.&lt;br /&gt;Não vi a lua, mas senti um pouco de esperança de sobreviver um pouco mais.&lt;br /&gt;Pensei que aquelas nuvens poderiam causar uma turbulência no avião. Geralmente cancelam vôos em dias de tempo fechado. Criei uma imagem na minha cabeça. Seria hipocrisia, depois de toda a merda que eu já disse na vida, pedir a Deus que os ajudasse. Mas eu queria poder ajudar em algo, porque me senti completamente impotente. Queria que Isabela ficasse bem e que eles encontrassem um lugar seguro. Que conseguissem sobreviver e tirar algum prazer da vida. Algum prazer para o espírito.&lt;br /&gt;Olhei pro primeiro andar do celeiro. Havia um infectado escondido. Estava se protegendo da chuva. Fiz um som e ele correu imediatamente para fora do esconderijo. Quando a água caiu nele, se assustou e fugiu do celeiro.&lt;br /&gt;Parecia absurdo que, tendo medo de água, ele tenha decidido sair do celeiro. Estava até caindo alguns raios lá fora. Foi como ver uma pessoa fugir de um som de pistola em direção a um tiroteio de metralhadoras. Minhas analogias com armas estavam ficando cada vez mais freqüentes. Talvez por causa do hábito. Fiquei com medo de descer, mas comi. Estava com muita fome. Depois de comer e beber água eu me senti confortável. Talvez eu não estivesse tão bem alimentado quando imaginei. Não sei dizer.&lt;br /&gt;Dormi no chão, apesar de haver feno, que era mais fofo. Incomoda o meu rosto o contato com aquilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava deitado numa cama de solteiro. O lugar era estranho. Havia um computador antigo no qual uma impressora moderna estava conectada. Uma pilha de papel estava na mesa. Imaginei que havia sido recentemente impresso.&lt;br /&gt;Gaia entrou no quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Minha deusa. A que devo a honra da sua visita?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Debaixo da pilha de papel você encontrará o seu verdadeiro teste. Todo o atual evento era seu destino. Espero que dê tudo certo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de eu falar qualquer coisa ela desapareceu e eu acordei. Novamente no celeiro.&lt;br /&gt;Pela manhã eu desci. Não era alto demais, então me pendurei para isso. Estava tudo completamente vazio. Eu não ouvia som algum. Senti algo como liberdade e desespero. Eu estava vivo, mas estava só. Sempre valorizei a liberdade, mas por mais que naquele momento eu me sentisse feliz, não era o bastante.&lt;br /&gt;Andei pelo locar e achei uma casa. A porta da frente estava trancada. Dei a volta e achei um trailer. Pensei em dirigir, mas concluí que era inseguro demais. Por mais que a maioria dos infectados tivesse corrido para um lado da estrada, deixando para o outro algo perto de meia dúzia, eu não conhecia o lugar. Onde eu iria parar, que estrada deveria tomar?&lt;br /&gt;Eu simplesmente não sabia para onde ir e nem onde estava. Seria burrice dirigir.&lt;br /&gt;Apesar disso, entrei e testei o trailer. Estava funcionando e com o tanque cheio. Peguei uma faca que ficava numa pequena cozinha ali e fui em direção à casa. Aquilo poderia ser meu refúgio ou a minha condenação.&lt;br /&gt;Apesar de que eu me assustava sempre que estava por entrar num novo cômodo da casa, não encontrei nenhum infectado ali. A casa estava vazia.&lt;br /&gt;O último quarto no qual entrei era exatamente igual ao do sonho. A única diferença é que a cama estava arrumada. Levantei a pilha de papel, que estava embalada numa espécie de envelope de plástico e uma folha caiu no chão. Estava escrito a seguinte coisa nela:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Imagine essa cena fictícia como se fosse real e tente responder à pergunta que a segue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa vez, um homem foi condenado por seus crimes à uma prisão perpétua. Nessa prisão, que na verdade era um pequeno planeta, só existiam andróides. Esses robôs possuíam forma humana e simulavam o que ele quisesse. Assim, eles falavam apenas o que ele queria e faziam tudo o que ele mandava. Além disso, todos eram extremamente atraentes, cheirosos, carinhosos e dedicados a servir a todo o custo. Inclusive à satisfação sexual, pois havia robôs representando ambos os sexos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de um tempo preso no planeta, o homem se matou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por quê?&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soube que aquela pergunta era a resposta para os meus problemas, mas não sabia o motivo e nem qual era a resposta. O momento sozinho foi oportuno, afinal...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4664356695252564512-2736249536541122172?l=biohazardalimpeza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://biohazardalimpeza.blogspot.com/feeds/2736249536541122172/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4664356695252564512&amp;postID=2736249536541122172' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4664356695252564512/posts/default/2736249536541122172'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4664356695252564512/posts/default/2736249536541122172'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://biohazardalimpeza.blogspot.com/2009/11/capitulo-17.html' title='Capítulo 17'/><author><name>Silas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08560610846360060486</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/ScXDtIGMN9I/AAAAAAAAABQ/YF39-2VxJ3k/S220/zumbi.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/Sw2474NRRrI/AAAAAAAAATY/WXPaz4sjExY/s72-c/banco_solidao.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4664356695252564512.post-5185537090399991485</id><published>2009-11-20T12:54:00.000-08:00</published><updated>2009-12-14T08:38:24.132-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Capítulo 16'/><title type='text'>Capítulo 16</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/SwcB9Ds5nMI/AAAAAAAAATQ/nHJWY0_0ghk/s1600/nascido_das_chamas.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/SwcB9Ds5nMI/AAAAAAAAATQ/nHJWY0_0ghk/s400/nascido_das_chamas.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eles me disseram que no final tudo dá certo. Que se tudo não está bem, é porque ainda não terminou. Que sempre existe um final feliz. Se no final tudo sempre dá certo, então eu acho que não existe o final. Isso será assim pra sempre. Um pesadelo. Para além do tempo no reino das trevas, do frio e do vazio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava no inferno novamente. Dessa vez eu cheguei até a mesa onde Mefistófeles e o velho estavam me esperando. O velho estava tenso e eu sentia que possuía uma mensagem em mim para ele. Não sabia muito bem que mensagem, mas tinha que deixar fluir das profundezas do meu ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porque, irmão? Porque você me abandona? – perguntou o velho.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não te abandono. Você está enganado.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você está me deixando sozinho. Você fez um pacto de que não me deixaria sozinho aqui!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Irmão. Você deixa a si mesmo sozinho. O tempo de aprendermos sobre a destruição acabou. Precisamos agora continuar nosso caminho. Precisamos deixar a corrente nos levar para novas possibilidades.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eles te contaminaram. Você devia ter impedido isso.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Não devia.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu não posso continuar sem você. Será que não entende? Nós representamos o equilíbrio do universo!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você está perdendo o contato com sua essência, irmão. Não percebe? Mefistófeles não é você. Não é a sua função manter o equilíbrio. – eu falei sem muita consciência do que isso queria dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mefistófeles me jogou a carta e eu peguei com a mão direita. Quando a passei pra esquerda ela desapareceu. O anel a destruiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Viu? Em breve esse anel terá te profanado tão profundamente que você já poderá voltar ao inferno. Eles te querem como um escravo, você sabe disso.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Sou eu, irmão. A minha essência mudou nesses milênios. Eu já não sou aquela criatura destruidora que fez o pacto de servir a desintegração. Nem você.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você está perdendo o juízo. A energia deles está tomando conta do seu ser.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. A totalidade está tomando conta do meu ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu levantei minha mão direita e mostrei a ele. Minha pele começou a envolver o anel de Mefistófeles. Ele se acoplou de tal maneira em mim que nos tornamos um.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você é um só. Como pode ter essas forças dentro de si? Como pode ter todo o universo na sua alma e sua alma em todos universo? Como!?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu parei de perguntar como e deixei o meu corpo flutuando no cosmo. Aí os fluidos da natureza, os que caminham para a totalidade, me mostraram o caminho. Não é um caminho a ser controlado e entendido, mas a ser sentido e vivido. É o caminho para o infinito.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Então era esse o convite. – disse o velho ao jogar as cartas na mesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mefistófeles não falava sequer uma palavra. Ele não é um ser humano, mas uma força do universo. Não pode deliberar. Ele só é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você também o recebeu, irmão. Junte-se a mim. – disse eu com esperança.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não posso. A minha alma e Mefistófeles estão fundidos. Eu fiz isso para que você pudesse ser livre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mesa voou e eu vi a perna direita dele. A partir do joelho ela deixava de ser a perna dele e passava a ser a de Mefistófeles. Os dois permaneciam na mesa daquela maneira porque suas pernas estavam presas como que cirurgicamente. Por causa daquilo ele só poderia trilhar o caminho do diabo. Uma voz rouca, a minha voz, gritou perguntando quem eu era. Eu perguntando a mim mesmo como se eu fosse outra pessoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Meu tempo está acabando. Irmão, Encontrarei gaia. A encontrarei e você será livre. Eu prometo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho me olhou com um olhar de quem não gosta da idéia, mas que ao mesmo tempo parece aceitá-la. Fui puxado para fora do inferno e o portão se fechou. Não seria pelo portão do tártaro mais o meu caminho. Tantas vezes o trilhei, mas isso tudo ficou no passado. Agora era a hora de buscar as respostas. De encontrar Gaia. Mas o mundo balançou e eu fui convocado à realidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Acorda, Roberto! – disse Isabela com um tom de voz agitado.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que? Que horas são?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Dez horas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sacudia minha mão direita enquanto tentava tirar o anel do meu dedo. Parecia incomodada porque o anel não saia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ta preso no seu dedo. Ta apertado, vai dificultar a circulação de sangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ainda estava atordoado. Não foi uma noite tranqüila e eu poderia com facilidade descansar um pouco mais. No dia anterior nós trabalhamos reunindo os recursos numa camionete para podermos seguir viagem hoje. Carreguei peso e foi um dia bem vazio. Quase não falei com Isabela. Só fiquei como sempre imerso em pensamentos e olhando ao redor. Com medo de ser atacado. Eu sabia que o jumper estava por ali, mas ele não atacou. Tudo pronto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Deixa o anel, Isabela. Fala sério. – disse eu com a voz grave que tenho quando acordo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu não gosto desse anel. É horrível! – Respondeu ela.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Esse anel é um símbolo, Isa. Tirar ele do meu dedo não vai mudar o fato de que ele representa uma parte de mim.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você está enganado. Você não é isso.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não? Eu sou o que?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você é uma pessoa boa.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Olha. Desculpe ter de me opor a isso, mas eu sei que não sou uma pessoa boa. Não me aproveito das pessoas simplesmente porque os bens materiais não me interessam. Na verdade, de um modo geral, poucas pessoas me interessam. Eu presto mais atenção nas pessoas que minha intuição aponta. São como que fontes para meu crescimento pessoal. Eu nem sou humano.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não fala assim. Claro que você é humano.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Meu corpo é humano, mas meu espírito não. Não é atoa que eu sempre me senti um estranho nesse mundo. Pra falar a verdade eu não me sinto desesperado porque o mundo acabou. Isso não me importa, porque de alguma forma eu sei que os zumbis são outra coisa que não pessoas. Quando eram pessoas, não eram indivíduos pra mim. Se eu ajudava alguém, não era por ter consideração pessoal, mas por um impulso interno e indiferente. Muitas vezes na minha vida eu fui chamado de frio, insensível, psicopata...&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que absurdo! Quer dizer que você ajudava as pessoas e ainda te chamavam de psicopata?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É. Elas não querem o tipo de ajuda que tenho para oferecer. Querem calor humano, consideração. Querem que quem as ajuda seja um ser vivo, e isso eu não sou. Acho que meu espírito está tão distanciado da vivência humana que não sei se posso encontrar um caminho para isso.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você ta parecendo o Felipe falando essas coisas. Para com isso. Não gosto de você falando assim. Claro que você é vivo. Você demonstra consideração por mim.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Involuntariamente. Eu sinto, por algum motivo, que você pode melhorar meu espírito. Se não fosse assim, você seria irrelevante. Como o soldado que morreu e eu nem sabia o nome dele. Na minha vida existem bilhões de figurantes espalhados pelo mundo. Não sou capaz de me interessar pessoalmente por uma pessoa. Talvez eu me interesse pelos problemas dela, mas não é nada pessoal. Aliás, devo te dizer, da mesma forma que eu faço o bem a troco de nada, o mal que eu faço é a troco de nada.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Como assim? Não estou entendendo direito isso. Você faz maldade com as pessoas?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sei lá. Eu tive um sonho muito maluco essa noite que meio que reforçou minha certeza de que meu espírito só muito recentemente veio descobrir o que é ser humano. Eu me sinto como uma força do universo descobrindo como é a sensação de ser humana mais uma vez.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Caralho! Nunca ouvi tanta merda na minha vida! Vai soltar o que agora que é um psicopata quântico que mata as pessoas enquanto faz viagens astrais pelo mundo dos espíritos? – Rodrigo falou rindo. – beleza, chega de papo inútil. Estamos saindo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Cadê a minha esfera? – perguntei.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sua esfera? Porque sua?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu que guardei até hoje. Você não tem capacidade intelectual pra avaliar isso de qualquer maneira.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; E você tem né, senhor gênio. Vai dizer o que, que ela é controlada por um espírito extra-terrestre quântico. De qualquer maneira, está com o José. Ele vai com a gente então você pode pegar depois e fazer sua análise quântica sobre ela, senhor gênio!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vai se foder, cara. – disse eu num tom seco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ficou em silêncio. Um sorriso malicioso no rosto. Parece que ele queria isso. Só me provocar até eu falar um palavrão. Parece um objetivo meio estúpido. É como se ele quisesse provar pra mim, de alguma maneira, que eu sou como ele. Parece que se irrita com qualquer merda e fica incomodado com o fato de que quase nada realmente me abale. No fundo, outra coisa deve incomodá-lo. Que no fundo eu o considero inferior, embora eu nunca tenha dito. Ele deve ter percebido pelo olhar que eu o considero uma criatura grosseira. Um selvagem. Se ele ao menos soubesse que eu não me abalo com as coisas porque estou desconectado da minha própria humanidade, talvez isso o ajudasse a não se sentir inferior por conta do meu domínio próprio. Ou talvez isso só virasse mais uma piada para ele. Só comigo ele faz essas coisas. Aos outros ele mostra uma máscara deprimente. Quer parecer controlado, mas ao menor sinal de contradição ele demonstra sua falta de domínio próprio. Talvez ele tenha inveja de mim. Talvez eu tenha inveja dele porque, afinal de contas, ele é humano. Eu queria ser humano, mas existir da maneira que ele existe parece indigno. Viver como um animal fora de controle.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Depois a gente fala disso, Isabela. Ta mesmo na hora de nos prepararmos pra sair. – falei com ela num tom brando. Tentando fugir do assunto.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vamos falar disso mesmo. Não vai escapar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não sabia como explicar essas coisas pra ela. Essas fantasias, esses sonhos, essas intuições. Tudo um turbilhão louco na minha mente que não tinha explicação nem pra mim mesmo. Como eu poderia falar disso sem parecer louco até pra mim mesmo? Fui para o banheiro e tomei um banho. Agua quente. Não achei uma idéia genial sair daquele lugar tão rápido. Tinha tudo o que precisávamos. Mas no fundo eu queria ir embora. Nós estaríamos fazendo alguma coisa e eu poderia fugir dos questionários da Isabela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você tem medo do que vai descobrir, não? – disse Felipe.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tu ta aí, cara?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É um banheiro grande. Dois mictórios. Não sabia que você queria privacidade.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Não. Tranquilo, cara.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu também fiquei desesperado quando percebi intuitivamente que estava perto do abismo. Escolhi me aproximar e descobrir a realidade. Sou infeliz desde o dia em que acordei e descobri o vazio. Talvez seja melhor mesmo você fugir e ter uma vida normal.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vida normal? Eu não sou capaz de ter isso. Eu nem sou humano.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu também queria acreditar nisso. O ser humano é tão desprezível. Mas olhe pra você mesmo. Você é humano.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Falo humano no sentido de poder me encaixar. De ter as emoções que são necessárias pra isso.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; De um modo geral essas emoções são uma fraude. Quando você descobre isso, que tudo é uma fraude, aí você percebe que se encaixar nessa vivência presume mentir pra si mesmo. É o que dizem: Don’t worry. Be happy. Esse mundo merece essa praga que o destrói. Ou que já o destruiu há tempos.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Acho que tem um jeito de me encaixar sem me tornar uma fraude. Sem ter que ter mascaras.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Falsas esperanças. Você é como eu. Um desajustado. Não vai se encaixar. O que vai fazer quando ela quiser saber quem você é? Vai mentir. Vai enganar ela?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sei lá.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Melhor se apressar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele saiu do banheiro e eu me abaixei no boxe. Sentei no chão e abracei as pernas. Não fazia idéia do que fazer. Tive um momento tão alegre no outro dia e agora toda a minha preocupação era perder aquela alegria. Na verdade a preocupação já tirou a alegria. Meu medo era o vazio. Talvez o vazio que Felipe citou. Viver uma vida sem sentido. A ausência de sentido ser a realidade. Acho que no meio da água que passava pelo meu rosto havia lágrimas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pecado tu não tira com água não, cara! – gritou o sargento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me enxuguei e saí do banheiro. Isabela arrumou minha roupa e deixou em cima da cama. Ela estava fora conversando com o Augusto. Me arrumei rápido e saí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tava colocando maquiagem? – perguntou Augusto.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pó, cara. É foda. Com tudo isso de fim de mundo a gente fica sem batom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele deu uma risada tímida. Eu arriscaria dizer que foi até forçada. Acho que eu não sou engraçado mesmo. Tanto faz, só quis ser amigável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Parece que não vai caber todo mundo na camionete. Vamos fazer duas viagens como planejado, então o negócio é andar até o porto. Vamos eu, você, Isabela, José, Felipe e Rodrigo. O sargento vai dirigir e recarregar a camionete na segunda viagem.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Beleza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos bem longe do cais. Imagino como deve ter sido difícil para José me carregar até a casa. Se bem que eu não faço idéia de onde eu estava quando apaguei. Talvez eu tenha corrido pra bem longe. Sei lá.&lt;br /&gt;Para a camionete fazer apenas duas viagens, todos tivemos que carregar mochilas cheias. Isabela foi na frente com Augusto. De certa forma isso me aliviou. Embora eu quisesse estar perto dela, isso também me assustava. Loucura. Ficamos para trás eu José e Felipe. Não fui na frente também porque não queria ficar perto do Rodrigo. Ele não para de falar por um minuto. Faz perguntas estúpidas a troco de nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O tempo tá fechado, José. Dia feio. Acho que vai chover. – disse eu.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É. – respondeu ele.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porque vamos sair com esse tempo?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Meu piloto não vai esperar pra sempre, garoto. Se eu não chegar lá logo os monstros podem invadir o aeroporto e aí ele terá que fugir.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Então porque não saímos ontem à noite?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não é seguro andar no escuro enquanto Jumpers estão à solta por perto. Têm os sentidos agiçados. – disse Felipe.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É. – disse José.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que aconteceu naquele momento foi muito rápido. O jumper caiu de uma árvore e rachou o crânio de José. Rodrigo foi o primeiro a perceber e voltou correndo. Só depois de alguns segundo que Augusto percebeu o que se passava. O jumper pegou a mochila de José e subiu numa arvore. Quando Rodrigo começou a atirar, o monstro olhou para mim e berrou. Em seguida fixou o olhar em Rodrigo. Ele fez a mesma coisa com Felipe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Está nos invocando... – disse Felipe&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quê?&amp;nbsp;–&amp;nbsp;Perguntei.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ele acha que somos como ele. Está certo. Eles são o que somos e nós somos o que eles são. Não somos humanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O monstro continuava berrando e rasgou a bolsa. Os pertencer de José caíram no chão. Olhei o corpo dele no chão. Cabeça esfolada. Bem na parte de trás.&lt;br /&gt;O monstro pegou a esfera que estava na bolsa e a engoliu. Por um instante juro que ele sorriu. Bem antes de engolir a esfera.&lt;br /&gt;Ele caiu da árvore e começou a se debater no chão. Tremeu por alguns intantes e lançou um berro mais alto do que os outros que lançava normalmente. Explodiu diante de nós. Nenhuma parte grande do seu corpo sobrou. Até s ossos de despedaçaram.&lt;br /&gt;O ultimo grito atraiu mais dois mortos, que pararam diante de nós momento antes de Rodrigo matar os dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Atividade, porra! Os zumbis na frente de vocês e você ficam parados? Puta que pariu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ignoramos ele completamente. Isabela ficou perto de mim, mas continuou conversando com Augusto. Estavam discutindo sobre as origens disso tudo. Augusto sustentava que alguma empresa queria lucrar com isso e acabou dando errado. Meio clichê da nossa época. Isabela dizia que espíritos cientistas construíram isso de outra dimensão precisamente para a nossa destruição. Por mais que parecessem absurdas ambas as posições, não me meti no diálogo. Foi uma imensa perda de tempo, porque nenhum dos dois deu o braço à torcer. Ainda assim eles estavam entretidos. Talvez ele seja um namorado melhor pra ela do que eu. Isso não me impede de ter ciúme, embora eu não planeje manifestar nada disso.&lt;br /&gt;Chegamos no barco e o sargento estava lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Cadê o magnata? – perguntou ele meio ofegante.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; No meio do caminho. Ele já era. – respondeu Augusto.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Caralho. Ta foda essa vida. Num segundo tu ta vivo e no próximo você pode rodar. É estranho você conhecer a pessoa e conviver com ela pra vê-la morrer. Acho que seria melhor nem conhecer todas as pessoas que caminham conosco e acabam morrendo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Caralho, sargento. Profundo em. – disse Rodrigo. – terminou aqui?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Terminei. Sobre isso mesmo que tenho que falar. Não estou me sentindo bem. Sei lá o que eu tenho, mas preciso descansar. Não vou agüentar a segunda viagem.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tranqüilo, deixa comigo. – disse Rodrigo. – eu resolvo o problema.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você foi mordido, arranhado ou teve ao menos uma gota de sangue infectado dentro de você? – perguntou Felipe&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. – respondeu o sargento. – Acho que só to ficando velho.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tinha que ser o viado pra ficar falando merda por aí, né? Não quer dar o seu cú não? – perguntou Rodrigo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pegou pesado, cara. – disse Augusto.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Peraí. Tu é gay, cara. – perguntei.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu já comi um cara. Falei isso na sua frente. Não ouviu? – disse ele.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Claro que não! Ele é idiota! – disse Rodrigo enquanto entrava na camionete. – ele não ouve nada e nem vê nada. Está sempre no fantástico mundo de Bob.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pensei que você e aquela menina que estava contigo tinham alguma coisa. – comentei.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu queria comer ela. – disse ele.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Então como você é gay?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu só transei duas vezes na vida. Uma vez eu comi um viado e a outra eu comi uma puta.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Então você é bissexual.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tanto faz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele saiu e nós ficamos esperando no iate. Augusto se lembrou de pegar as chaves no corpo de José. Novamente Isabela e Augusto voltaram a debater sobre a origem da esfera. Dessa vez consultaram Felipe. Todos nós, parece, no fundo considerávamos ele a pessoa mais inteligente do grupo. Saí dos meus pensamentos para ouvi-lo responder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Acho que os dois estão certo e equivocados ao mesmo tempo. Vajem só. Em primeiro lugar, nós não temos como comprovar nenhuma das hipóteses que vocês criaram. O fundamento delas nada mais é do que um reflexo do desejo que vocês têm de auto-afirmação. Vocês afirmam sua crença porque essa crença é o que você são. Essa discussão é filosoficamente absurda e nunca deveria ter começado.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas podemos tentar uma abordagem fenomenológica ao invés da metafísica, Felipe.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É. Eu fiz isso nas minhas investigações. Mas eu perdi meus registros.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Peraí. O Que é isso de abordagem fenomenológica? – perguntou Augusto.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É quando tentamos entender uma coisa sem usar o conhecimento prévio. Só observando a coisa em si e seu comportamento. – disse Isabela.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ah. Que bobeira isso de usar palavra difícil. Pra mim era mais simples dizer que devemos olhar sem preconceitos. – disse ele.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas você estava criando uma hipótese infundada e baseada nos seus preconceitos. – disse Felipe calmamente. – mais uma vez quer se auto-afirmar porque se viu diminuído por não conhecer uma palavra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficamos em silêncio. Parece que Felipe só prestava atenção nas informações e idéias que tornariam tudo um pouco mais desagradável. Era o objetivo dele, por algum motivo. Depois de alguns segundos de silêncio e de Augusto encher o peito pra falar e hesitar algumas vezes, quebrei o gelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Antes de Rodrigo matar o cientista na estrada ele me passou informações interessantes. Parece que essas esferas são fonte de energia. Elas extraem energia de toda a parte. Não consomem o organismo do infectado.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ele nunca disse que ela não consome o organismo do infectado. – salientou Augusto.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É, mas eu observei isso. Eles ficam sempre com a mesma aparência e a mesma energia.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Esse seu cientista deveria ter sido mais ousado quando concebeu as possibilidades. – disse Felipe. – espero que não me matem por isso, mas eu vim a concluir que essa infecção possui efeito inteligente. O que quer que esteja infectar as pessoas não é um agente meramente biológico. Se fosse, ele não iria variar de forma tão irracional.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que tem de irracional? Pra mim há um padrão bem claro. – disse Augusto.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O corpo das pessoas, quando infectado, continua apodrecendo. Parece que apenas os músculos e as cordas vocais permanecem intactos. Vejam só como o aspecto deles se torna asqueroso. Eles não possuem necessidade de se alimentar. Eu vi um deles arrancando o lábio de uma velha. Ele cuspiu. Só estava infectando ela. Eles percebem quando uma pessoa já está infectada e param de atacá-la, como que para protegê-la. As feridas param rapidamente de sangrar porque seja o que isso for, é capaz de coagular o sangue rapidamente. A pessoa morre basicamente porque todo o seu corpo fica sem circulação de sangue. Não sei o que você entende por biologia, mas isso pra mim é irracional. Isso é fruto de inteligência e não de um agente viral.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas pensamento é racional. Se eles pensam, então isso tudo é racional. – retrucou Augusto receoso.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Isso é irracional com a abordagem comum da biologia. Não quis dizer que o processo é em si destituído de razão, mas que ele fere o que entendemos por causa e efeito. É como se tivesse de fato uma entidade inteligente realizando isso.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; E os jumpers? – perguntei.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eles são meu objeto de estudo. São muito parecidos com os seres humanos em vários aspectos. Eles possuem poder de comando e seus berros atraem todos os infectados que estão por perto. Por mais que se pense que esses infectados são completamente impulsivos, a verdade é que não são. Eles são iguais a nós. Têm um impulso interno e pensam que estarão saciadas quando morderem as pessoas. Mas eles mordem e percebem que isso não os ajudou, então abandonam a pessoa e vão atrás de outra. Quando o jumper chama, eles correm desesperados. Pensam que o jumper os saciará, embora as vezes essas criaturas até matem os infectados normais.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que? Jumpers matam infectados? – perguntei.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sim. eles ficam entediados e começam a matar infectados com cotoveladas.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Caralho... Mas cara, não são assim tão parecidos conosco. Quero dizer, acho que é um exagero dizer que somos iguais aos infectados só porque eles correm desesperados para buscar o que lhes falta no lugar errado.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você não viu o que aquele jumper fez lá trás? – disse Felipe.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ele se matou? Eu não entendi bem qual foi a dele. – Disse Augusto.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Claro que não! Tudo agora se encaixa! Vocês disseram que a esfera é a fonte de energia, certo?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pois temos que acrescentar mais uma função hipotética a essa esfera, que é a de manifestar essa inteligência rudimentar. Ela se manifesta tanto ao lidar com o organismo, se adaptando a diferentes tipos de feridas, quanto no condicionamento do comportamento do infectado.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Certo. Aceito isso pra você poder continuar. – disse eu.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Isso que dizer que o jumper queria mais inteligência ou mais energia ao comer aquela esfera.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Parece razoável. Mas ainda parece uma atitude inteligente demais. Esses monstros podem ter reflexos rápidos, mas não falam e não parecem ter uma inteligência tão articulada. Afinal, a esfera explodiu o corpo dele. Como você explica isso?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Provavelmente foi poder demais pra ele. As esferas entraram em conflito. – respondeu ele.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Peraí. Ta dizendo que essas esferas brigaram dentro do corpo do monstro e isso destruiu ele?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Por aí.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Isso é doideira, cara. Não tem sentido nenhum.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tem que expandir horizontes pra poder conceber isso. Abordagem fenomenológica. Ele parecia um homem lutando para conseguir mais poder. Eles são exatamente iguais a nós. Só querem satisfazer desejos que são fruto de seus instintos básicos e para isso usam a inteligência.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas não é isso que fazemos. – retrucou Isabela. – nós temos amor, amizade, caridade. Não somos só maquinas de realizar desejos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Augusto disparou alguns tiros. O grito mais alto do jumper atraiu três infectados do outro lado da ilha. Logo em seguida Rodrigo chegou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porra ninguém se ofereceu pra ajudar, em! puta merda! Só eu que faço tudo nessa porra. – reclamou ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Augusto e eu descemos e começamos a colocar os galões de combustível dentro do iate. Não se era gasolina ou Diesel.&lt;br /&gt;Quando acabamos começou a chover, mas sabíamos que precisávamos ir rápido. O iate era gigante e não iria virar com uma tempestade. Afinal, nem estava chovendo tanto e ventava pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu ainda não engoli isso de que nós somos como eles. – disse eu.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Diga isso ao jumper. Não percebeu que ele estava tentando ordenar que nós atacássemos o ... Qual o nome dele? O cara que chegou atirando. Enfim, ele olhou para nós e reconheceu infectados.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas geralmente eles só atacam.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;Pra infectar, talvez. Mas esse percebeu que não precisa nos infectar. Não. Não estamos vivos e nem somos humanos.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você tem merda na cabeça, viado. Bora sair logo que esse papo ta muito gay. – disse Rodrigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É verdade que Rodrigo é ignorante e patético, mas não deixa de ter razão. Precisávamos mesmo sair. De qualquer maneira, todo aquele palavreado não nos levaria a lugar algum.&lt;br /&gt;Andei pelo Iate com Isabela. Na verdade eu nem acreditava que aquilo devia ser chamado de iate. Tinha até cozinha!&lt;br /&gt;Todos nós tivemos acesso a quartos. Eu e Isabela ficamos num quarto com cama de casal. Se por um lado me assustava que, estando sozinho com ela, fatalmente ela descobriria que eu não tenho alma, por outro me agradava. Por mais uns instantes eu me faria passar por humano. Por mais uns instantes não estaria só. Mais um pouco de alegria.&lt;br /&gt;Ela nunca tinha pilotado um iate como esse. Parece que ele precisaria de várias pessoas realizando várias funções. Por sorte ele estava carregado com mantimentos e combustível, além de estar bem limpo. O problema, no entanto, era que não podíamos ir rápido demais. O preço a ser pago por todo aquele luxo era a lentidão. Havia diversos dispositivos estranhos ali, e Augusto decidiu testá-los. Ele possuía grande facilidade para lidar com máquinas e logo aprendeu como ligar e comandar diversos dos programas do iate. Era todo computadorizado. Ele descobriu que alguém devera ficar numa espécie de sala de controle onde tudo no barco era monitorado. Todos nos surpreendemos quando ele achou um pequeno submarino instalado lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ou aquele velho era idiota e gostava de jogar dinheiro no lixo ou ele estava se praparando. Ainda acham absurda minha hipótese de que ele estava envolvido? – disse Felipe num tom sarcástico.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ele está morto, Felipe. Deixa isso pra lá – disse Isabela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele ponto, Augusto e Isabela eram valiosos e nós, os outros, não possuíamos conhecimento útil. Acabamos seguindo as orientações do sargento e organizando o barco. Todos os suprimentos foram organizados, fizemos uma lista de tudo o que tínhamos no estoque e armazenamos num computador que ficava numa sala especial. A internet estava funcionando nesse computador, mas apenas alguns poucos serviços estavam no ar. Google e os programas armazenados em seus servidores ainda estavam no ar. A primeira coisa que fiz foi entrar no YouTube. Não encontrei muito vídeos novos. Alguém entrou em todos os vídeos que gravaram o desastre e os&amp;nbsp;comentou. Estava só e pedia ajuda. Um americano. Eram más notícias.&lt;br /&gt;Começou a chover e a internet caiu, mas antes consegui acessar meu e-mail. Várias mensagens de alerta, outras de socorro. Uma pena que, por causa da distância, tudo se tornou impraticável. Era até estranho ver gente pedindo ajuda a todos os contatos de e-mail sendo que alguns moravam muito longe e não davam a mínima. Nenhum familiar meu escreveu, e aquilo me deixou perturbado. Um sinal de humanidade, talvez. Preocupação.&lt;br /&gt;Rodrigo descobriu que as máquinas eram cheias de jogos. Abrimos um jogo, eu ele e o sargento. Felipe saiu e ficou lendo um livro.&lt;br /&gt;Ficamos jogando um jogo que nunca vi. Nós três num campo de batalha, passando de fase. Um jogo cooperativo. Por um tempo eu me distraí com a gritaria que aquela sala virou. Sargento ficou animado e começou a nos comandar no jogo. As máquinas eram bem inteligentes. Acho que de alguma maneira ele estava usando aquele jogo para reviver sua profissão, que provavelmente nunca mais será a mesma. Hoje nós somos fugitivos, talvez no futuro sejamos caçadores, mas a instituição do exercito acabou. Eu vejo nos olhos dele que ele gostava do trabalho e que ele fazia falta.&lt;br /&gt;Fiquei cansado do jogo e saí. Colocaram um bot no meu lugar. Parece que ele era melhor do que eu. Só não conseguiam gritar com ele pra dar ordens, mas logo perceberam que havia comandos programados para isso.&lt;br /&gt;Lá fora eu vi Felipe sentado na ponta do iate. Deixou o livro de lado e ficou abraçado nas barras de ferro com os pés pra fora. Parecia refletir profundamente sobre alguma coisa. Preferi não tentar imaginar, porque os pensamentos dele me deprimiam.&lt;br /&gt;Fui até a cabine e vi Isabela. Estava conversando co Augusto por um rádio. Ele estava explicando pra ela o que descobriu de dados ali sobre as peculiaridades do barco. Ela parecia empolgada. Estávamos em alto mar. Não era possível ver terra em lado algum. Sensação estranha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tá aí, Roberto? Porque não entrou?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu tava olhando pro mar. Acham que vai ter tempestade?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Augusto disse que a aparelhagem indica que isso não vai ser nada de mais. Só uma chuva fraca e depois é sol. Aliás, mais pro sul nem ta chovendo agora. Talvez daqui a pouco pare de chover.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Isabela, na escuta?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Fala.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Do seu lado direito tem um computador. Liga ele. É um piloto automático.&lt;br /&gt;Não me lembro de ver Isabela tão empolgada assim antes. Nem de um computador ligando tão rápido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Bem vindo ao sistema de rota automático. Entre com as coordenadas do destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma voz de mulher na máquina. Até bonita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Isabela. Vê com o sargento o nosso destino. Ele tem anotado. Aliás, vê também se tem em destinos prévios algum lugar no sul. Daí a gente já pega o caminho mais ou menos e depois colocamos as coordenadas certas.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Chama lá o sargento, Roberto? – disse Isabela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu saí estupefato com a cooperação natural deles. Enquanto eles funcionam como um, eu saí correndo feito louco e deixei ela pra trás. Se eu não fosse tão egoísta, provavelmente iria preferir que ela ficasse com ele ao invés de ficar comigo. Mas eu sou patético o bastante para continuar desejando aquilo que não deveria ser meu em primeiro lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mata, caralho! Mata aquele ali no canto! Vai porra! Não, não! Volta. Ó a metralhadora ali!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrei na sala dos computadores e chamei o sargento. Apertei f5 no navegador da maquina que eu estava usando pra ver se a internet havia voltado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Fala Roberto...! disse o sargento impaciente.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Dá aí as coordenadas do nosso destino. Isabela vai colocar no piloto automático.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Caralho! Quero morar nessa porra de iate. Pra que Estados Unidos? Isso aqui é o paraíso! – disse Rodrigo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quarto item da segunda fileira. No boldo as frente da minha mochila. – disse o sargento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele voltou a jogar e eu olhei para a tela. Um e-mail novo. No campo que indica quem me enviou não havia nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assunto: Brother&lt;br /&gt;Mensagem: what is taking you so long?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Provavelmente não havia o e-mail do remetente por algum erro. Talvez a mensagem nem fosse pra mim. Tanto faz.&lt;br /&gt;Fui para a cabine de comando e Isabela estava rindo. Augusto estava contando alguma piada pelo rádio. Aquilo me irritou, mas eu não deixei me dominar. Entreguei as coordenadas para Isabela e ela colocou no computador. A rota foi traçada imediatamente e com base nos dados que Augusto coletou sobre o clima. Não havia tempestades por perto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você ta estranho, Roberto. Tudo bem contigo? – perguntou Isabela.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ta sim. Só to um pouco cansado porque tive que carregar peso e não to acostumado.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ta bem. Descansa um pouco então. Eu vou preparar mais algumas coisas aqui com o Augusto e logo logo te encontro no quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando eu saí ela começou a gargalhar de novo. Augusto estava de bom humor.&lt;br /&gt;Felipe pegou no sono. Ficou deitado na ponta do navio. Quando começou a chover ele saiu de lá e foi para o quarto. Deitei na cama. Tinha um espelho no teto. Perfeitamente limpo. Fechei os olhos porque não queria olhar pra mim mesmo. Não foi um dia bom. Muito ódio contra mim mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Oi Roberto. Dormiu não? – perguntou Isabela.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Eu só to estranho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não falou mais anda. Só deitou comigo e me abraçou. Foi como da primeira vez. Eu me acostumei com o calor dela, me senti confortável. Acabei pegando no sono. Augusto programou o barco para avisar no caso de qualquer eventualidade e dormiu ali mesmo perto da sala de controle. Os olhos dele brilhavam quando ele trabalhava ali. Era como se aquilo fosse o que ele queria fazer com a vida. E ele era mesmo bom. Não tinha conhecimento prévio, mas aprendeu muita coisa rapidamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu e uma garota estávamos correndo atrás de um velho. Era o pai dela. Lembro dela de um filme e do velho de uma reportagem de TV. O velho entrou no ônibus e ele saiu. Correi atrás do ônibus, mas não o alcancei. Quando voltei, ela estava com um garoto. Namorado dela. Olhei ao redor e ele desapareceu. Agora era eu o namorado dela. Outro ônibus parou e entramos. O garoto reapareceu. Pediu a ela para pagar a passagem, porque ele não tinha dinheiro. Isso a incomodou visivelmente. Paguei minha passagem e me sentei no banco atrás do deles. Era um ônibus de viagem. De repente me senti como um fantasma. O namorado dormiu e eu comecei a falar algo com a menina. Estávamos ficando próximos. Toquei o braço dela. Ela sorriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei no meio da madrugada. Fomos dormir cedo demais. Não quis levantar, porque Isabela estava em cima de mim. Os olhos dela estavam se movendo. Não sei dizer se isso significa que ela está sonhando. Imagino o que ela está sonhando. Há quem diga que a intuição é forte nos sonhos. Que as nossas percepções subliminares se tornam previsões e visões acuradas da realidade. Talvez ela estivesse sonhando com o que eu realmente sou. Não. A expressão facial dela estava muito tranqüila. Aliás, na ausência da minha humanidade eu nem sei dizer ao certo quem eu sou. Só sei dizer o que eu sou. As horas de passaram, o sol começou a iluminar o ambiente. Como sempre, o sol me trouxe o sono. Sou uma criatura da noite. Mas o sono não durou muito. Isabela sempre acorda cedo. É uma criatura do dia. Da luz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Levanta, Roberto. Já amanheceu. – disse ela com seu sorriso habitual.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Como você consegue gostar da manhã?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Como você consegue não gostar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantei meio lento. Escovei os dentes, lavei o rosto. Coisas comuns. Tomamos café da manhã tranquilamente. Na verdade, num momento como esse nós acabamos esquecendo da tragédia do mundo. Acontece às vezes. Conversaram durante o café mas não prestei atenção. Estava muito lento. Depois do café tomei um banho. Um dia normal, até mesmo entediante. Eu me sentia como se estivesse faltando com alguma tarefa. Detesto quando me sinto assim. Passei quase o dia inteiro jogando nos computadores. Dessas vez outro jogo. Um de estratégia. Jogamos eu, Felipe, Augusto e o sargento. Rodrigo continuou no outro e Isabela nem sei o que ficou fazendo. Quase não falei com ela. Talvez seja cedo para dizer, mas acho que já estávamos ficando distantes.&lt;br /&gt;Marasma, marasmo. Augusto fez aliança com o sargento e Felipe não atacava ninguém. Pegava recursos onde ninguém procurava e guardava enquanto que eu me esforçava para manter os dois afastados. Perceberam que Felipe estava bem defendido, então atacaram só a mim. Depois de duas horas lutando, acabei sendo destruído. Saí da sala de computadores muito aborrecido. Não só me irritei por ter que enfrentar os dois sozinho: na verdade o que mais me aborrecia é que parecia que eu estava jogando meu tempo no lixo...&lt;br /&gt;Como se, nessa situação existesse algo realmente útil a se fazer além de jogar e esperar o tempo passar.&lt;br /&gt;Isabela estava pegando um bronzeado. Saiu do sol quando me viu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; A gente chega amanhã de manhã. – disse ela rápido.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eita. Leu minha mente?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Eu estava aqui listando todos os assuntos casuais possíveis e só te sobrou esse.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Hehehehehe&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não é pra rir. A gente precisa conversar e você fica fugindo de mim.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Desculpa. Sobre o que você quer conversar?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você sabe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fodeu...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Esse anel no seu dedo. Eu acho que ele é amaldiçoado.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você acredita nessas coisas.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Mas eu vi como esse anel te mudou.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Esse anel é um símbolo. Ele representa uma parte de mim.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu sei.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sabe? – perguntei perplexo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Claro. Você me falou e eu mesma observei. Mas você diz que ele é uma parte e só vive o que ele representa. Ele é uma parte de você, mas é tudo o que você parece conhecer.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É... na verdade eu gosto de acreditar que é só uma parte.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas é. É só uma parte sim.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Como você sabe?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu só sei.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Olha. Vou ser sincero contigo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não foi até agora?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Fui sim. eu só nunca toquei no assunto.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ah. Então me fala.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Acho que você me vê por muito mais do que eu realmente sou. Felipe está certo. Eu não tenho espírito. E o pior de tudo é que não me faz falta. Só sinto que eu não deveria ser assim, e as vezes sinto que não estou fazendo o que deveria. Mas geralmente eu vivo normalmente sem qualquer tipo de humanidade. Tudo o que as pessoas vivem normalmente nunca teve nenhum significado pra mim. E eu sinto um terrível mal dentro de mim, que controlo com um código de ética. Sinto que eu sou um monstro, não uma pessoa. Você estava num momento muito delicado quando nos conhecemos, mas agora já esta poderosa. Agora, aliás, já se tornou meu porto seguro. Acho que você já não precisa de mim, então por isso abri o jogo. Essa pessoa que você gosta não existe.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É por isso que você estava evitando conversas?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É...&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ah, Roberto. Que bobagem!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que? Não é bobagem não.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Escuta. Você veio com todo esse discurso, que pareceu até decorado e demonstrou que não sabe nada de si mesmo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Como assim?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não lembra no mercado. Você quase não ficava longe de mim.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É. Eu me sinto mais humano perto de você. Mas não é justo ficar te sugando. Não posso sustentar uma imagem falsa pro meu bem estar.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sabe como foi que aconteceu quando você tava bêbado?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Só lembro de algumas pouco nítidas. Nada que faça algum sentido.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu peguei um facão e ia matar o soldado Costa. Daí você apareceu e começou a falar. O que você falou mudou minha vida pra sempre.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Falei o que?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Perguntou se eu queria conversar.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Aham. Daí nós ficamos conversando e eu te contei sobre a minha vida. De repente do nada você disse que eu era uma deusa e que deveria me preparar. Disse que eu estava sendo convocada.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; E você? Disse o que?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Aquilo me tocou profundamente. Normalmente eu só iria rir, mas aquilo por algum motivo que não sei bem me afetou. Daí eu te agarrei e o resto acho que já te contaram.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; No dia seguinte você ainda estava um pouco mal na auto-estima. Achava que eu era um anjo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ainda acho. Você me trouxe a mensagem que eu precisava. Naquela noite eu sonhei com uma velha sentada na copa de uma arvore. Era eu. Num lampejo eu soube tudo o que eu tinha que viver. De uma hora pra outra eu soube. Tudo graças a você.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Olha. Que bom que te ajudou, mas provavelmente eu só falei um monte de merda porque estava bêbado e dessas merda você tirou ouro.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Não tinha como. Isso veio de você.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É que eu não me imagino falando essas coisas.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas você sonha com essas coisas. Você as vezes fala. Teve uma vez que ficou pedindo desculpas porque não conseguia chegar ao Olímpo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É? Não me lembro de ter sonhado isso.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pois é. Você pediu desculpa e eu achei que tava acordado. Perguntei por que e você disse isso.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu tenho esses sonhos loucos mesmo. De um modo geral eu vejo eles como sendo orientação da minha mente. Na maioria das vezes eu sonho que estou no inferno conversando com Mefistófeles. Tem também Gaia e Daemon, mas eles não me aprovam. É que eu vou muito no inferno.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas você foi expulso de lá.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Como sabe?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Esses dias você ficou falando isso. Trancaram os portões do inferno. Tenho que salvar meu irmão.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pois é. Eu vejo um velho e chamo ele&amp;nbsp;de irmão nos sonhos, mas não faço idéia de quem ele seja. Nunca vi. Enfim. Eu entendo se você quiser ficar com o Augusto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me deu um tapa na cara. Muito rápido, nem vi chegando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Para com essas asneiras! Eu gosto de você. Não é seu potencial. Eu sei que você é gentil e que gosta muito de mim. Você sempre ouve quando quero conversar e sempre me aquece. Sabe que eu durmo fácil porque fico contigo? Me sinto segura.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu me sinto bem com sua presença.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sei. Sei. Faz você se sentir bem. Como se fosse humano. Vou te contar um segredo. Coisa que a velha me contou.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Conta.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Nós temos contato com os outros muitas vezes por isso. Porque os outros possuem algo que é nosso e não sabemos ou admitimos. Por algum motivo seu lado mais humano não despertou pra sua consciência, então você pensa que essas qualidades estão só em mim. Mas a verdade não é essa. Você é humano sim. Vai ver só com o tempo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu já li algo parecido com isso em algum lugar. Quero muito que você esteja certa. É a missão que Gaia me deu nos sonhos. Descobrir minha humanidade. Minha capacidade de conexão.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vai descobrir. Só tem que deixar a vida correr sem ficar querendo controlar tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fomos pra piscina e ficamos lá. Falamos de banalidades. Felipe saiu da sala de jogos com Augusto e o sargento. Estavam reclamando que ele não joga direito. Não conseguiram quebrar as defesas dele. Desistiram e começaram a guerrear entre si. Perderam muitos recursos e depois ele cercou as cidades deles com torres. Não sei muitos detalhes, mas sei que ele foi fechando eles no canto e os deixou sem recursos. Mas não os destruiu. O jogo só acabou porque eles não quiseram mais continuar.&lt;br /&gt;O dia passou e eu fiquei mais tranqüilo. Minha sensação de não estar fazendo o que devia ser feito passou. Apesar disso, nós fizemos o que o ambiente sugeria: nada.&lt;br /&gt;A noite estava bem estrelada. Lua quase cheia. Dava pra ver no mar. Amo a noite por causa da lua. Tão linda...&lt;br /&gt;Se pudesse, seria sempre noite e sempre lua cheia. O sol me incomoda. Luz demais, calos demais. Ainda por cima não da nem pra olhar pra ele.&lt;br /&gt;Fiquei no topo do iate com Isabela. Ficamos olhando pra lua. Parecia que ela andava junto com o barco.&lt;br /&gt;De repente ouvimos um barulho diferente. O barco começou a fazer mais barulho. Depois voltou ao normal. Isabela achou melhor vermos se deu defeito.&lt;br /&gt;Descemos até a sala de controle e encontramos Augusto concentrado. Parecia estar lendo ou tentando ler uma série de códigos na tela. Quando nos viu começou a falar. Se agitou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Achei uma forma de acelerar o barco! Na velocidade máxima nós chegaremos no destino amanhã de manhã!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tem certeza? – perguntou Isabela.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tenho. Só vai fazer um pouco de barulho na parte externa do barco. Talvez alguma vibração aqui dentro.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Como conseguiu isso? – perguntei.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Descobri um motor auxiliar. Ativado geralmente em casos de emergência com o principal. Posso ativar esse motor como auxílio. Mas lendo esses código eu acho que posso fazer outra coisa com essa maquina. Vou testar.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O que?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vai ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele andou com a cadeira para outra tela. Acionou o submarino com um comando de voz. O mecanismo desceu o submarino e o preparou para ser solto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vejam só. O submarino pode ser controlado remotamente. Se eu ligar ele com força total ele rompe o mecanismo de acoplamento. Mas em velocidade média não. Desativei o desacoplamento automático. Agora ele vai acelerar o iate funcionando como se fosse uma hélice adicional.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Caralho, cara! Não é possível que você sabe tanto. Onde aprendeu essas coisas?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Acho que já posso contar. Agora não faz mais diferença. Eu era capitão de comunicações do exercito. Eles mataram todos os militares com patente acima de tenente. Me identifiquei como soldado pra sobreviver.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quem matou?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sei lá. Percebi que os corpos baleados pelas ruas eram de oficiais. Daí me vesti com o uniforme de um soldado. Eles nem tentaram me matar. Suspeito que o sargento Silva não seja um sargento mesmo. Deve ter feito a mesma coisa que eu.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Caralho. Porque eles fariam uma coisa dessas?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Voz de comando. Você mira na cabeça que o corpo cai. Os soldados sem comandantes se dispersaram e os infectados deram cabo da maioria.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Caralho. Acho que estamos indo pro buraco nisso de ir pro estados unidos.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pois é. Eu só to aproveitando a viagem no máximo possível. Brincando com essas gracinhas, matando uns zumbis. Espero que possamos sobreviver por lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isabela ficou em silêncio. Acho que por alguns momentos ela esqueceu de que quase todos os que passaram pelo caminho dela queriam matá-la. Infectados e humanos. Se é que podem ser chamados assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Então beleza. Quer ir lá pro topo de novo, Isa?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ah não. Quero deitar já. Se vamos chegar amanhã de manhã, é melhor descansarmos.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ta bem. Vai dormir não, Augusto?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vou, vou sim. Só to terminando algumas coisas aqui pra não ter que acordar no meio da noite.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tu quase não saiu daqui, cara. Devia pegar um pouco de ar puro.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Nah. To tranqüilo. Amanhã é ar puro e possivelmente tiroteio.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Espero que não. – disse Isabela.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que não? Então qual é a graça de o mundo ser invadido por mortos-vivos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não respondeu. Saímos. Despedimos-nos com olhares. Abracei Isabela enquanto andávamos pelos corredores em direção ao nosso quarto. Ela segurou minha mão.&lt;br /&gt;Entramos e deitamos. Na mesma posição de sempre. Beijei a testa dela e acabei pegando no sono rápido.&lt;br /&gt;Rodrigo entrou no quarto com uma garrafa de vodka na mão. Completamente bêbado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Caralho! Corre aqui. Vocês têm que ver isso! – disse ele aos berros e rindo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porra, cara. A gente chega no porto amanhã. Vai dormir! – respondi aborrecido.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não, não. O Felipe ta chapadão aqui. Aloprou, o maluco! – respondeu ele. – peraí. Chegar amanhã?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porque tu não avisou?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu soube ainda&amp;nbsp;há pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele caiu no quarto de cara no chão. Apagou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Fica aí dormindo, Isa. Vou carregar ele daqui e avisar aos outros. Tudo bem?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ta...&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;Ela me substituiu por um travesseiro tão naturalmente que me senti inútil. Arrastei Rodrigo pelo corredor até que ele acordou. Larguei a perna dele e ele sentou. Com meu apoio ele se levantou e me levou até o bar. Eu nunca havia entrado ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tomá no cu, rapá. Tu é militar e perdeu. Burro pra caralho. – gritou Felipe&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Hahahahahaha! Tu fez massete. Só pode! – Respondeu o sargento.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O truque é simples: você escolhe um oponente idiota e joga contra ele.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ah, vai à merda, seu bebum do caralho. Você é viciado.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu sou uma maquina de calcular. Sempre fui bom nisso. Eu calculei as variáveis do jogo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Diz aí. Porque que tu é viado.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que viado o que. Eu não sou humano, cara.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Hahahahahah! É de marte.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não seu animal. Eu só tenho corpo humano, mas sou um espécime defeituoso.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Como assim?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porra. Eu queria testar. Daí eu comi o puta. Foi uma merda. Daí eu comi um viado e também foi uma merda. Eu preferia nunca ter comido nenhum dos dois. Escolhi viver em ascese.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que porra é essa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele começou a falar alguma coisa impossível de entender. O sargento percebeu nossa presença e também começou a falar coisas incompreensíveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Só vim avisar que amanhã de manhã chegaremos no nosso destino. Augusto arrumou um jeito de acelerar o iate.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Aquela porra não é soldado nem fodendo. – disse o sargento.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vocês são todos um bando de filho da puta! Tomá no cu. – disse Felipe.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você também. – respondeu o sargento.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Claro! Eu também. Sou um grande dum filho da puta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felipe caiu no chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Esses moleques não sabem beber. Mocinhas do caralho. – disse o sargento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguei uma dose de vodka cheio até a metade e virei. Carregamos os dois para as camas. Felipe vomitou o corredor quase todo. Rodrigo conseguiu chegar no banheiro da suíte e vomitar no vaso. Demos bastante água pra eles e colocamos na cama sem banho. Eu é que não iria dar banho e marmanjo bêbado.&lt;br /&gt;Voltei pro quarto e Isabela tinha largado o travesseiro. Estava encolhida como um feto. Deitei e ela se acomodou na nossa posição sem nem acordar. Eu me senti um herói. Dormi. Dessa vez sem interrupções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recebi uma carta do inferno. Selada com a pele da testa de Mefistófeles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Encontrei o seu substituto. Não sei o que sentir a respeito disso. Não sei o que sinto, e se, depois de tudo isso, se ainda sinto alguma coisa. Talvez eu encontre um substituto para mim mesmo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui para a beira da praia onde eu morava. Precisava de roupas para chegar até minha casa, mas alguém as roubou de mim. Alguém começou a assoprar no meu ouvido. Identifiquei nesses assopros o ritmo de uma música do Linkin Park. O nome dela é Points of authority, mas por algum motivo, no sonho, eu a identifiquei como A place for my head.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Roberto. Ta na hora. – Isabela disse no meu ouvido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque ela falou no meu ouvido eu ouvi o som do ar saindo da boca dela. Fiquei aborrecido, porque no sonho havia alguém me incomodando com isso. Felizmente a primeira imagem que vi foi a dela. Isso me deu um vigor que nunca senti. Uma vontade de levantar pela manhã que não me lembro de algum dia ter sentido. Aliás, nessas circunstâncias tudo se complica. Estávamos prestes a sair atrás de um avião que pode já ter partido no ultimo local de resistência. Deve haver milhares, senão milhões de infectados nessa área. É um efeito em cadeia. Para cada tiro disparado, mais cinco surgem do nada. Se eles resistiram aqui por semanas, então provavelmente atraíram uma multidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que horas são?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Onze da manhã. Esperamos um pouco em alto mar porque os bebuns estão de ressaca.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não podemos esperar mais.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu sei. Só demos algumas horas pra eles dormirem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantamos e fomos até a mesa. Um ambiente um tanto peculiar. Augusto reclamando da irresponsabilidade dos outros. O sargento relativamente bem. Felipe totalmente bem, como se nem tivesse bebido. Se bem que o totalmente bem dele não é lá tão bem. Rodrigo não estava na mesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Seus animais. Porra! Eu dando duro pra salvar a gente e você atrapalhando tudo! Merda!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Augusto continuou reclamando enquanto comíamos. Depois que todos estávamos satisfeitos Rodrigo entrou. Reclamou da dor de cabeça e comeu tudo o que sobrou. Apoiou o braço na mesa e dormiu assim que terminou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não temos tempo para descanso. Se hidratem e vamos sair. – disse Isabela.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu deixei tudo organizado ontem. – disse o sargento. Ta tudo preparado. Não temos carro e não sabemos quantos infectados vamos encontrar. Então é melhor não carregarmos muita coisa. Só algumas barras de cereal e água. O peso das armas e da munição já vai ser grande o bastante. Isabela vai com duas pistolas pra aliviar o peso. O resto leva dois Ak cada um e o máximo de munição possível.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Beleza. O porto já foi avistado e o aeroporto fica a um quilômetro dele. A vegetação e o terreno não me permitiram verificar se ainda há algum avião lá. – disse Augusto&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vamos ter que tentar a sorte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rodrigo e o sargento tomaram uma pílula e energéticos. Pareciam abatidos pela ressaca, mas não fraquejaram. Com tudo preparado, o barco começou a se aproximar do porto. Minha barriga começou a gelar. Minha mão ficou suada. Isabela me abraçou um pouco e depois pegou as pistolas. Também estava muito nervosa. Todos estávamos.&lt;br /&gt;O porto foi projetado especialmente para aquele iate. Ele ancorou exatamente no local mais fácil de descermos. Havia uma guarida ali. Sangue seco no chão. Isso não era um bom sinal. Seguimos pela rua que levava até o aeroporto. Cheia de curvas. Havia dezenas de corpos mutilado e fuzilado por ali. Estavam podres e fediam muito. O local estava refleto de urubus que nos ignoraram enquanto passávamos. Felipe parou diante de um dos urubus e se abaixou. Olhou nos olhos do animal, que o fitou curioso. Ele sorriu e continuamos andando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Esse cara aí é meio piroca, em. Doidão. – comentou Rodrigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém respondeu. Continuamos até a entrada do aeroporto. Não estava trancada, mas não estava aberta ou mesmo danificada. Era uma grade alta. Continha duas placas. Uma avisando que era uma cerca eletrificada e outra para não ultrapassarmos, pois era propriedade privada. Rodrigo não leu a placa e meteu a mão da cerca. Sorte que não estava energizada. Entramos e o aeroporto estava deserto. Só havia um avião num canto. Constatamos que era um avião fora de funcionamento. O pânico começou a tomar conta de mim quando ouvi um grito de jumper distante. Fora por outra estrada, estávamos cercados por floresta. Não havia como saber de onde eles viriam. Ou se viriam. Talvez o silêncio os mantivesse longe. Subimos na torre de comando para ver se havia algum outro avião ou um abrigo por perto. Para a nossa surpresa e desespero, tudo em volta estava destruído ou era mata fechada. Tropecei e caí em cima de um equipamento. Uma sirene se acionou e tentamos de todos os jeitos parar o barulho. Augusto descobriu que era um alarme e pedia uma senha de quatro dígitos. Tentou a todo o custo acertar a senha. Conseguiu depois de dez minutos tentando. Meus ouvidos ficaram com um zunido por causa do volume do barulho.&lt;br /&gt;Ouvi um jumper próximo. Lentamente começaram a se acumular infectados em volta de todo o aeroporto. Por todos os lados. Trancamos o portão por onde entramos e a outra entrada. Augusto conseguiu ativar um gerador que energizou as cercas, mas os monstros não desistiram de se jogar contra elas. Às vezes eles ficavam presos tremendo. Também eram lançados longe com freqüência. Quebraram o portão por onde entramos e tivemos que atirar. O barulho atraiu mais mortos. Estávamos completamente cercados sem nenhum lugar para correr.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Esse é o fim. – disse Felipe. – estamos mortos. Finalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tinha como discordar. Um jumper pulou a cerca, mas conseguimos derrubá-lo. Ficamos próximos e formamos um circulo. Atirávamos para todos os lados. Não tinha como fugir de volta para o barco. Felipe correu para a entrada de onde viemos e parou os monstros. O fitavam espantados, como se ele fosse perigoso. Nunca vi os monstros com aquela cara. Ele ficou apoiando num joelho com as mãos para frente. Não tirava os olhos dos monstros. Eles não se moviam. Um final feliz?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4664356695252564512-5185537090399991485?l=biohazardalimpeza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://biohazardalimpeza.blogspot.com/feeds/5185537090399991485/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4664356695252564512&amp;postID=5185537090399991485' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4664356695252564512/posts/default/5185537090399991485'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4664356695252564512/posts/default/5185537090399991485'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://biohazardalimpeza.blogspot.com/2009/11/capitulo-16.html' title='Capítulo 16'/><author><name>Silas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08560610846360060486</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/ScXDtIGMN9I/AAAAAAAAABQ/YF39-2VxJ3k/S220/zumbi.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/SwcB9Ds5nMI/AAAAAAAAATQ/nHJWY0_0ghk/s72-c/nascido_das_chamas.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4664356695252564512.post-5875076746197618342</id><published>2009-11-15T06:39:00.000-08:00</published><updated>2009-11-15T06:39:40.898-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Capítulo 15'/><title type='text'>Capítulo 15</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/SwASk-YKpQI/AAAAAAAAATI/bYefP35WN6Q/s1600-h/carro+velho.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/SwASk-YKpQI/AAAAAAAAATI/bYefP35WN6Q/s400/carro+velho.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O lar de um carro é sua garagem. Às vezes é só uma cobertura que o protege da chuva, outras vezes é um espaço amplo e fechado, com portas automáticas e ambiente arejado. Um carro sem garagem é como um pássaro sem ninho. Não pode fazer nada além de definhar. Tudo aquilo que tem valor precisa de um lugar para ser guardado. Se não temos um lugar para guardarmos a nós mesmos, ficamos enferrujados com a chuva e queimados com o sol. Nós não encontramos nenhum lugar para recostar a cabeça. O maior problema de muitas pessoas é que elas simplesmente não possuem um lar. Um lugar seguro, um refúgio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O menino estava na rua depois do colégio. Sua mãe o havia mandado ir para casa tomar banho, mas ele insistiu em ficar na rua. Estavam brincando de polícia ladrão. Ele era um dos poucos naquele lugar que sempre queria ser policial. Moda ali era ser bandido. A mãe saiu de casa atrás do menino. Não era pra ficar na rua até tarde. Ela sempre dizia pra ele voltar pra casa e ele sempre insistia em não voltar. Os policiais chegaram, e o menino quis brincar com eles. Eram seus heróis, diferente da imagem que os outros meninos tinham. Para os outros, os policiais eram maus. No final das contas, todos eram maus, mas os meninos queriam acreditar que um lado era melhor. A mãe saiu de casa e foi até o carro. Era bem velho, mas funcionava. Naquela rua ela era a única que tinha carro. Diziam que ela era mulher de gringo. Quando ela saiu e viu os policiais o seu rosto passou de moreno para branco. Gritou para o menino entrar e ele correu até ela. Ele ia pedir para não ir pra casa ainda. Quando ele chegou perto da mãe ela o tiroteio começou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pra casa! Você tem que ir pra casa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O menino saiu correndo pelas vielas. Não Foi pra casa. Escondido ele viu a mãe ser rendida e revistada ao lado do carro. Os bandidos lançaram uma rajada de tiros e os policiais foram acertados. Mas ele não prestou atenção nos policiais. Sua mão foi atingida no olho esquerdo. A bala atravessou a cabeça e não quebrou o vidro de carro. Ele ficou ensopado de sangue e alguma coisa viscosa. O menino fugiu. Ele nunca mais entrou em casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jack acordou na cabana onde dormia com Kimberly e Cat.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sonhou com o menino de novo? – perguntou Kimberly.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sim. Fiz barulho?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não muito. Você ficou dizendo “vai pra casa” repetidamente. Imaginei que fosse esse mesmo sonho.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu costumava ter esse mesmo sonho quando era mais novo, mas desde que entrei pra Interpol ele parou. Só agora que ele voltou.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É. Você me disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um soldado veio chamá-lo. Nos últimos dias Jack estava trabalhando com o exercito americano. Tentava a todo o custo amenizar os conflitos entre os refugiados da América do sul e dos estadunidenses. A princípio pensavam que se tratava de problema de comunicação. Que se tratava de algum mal entendido. Mas logo ficou claro que eles formaram como que clãs no campo de refugiados e começaram a matar uns aos outros. Segundo consta, isso era devido á escassez de suprimentos. Mas esses suprimentos vinham aos montes dos mercados. Poucos cidadãos conseguiram se salvar, e muitos foram mortos por engano quando tentava entrar no campo de refugiados. Os soldados estavam começando a se negar a proteger os refugiados estrangeiros. Alegavam que não era seu dever. Mas o problemas daquela manhã era outro.&lt;br /&gt;Segundo explicou um soldado, um sujeito Brasileiro estava gritando de manhã cedo e acordando os civis. Ele estava no meio dos americanos, que focavam mais distantes da cidade, na estrada. Jack o abordou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mary!! the virgin!!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Amigo. Falo português. Qual foi o problema?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Graças a Deus! Eu encontrei a nossa salvação! A nossa salvação!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Senhor. Acalme-se e explique o quer dizer.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu vi a virgem maria na estrada. Havia pelo menos cem deles atrás de mim e essa mulher surgiu na minha frente. Mulher não, a virgem. Ela levantou a mão direita e todos eles pararam. Ela sorriu para mim e me levantou do chão. Ela segurou cem daqueles monstros sem nem encostar neles!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O senhor tem se alimentado apropriadamente?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sim senhor.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tem usado algum tipo de entorpecente? Soube que muitos tipos de droga têm transitado livremente pro aqui.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu não uso essas coisas. Sou católico.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Veja só, senhor. Sei que está muito traumatizado com tudo isso. Distúrbio de estresse pós-traumático é comum apresentar casos de alucinação.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não é alucinação, senhor. É a Virgem. Ela está aqui para nos salvar!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu acredito no senhor. Na verdade isso que eu falei é o que você tem que dizer pra eles. Eles não são capazes de entender isso. Garanto que a Virgem virá nos salvar, quer eles acreditem, quer não. Não precisa gritar. Isso te coloca em perigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem as acalmou. Só queria que alguém o ouvisse. Jack não acreditava numa palavra do que disse, mas falou para dar esperanças ao homem. Afinal, quem era ele para tirar os sonhos de um homem? Se ele era louco, mas estava radiante, que necessidade havia de trazê-lo á realidade. Isso não seria mais do que um ato de rancor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você pensa que eu sou louco, não pensa? – perguntou o homem.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu? Eu penso que eu sou louco. Quanto ao senhor, ainda temos que verificar.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Hehehe. Você é um bom homem. Eu sei que não acredita em mim. Eu também não acreditaria sem ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficaram por um tempo em silêncio, e com um aperto de mão se despediram. O homem andou com um sorriso nos olhos que chegava a incomodar os soldados próximos. O xingaram, mas ele não entendeu. Parece que cada um lida com essa tragédia de maneira diferente. Jack o seguiu. Descobriu que morava numa barraca com mais duas pessoas. Não conhecia, mas estava sozinho e tinha que dividir. O lado da América do sul estava caótico. As pessoas pareciam estar em clima de conflito naquela manhã. Algo as segurou, aparentemente, pois só latiram. Mas Jack sabia que aquilo não duraria muito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É o seu dia de folga, Jack. – disse Kimberly.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu sei, Kim. Mas eu tenho que fazer alguma coisa. Essas pessoas vão e matar.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você vive sempre ocupado com os outros. E você, como fica? Eu quero conversar com você.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sobre o que?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vamos pra nossa barraca?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jack olhou para as pessoas. Estavam como que se preparando para um conflito. Ele notificou os soldados para que controlassem qualquer conflito. Estava encarregado daquela área. Entraram na barraca. Era bem espaçosa, mas viver ali era difícil. Tinham que sair para um lugar separado para usá-lo como banheiro. Além de ter um cheiro podre, era distante. Banho eles quase não tomavam. Só quando os militares davam o banho coletivo. Algumas pessoas desavisadas tentaram tomar banho no rio Hudson, que ficava a alguns quilômetros dali. Mas era um rio podre. Não só poluição. Passavam cadáveres boiando ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; To preocupado com você, Jack.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porque?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Por causa desses pesadelos.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ah sim. É que eu preciso me mudar.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Como assim?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Desde que me entendo por gente, lá pros sete anos, eu me mudava pelo menos uma vez por ano. Às vezes duas vezes num ano. Eu tinha esse mesmo pesadelo, mas quando me mudava eles paravam. Só preciso sair daqui.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas porque tem que se mudar?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sei lá. Tem essas doideiras na minha cabeça. Eu fico desesperado pra voltar pra casa, mas sempre que eu consigo uma casa ela me apavora e eu tenho que sair. Sempre que eu penso que estou indo para casa eu me apavoro e me mudo. Eu sou maluco mesmo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você lembra da sua mãe?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Muito pouco. Sei que ela era morena e tinha cabelos cacheados. Tenho uma foto. Mas parece que com o tempo as imagens dela foram desaparecendo da minha mente. Eu tive que deixar ela ir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um soldado veio chamar Jack novamente. Parece que estavam fazendo algum tumulto no lado da América do sul. Jack foi lá para dizer o que estavam dizendo. Pareciam ameaçadores, segundo os soldados, e parece que as armas estavam circulando na mão de civis. Poderia estar planejando algum motim. Jack se desculpou a Kimberly com um olhar. Ela estava chateada por ele aceitar trabalhar em dia de folga. Ele seguiu o soldado e chegou até uma pequena multidão que se reunia para ouvir um homem falar. Ele estava em cima duma pedra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Esses americanos são uns idiotas! O mundo acabou e eles ainda acham que isso aqui é deles. Eles que se fodam!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pessoas gritaram. Começaram a se aglomerar. O homem que fez gritaria do lado dos americanos sobre ter visto a virgem Maria se aproximou da pedra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vocês não precisam se preocupar. A virgem foi mandada por Deus à terra. Ela acabará com toda essa destruição e teremos uma vida próspera. Só temos que ter paciência e tudo vai se resolver.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você é doente mental, velho? Acha que alguém aqui acredita nessa merda? Meu amigo, se deus existisse ele não deixaria minha filha ser devorada e minha mulher ser fuzilada. Deus é que se foda, não podemos depender de um amigo imaginário. Se não agirmos agora, nem a virgem e nem deus nos salvará. Está tudo planejado. Amanhã de manhã atacaremos e tomaremos esse lugar. Eu prefiro morrer a ter que viver assim como um escravo nas mãos desses filhos da puta.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Se você atacarem, certamente morrerão. – respondeu o velho com calmo e determinação. – não conseguem vem um palmo além do seu próprio nariz.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não, senhor. Se nós não atacarmos nós morreremos. Por mais que você prefira ser omisso e viver em ilusões vazias, nós decidimos lutar. É a nossa escolha e salvará a sua vida.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ele está certo. – disse Jack. – vocês não têm chance. Vai ser um massacre.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Já é um massacre Jack. Vai fazer o que? Vai falar pra eles? Vai entregar a gente?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não preciso. Eles podem sentir. Os armamentos deles são mais poderosos. Não faça isso.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu vou agir como se o seu conselho fosse sábio. – disse o homem na pedra assumindo um tom calmo. – e todos nós vamos dormir hoje calmamente, como se você tivesse nos mostrado como o nosso plano é absurdo. Mas amanhã de manhã bem cedo nós sairemos e lutaremos pela nossa liberdade. Nós nos recusamos a aceitar essa tirania. Não mais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pessoas obedeceram cegamente. Jack não entendia como tanta gente estava se prestando a obedecer aquele homem sem que nenhum questionamento fosse levantado. Imaginou que ele era muito persuasivo ou que ele estivesse apenas colocando para fora o que estava dentro da mente de todas aquelas pessoas. Ele não ia entregá-las, porque sabia que no fundo tinham alguma razão. E se os entregasse eles morreriam sem nunca ter lutado pro sua liberdade. Apesar disso, parecia loucura para ele que mesmo depois de tanta destruição as pessoas ainda estivesse pensando sem e matar. Na verdade, pensando melhor, ele concluiu que depois de tanta destruição a batalha foi a única coisa que restou na mente dessas pessoas. De qualquer maneira, já estava mesmo chegando a hora de partir. Aquela cabana estava se tornando um lar e ele precisava encontrar uma maneira de escapar. A voz interior dele já estava indicando que a hora de partir era eminente.&lt;br /&gt;Um avião chegou ao local. A comunicação foi cortada e o pessoal da ONU provavelmente só estava fazendo o planejado. Chegaram com um avião vindo do Brasil. Jack foi até lá, porque era ele que lidava com os refugiados da América do sul.&lt;br /&gt;O avião pousou e fez meia volta no solo. Se dirigiu para o ponto de desembarque. Os americanos protestaram contra a chegada de mais “cucarachas” e os refugiados da América do sul não deram muita atenção ao evento. Estavam se organizando. Os soldados levaram os novos refugiados junto com o piloto e o co-piloto para a estrada. Encheram dois ônibus e seguiram. Curioso e imaginando que se tratava de um novo campo de refugiados, o que poderia resolver os conflitos, Jack conseguiu um jipe e foi atrás dos ônibus. Atrás dele veio um caminhão cheio de soldados. Ele não sabia que estavam cheio.&lt;br /&gt;Chegaram num ponto da estrada onde um grande acidente impedia a passagem. Uma carreta estava tombada com alguns carros engavetados. Já há muito tempo não tinha fogo ali. Os ônibus pararam e os refugiados foram ordenados a sair do ônibus. Um soldado pegou um detector de metal e começou a examinar um deles. Deu sinal e outro soldado fuzilou o sujeito. Alegaram que estava infectado. Jack protestou contra aquilo e o Major o chamou para conversarem. Havia um campo de golfe ali perto e eles andaram na direção dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Estou certo de que você, como cidadão americano, percebe o absurdo de mantermos esses cidadãos aqui. Veja só, eles deveriam ter ficado no novo México, mas por algum motivo aquela área foi considerada pouco segura. Um absurdo, porque isso não impediu eles de manterem os cidadãos americanos morando nessa área de risco. Esse governo foi muito estúpido e deu prioridade aos refugiados em lugar de proteger os cidadãos da nossa nação. Filho, eu não paguei meus impostos para sustentar refugiados de outros países. Por favor, não interfira. Estou percebendo que um conflito pode começar em breve porque eu vi aquela confusão que aconteceu na área dos sul-americanos. Estão começando a pensar em rebelião, e sei que em breve poderão ser um risco. Não quero que o número deles aumente, então decidimos dar cabo nesses aqui. São muito poucos os sobreviventes americanos e queremos honestamente protegê-los. Você pilota, não é?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sim, senhor. – disse Augusto ainda meio tonto depois de ouvir tanta coisa. – piloto aviões e helicópteros.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sorte a nossa que temos um cidadão como você. Então, filho. Está conosco?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sim, senhor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele estava mentindo, mas parece que o major não percebeu. Ouviram mais tiros e pessoas gritando e chorando. Jack começou a sentir um desespero imenso dentro de si e para aplacar tal sensação ele começou a falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não é perigoso andarmos por aqui?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Nós patrulhamos a área. Está limpa. Você está mesmo conosco, filho?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O senhor não confia em mim?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu precisei confirmar porque as informações que vou te passar agora são sigilosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os sons de tiros únicos mudaram. Nesse momento começaram a metralhar. Alguns fugiram na direção do mesmo campo de golfe. O Major mirou na cabeça de uma mulher que se aproximava e atirou. Acertou em cheio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Jesus Cristo. Parecia infectada! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não esboçava nem uma sombra de culpa por ter matado aquela mulher. Dava pra perceber pelo olhar dele que ele achava estar fazendo o certo. Achava que era seu dever lutar por sua nação. Jack não pensava assim e sua aversão aumentava. Por outro lado, ele também não queria se unir aos outros refugiados. Ele não queria nem estar ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Então, filho. Recebemos notícia de que há uma base no Canadá que está bem protegida contra essas ameaças e que querem militares e civis para ocupá-la, pois tiveram severas baixas e o local está vazio. Eles necessitam de olhos e de pessoas para trabalhar lá. Formaram uma nova sociedade. Nós tivemos que matar os pilotos desse avião e você será nomeado o piloto oficial.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É uma honra, senhor. Mas precisamos verificar a situação com o combustível. Preciso saber a que distância essa base fica daqui para saber quanto gastaremos. Sei que temos aqui um estoque de combustível de avião. Agora entendo porque o coletaram.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vamos à minha sala e eu te mostrarei as coordenadas do local. Ele possuem inclusive um aeroporto exclusivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois deram meia-volta e foram caminhando em direção à estrada. Os homens estavam empilhando os corpos para queimar. Jack estava profundamente abalado com aquilo, mas não disse nada. O major parecia olhar para ele num tom de orgulho. Os outros soldados olhavam para o major com um respeito que irradiava pelos seus semblantes. Ele era como um deus para aqueles homens. Pareciam estranhos para Jack aqueles olhares. Eles brilhavam como se estivesse lutando pelo seu lar, e por esse lado ele não os desprezava. Mas por outro lado ele sentia repulsa da matança de inocentes. No fundo ele não sabia se faria isso por sua casa. Afinal, ele tinha aquela vontade de encontrar seu lar. Será que, ao encontrá-lo, ele não faria atrocidades para defendê-lo?&lt;br /&gt;Chegaram no acampamento e Jack foi até o escritório do Major, que era basicamente uma barraca com estrutura melhor e maior. Lá dentro ele ligou um notebook e mostrou num mapa onde era o lugar. Jack sabia que era bem próximo, pois se encontrava no sul do Canadá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você não acha apropriado trocar de tenda, já que os outros refugiados podem ser hostis com você?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sim, senhor. Amanhã eu gostaria de ser realocado de lá. Preciso conversar com a minha mulher hoje e explica tudo antes de simplesmente sair.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É sua esposa, ela?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sim, senhor.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porque não têm aliança.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Nós estávamos divorciados, mas voltamos depois dessa tragédia.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que bom que isso tudo te fez voltar pra sua esposa. A minha estava fazendo intercâmbio em Paris para aprender a falar francês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jack estava mentindo descaradamente, mas sentia que se não disesse essas coisas eles poderiam considerar Kimberly supérflua. Apesar de dizerem que queriam salvar o povo estadunidense, era óbvio que os militares e suas famílias eram prioridade. Os infectados de Nova Jersey, que era ali perto, chegariam em breve ao acampamento e era necessário fugirem rápido. Em caso de imprevisto, os civis seriam descartados. Depois dos cumprimentos normais, o major falou mais uma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; A partir de hoje o senhor é tenente do exercito americano. Nós somos uma grande família, e você verá. Somos todos filhos dessa nação. Nós protegemos nossos irmãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá fora ele percebeu que sua nomeação só era novidade para ele. Todos já o reconheciam como tenente a muito tempo por sua coragem e capacidade de planejamento estratégico. Com cumprimentaram com a reverência própria dos militares, ao que ele respondeu naturalmente. Já havia servido o exército antes.&lt;br /&gt;Depois de receber a parabenização de todos e de todas as formalidades ele ganhou uma garrafa de vinho e voltou para casa. Sua cabana. A idéia de estar voltando para casa o aterrorizava, mas ele sabia que era a ultima noite. Isso o confortava. Mandaram um soldado para escoltá-lo e protegê-lo e eventuais hostilidades por parte dos refugiados.&lt;br /&gt;Dentro da cabana, Kimberly o recebeu com hostilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não acredito que você ficou tanto tempo fora. Você não pode deixar eles te explorarem assim!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Querida, eu fui promovido à tenente. – disse ele pedindo para ela ficar em silêncio. – pegou um caderno e uma caneta. Escreveu para ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não faça nenhum barulho. Daqui a pouco você precisa dar leves gemidos. Eles mataram todos os novos refugiados e planejam ir embora daqui e deixar todos para morrer. Os refugiados amanhã cedo vão começar um motim e vai ser uma zona de guerra aqui. Nós precisamos sair daqui o mais rápido possível.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kimberly ficou agitada e Cat percebeu. Começou a miar. Ela pegou o caderno e começou a escrever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Porque estamos só escrevendo ao invés de falar?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela começou a dar leves gemidos e ele a acompanhou. Pareberam que o soldado reagiu aos gemidos. Parecia estar rindo lá fora. Jack voltou a escrever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“porque eles pensam que estou do lado deles, mas não podem ouvir isso que tenho a dizer. Amanhã de manhã eu vou instruir alguns soldados para encherem o tanque do avião e aí nós partimos daqui pro Brasil.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela pegou o caderno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Porque o Brasil”?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele tomou de volta, mas demorou a escrever. Deu um beijo no pescoço dela para fazer o barulho e isso criou um clima entre os dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não sei. Mas temos que ir pra lá. Eu sinto.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela pegou o caderno da mão dele e também lhe deu um beijo. Depois deu outro e largou o caderno. Começaram a se beijar apaixonadamente. Uniram-se por ironia do destino enquanto tentavam escapar dos mortos vivos e agora estavam se agarrando no colchão da barraca. Eles não se amavam propriamente. Só estavam com muito tesão.&lt;br /&gt;Jack sempre fazia exercícios físicos e por isso se mantinha bem forte. Além de ser musculoso ele era grande, e isso despertava algum desejo nele. Ela, em contrapartida, em bem baixinha e loira. Tinha olhos esverdeados e um cabelo curto. Cortou quando já estava no acampamento. Sua característica marcante era os lábios. Carnudos.&lt;br /&gt;Na verdade era precisamente o tipo de mulher que Jack gostava. Ele não tinha pensado nisso com atenção até aquele dia porque estava ocupado demais com os monstros. E naquela noite ele também não pensou em nada. Só agiu.&lt;br /&gt;Eles usavam uma roupa padrão. Muito fácil de tirar e colocar. Quase descartável.&lt;br /&gt;Jack tirou a blusa de Kimberly e apalpou seis seios. Tão pequenos em relação àquelas mãos enormes. Fez movimentos circulares e depois colocou o rosto entre eles, beijando-os e depois subindo até o pescoço, depois até a orelha e finalmente à boca. Aqueles pequenos lábios carnudos. Afinal, onde ele estava com a cabeça que nunca fez aquilo antes?&lt;br /&gt;Apesar de ser pequena, Kimberly gostava de dominar. Segurou Jack pega blusa e o colocou deitado na cama. Ele segurou a cintura dela enquanto ela tirava sua camisa. Levantou os braços e ela a tirou fora.&lt;br /&gt;Ela o beijou inteiro, desde o umbigo até o pescoço, e depois voltou a descer. Puxou a calça dele. Era bem frouxa e saiu facilmente. Ele já estava no ponto, mesmo com todo aquele volume. O tempo que ele ficou em abstinência o fez se excitar facilmente.&lt;br /&gt;O histórico dela era bem sombrio. Ela sabia muito. Chupou com vontade, como uma mulher que realmente está familiarizada com isso. Lambeu com vontade de cima à baixo. Jack gemeu de verdade e em bom som. As mãos dela eram bem pequenas e macias. Junto com a boca, elas deixavam Jack louco. Ele estendeu as mãos e segurou a cabeça dela. Depois de algum tempo curtindo, ele puxou delicadamente Kimberly para si, ao que ela já veio em seu encontro. Ela tinha um sorriso diferente no rosto. Com os olhos meio fechados.&lt;br /&gt;Por mais que estivesse relativamente frio, eles já estavam suando. Ele tirou o sutiã dela com facilidade. Eram seios lindos. Bem firmes e com tetas rosadas. Bem do jeito que ele gostava. Meteu a cara entre eles de novo enquanto ela tirava a calça junto com a calcinha. Com facilidade ele a ergueu e ficou em cima dela. Ela gostou de ser dominada.&lt;br /&gt;Ele desceu por aquele corpinho bem formado dela. Quem diria que ele salvaria uma garota tão gostosa?&lt;br /&gt;Ela tinha pernas grossas, mas não grossas demais. Eram bem fortes. Provavelmente ela malhava com freqüência. Seus braços, em contrapartida, eram delicados, e suas mãos também. Ele beijou as mãos dela e depois o pulso e subiu pelo braço. Beijou a boca dela e depois desceu pelo pescoço até os seios. Passou pelo umbigo e desceu até a boceta. Tinha algum pelo, mas ele sabia que antes era depilada. Aquilo era devido às circunstancias.&lt;br /&gt;Ele chupou com vontade. Com os braços segurando as pernas dela e as mãos dela sobre sua cabeça. Lambeu de cima à baixo. Ela também gemeu, e em resposta a isso a sombra do soldado sumiu da frente da cabana.&lt;br /&gt;Kimberly gozou na boca dele. Ele percebeu pelos movimentos que ela fez com a perna e o som rouco que ela fez com a boca. Parecia estar segurando um grito.&lt;br /&gt;Ele subiu e entrou nela. Foi bem rápido, parecia já não agüentar mais esperar. Ele a beijava pouco nesse ponto, apesar de ela parecer querer mais beijos. Ele não conseguia perceber muita coisa. Estava extasiado.&lt;br /&gt;Alternaram entre diversas posições, dentre as quais algumas eram bem exóticas. Coisa da Kimberly. Transaram por quase duas horas, até que já não tinham mais fôlego. Não deram muita atenção, mas Jack gozou dentro duas vezes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Caralho, como eu queria um cigarro. – Disse Kimberly.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você vai ser tratada como minha esposa enquanto estivermos aqui. É melhor pra sua segurança. – sussurrou Jack&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tá. Você viu o Cat?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Acho que fugiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kimberly colocou a cabeça para fora da cabana e viu o soldado com o gato nas mãos. Ele trouxe de volta para ela, tratando-a com certo respeito, embora estivesse impresso no olhar dele o reflexo de seus pensamentos.&lt;br /&gt;Não estava muito tarde. Não estavam com relógio, mas estimavam que fosse lá pras dez da noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Amanhã nós vamos pegar o avião e ir embora daqui. – sussurrou Jack.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ta bem, mas vamos pra algum lugar melhor. As praias do Brasil não devem estar boas pro bronzeado com essas coisas soltas por aí.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Tem que ser lá.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Bem, esse sua intuição já nos salvou uma vez. Ficar aqui é que eu não quero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dormiram abraçados. O gato encontrou uma maneira de se meter no meio dos dois. Jack o envolveu com o braço esquerdo enquanto dormia e ele se acomodou. Uma família feliz?&lt;br /&gt;Dormiram bem naquela noite até dar três e meia da manhã. Novamente Jack teve o pesadelo. O menino tinha que ir para casa e a mãe dele morreu. Mudou um pouco. O menino não mais se escondia depois. Dessa vez ele ficou exposto, embora nenhum tiro o tenha atingido.&lt;br /&gt;Jack levantou num pulo e Cat arranhou seu braço. Ficou assustado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; De novo esse sonho, Jack? A gente tem que conversar melhor sobre isso.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Volta a dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jack colocou a cabeça dela na bochecha e ela voltou a dormir rapidamente. O gato voltou para perto ao perceber que não havia perigo, mas não se deixou envolver. Só ficou deitado no colchão com a cabeça relativamente virada para cima. Era esperto, mas muito desconfiado. Os vizinhos de Kimberly não gostavam dele. Jack cochilou até as seis. Quando levantou foi num susto. Estava apavorado. Como se estivesse extremamente atrasado, despertou Kimberly e mandou ela se vestir. Ela se vestiu e arrumou o cabelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não temos tempo de arrumar as coisas. Temos que ir embora. – disse ele.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sem problemas. Nem tenho nada pra levar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles saíram da barraca e o soldado o cumprimentou. O seguiu te o aeroporto e lá havia mais três de guarda. Jack convocou os quatro soldados para ajudá-lo a encher o tanque do avião. Eles estavam estranhamente habituados com aquilo, embora seu uniforme fosse o das forças armadas terrestres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tenho ordens do Major para posicionar o avião e deixá-lo pronto para decolar. Parece que os refugiados estão preparando uma rebelião hoje. Fiquem alerta e não deixam ninguém se aproximar do avião.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sim, senhor. – responderam os soldados.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vou levar minha esposa. Ela ta doida para ver como é o avião. – disse Jack.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Desculpe, tenente, mas o major não permite a entrada de civis no avião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kimberly fez cara de criança que não ganha brinquedo e Jack falou com o soldado que o vigiou no turno da manhã. Ele ouviu sobre a noite do outro soldado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Cara, ela está querendo dar uma dentro do avião. Ela tem fetiche com essas coisas, sei lá.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vai transar com o gato também? – perguntou o soldado rindo e sussurrando.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pois é, cara. É maluca, ela. Quer transar, mas trás o gato. – respondeu Jack rindo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Cuidado, senhor. Esse gato quer roubar é a tua mulher. Fica de olho não pra você ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O soldado foi até os outros e contou sobre a suposta intenção de Jack. Olharam para eles e Kimberly estava beijando Jack. Não desconfiaram de Jack que tantas vezes arriscou a vida por eles. O deixaram entrar com a condição de que se o major ficasse sabendo ele assumisse a responsabilidade.&lt;br /&gt;Ele aceitou os termos e subiu no avião com Kimberly e Cat. No fundo ele se sentia mal por trair a confiança dos soldados.&lt;br /&gt;Os soldados prepararam a parte externa do avião e fecharam a entrada de combustível. O tanque estava cheio. Jack posicionou o avião na pista pronto para decolar e esperou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; E agora? – perguntou Kimberly.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Agora a gente espera.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Por quê?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vai começar a matança lá no acampamento logo, logo. Se tentarmos decolar agora eles derrubam a gente.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ah...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo depois que ele começou a falar isso ouviu-se o som de três explosões consecutivas. Explodiram as metralhadoras maiores. Jack olhou pelo vidro do avião e viu os soldados ainda ali defendendo o avião até que um sargento os convocou e eles foram correndo para o acampamento. Jack ligou as turbinas e acelerou. Tudo em bom funcionamento. O avião decolou e ele imediatamente deu meia volta. Lá em baixo eles viram o caos. Os infectados invadiram o acampamento. O major tentou atirar no avião com um anti-aéreo, mas um jumper pulou sobre ele e o derrubou. Eram milhares de infectados e pessoas se matando. Numa certa altitude eles não eram mais capazes de dizer quem eram os humanos. Mais uma vez Jack deixou um falso lar para trás e sua busca por sua verdadeira casa estava por começar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4664356695252564512-5875076746197618342?l=biohazardalimpeza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://biohazardalimpeza.blogspot.com/feeds/5875076746197618342/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4664356695252564512&amp;postID=5875076746197618342' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4664356695252564512/posts/default/5875076746197618342'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4664356695252564512/posts/default/5875076746197618342'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://biohazardalimpeza.blogspot.com/2009/11/capitulo-15.html' title='Capítulo 15'/><author><name>Silas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08560610846360060486</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/ScXDtIGMN9I/AAAAAAAAABQ/YF39-2VxJ3k/S220/zumbi.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/SwASk-YKpQI/AAAAAAAAATI/bYefP35WN6Q/s72-c/carro+velho.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4664356695252564512.post-8827653304636408092</id><published>2009-11-12T10:54:00.000-08:00</published><updated>2009-11-14T16:23:15.999-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Capítulo 14'/><title type='text'>Capítulo 14</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/SvxZ3hOx3-I/AAAAAAAAAS0/z8IkAGYgw8k/s1600-h/nao_me_abandone.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/SvxZ3hOx3-I/AAAAAAAAAS0/z8IkAGYgw8k/s400/nao_me_abandone.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;As coisas mais importantes da vida passam diante dos olhos de quem busca um sentido. Elas passam despercebidas. Por que o homem busca apenas fora de si a iluminação, mas no mundo só vemos trevas. Com a idéia de que não pode se iludir, o homem busca ilusões. Com a idéia de que deve se iluminar, o homem se mergulha nas trevas. Tal é o fardo da humanidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felipe subiu no telhado e olhou as pessoas se destruírem. Com seus olhos fixos, só havia um pensamento em sua mente. Isso não podia ter acontecido. Ele nunca devia ter nascido. Maldito o impulso dos seus pais que o colocaram no mundo por acidente. Tudo é desordem, a natureza é perniciosa. É o destino da humanidade encontrar a destruição. É o que a humanidade merece.&lt;br /&gt;Ele decidiu descer e deixar os monstros o devorarem. A vida nunca teve sentido, de qualquer maneira. Acabar com ela seria por fim ao sofrimento. Ele pegou sua filmadora e gravou uma fala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu não grito apavorado. Já vivi o bastante na beira do abismo para saber lidar com a dor de existir. Essa dor que parece não tem fim. Mas eu não tenho forças para enfrentar essa vida. Eu sou um ponto fraco da natureza doente. E os mais fracos morrem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele saiu e se deparou com o monstro que começou tudo aquilo. Caiu justamente do telhado onde ele estava. Quer dizer que, querendo ou não, ele morreria. Irônico. O monstro parou diante dele e o avaliou. Diante de seu olhar vazio, o monstro deu um grito estranho. Parecia o estar convocando. Vai ver pensou que ele era um zumbi. Ele continuou parado diante do monstro. Esperando a morte, o alívio. O monstro continuou o convocando com os berros com os quais ele costumava convocar outros infectados. Um deles, ali perto, atendeu o chamado. Felipe quis acelerar o processo e falou. Falando ele demonstraria que não era um zumbi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu não posso ser convocado. Eu não sou um de vocês. Na verdade eu não sou um de nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O monstro o fitou com olhar curioso, e ele acabou ficando também curioso. As feras não o atacavam. Por algum motivo elas simplesmente o olhavam. Queria entender o que ele era.&lt;br /&gt;Antes de ele voltar a falar um barulho de carro. Era um fusca. O carro do pai dele. Eles chegaram do passeio. Outro carro os seguia. Estava atirando. Um carro militar. Felipe correu em direção ao carro e abriu a porta do passageiro. Sua mãe caiu na rua. Foi baleada. Saia sangue pela boca dela. Ela não falou nada, mas tinha os olhos cheios de lágrimas. Só uma escorreu. Ela balançava a cabeça, como quem que negar alguma coisa. Não aceitava a morte? Felipe não teve tempo para pensar. Um bala penetrou a janela dos fundos do fusca e matou seu pai. Seu irmão saiu do carro e correu para dentro da loja. Felipe ficou parado. Talvez os militares o ajudassem a morrer. Mas o monstro líder atacou os militares. Eles quase foram cercados e fugiram. Seu irmão subiu no telhado e o monstro subiu até lá num salto. Acertou o rosto dele com o cotovelo. O rapaz girou e caiu do telhado de cara no chão. Era difícil dizer se foi a queda ou o impacto que destruiu o rosto dele. Estava irreconhecível. Quase: era posssível identificar pelo sinal que ele tinha perto do ouvido. Mas quem o identificaria? Todos estavam mortos!&lt;br /&gt;Ele não era particularmente ligado à sua família, mas vê-los morrer aumentou o vazio dentro dele. Aumentou o sentimento de miséria que ele sempre carregou consigo desde que descobriu que a existência não tem nenhum sentido. Que tudo é banalidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fernanda e André passaram pela estrada e, depois de uma curva fechada, receberam rajadas de tiros. Os dois pneus da frente furaram e o motor foi danificado. Fernanda virou o carro para a esquerda e capotou. O carro estava bem rápido e deu varias voltas. Acabou de cabeça pra baixo e virado para o lado contrário do qual original. Talvez por milagre, os cintos e os airbags os protegeu. Nem desmaiaram.&lt;br /&gt;Fernanda saiu pelo lado do motorista, que ficou para o lado da floresta, e André pelo outro, que ficou de frente para aquela estranha fortaleza. André esteve ali a três dias e não havia nada semelhante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Hey, look! The bastard managed to survive!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Well, shoot him, then!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os soldados abriram fogo contra André e acertaram seu joelho direito. Receberam um chamado interno e saíram do muro. Fernanda o puxou e começaram a andar pela floresta. Ele era muito pesado, mas ela não desistiu. Ele só conseguia se apoiar com a perna esquerda. Sangrava muito. O sangue caia na areia e era absorvido por ela. Estavam perto da praia.&lt;br /&gt;Depois de algum tempo Fernanda não agüentou e caiu com André.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você consegue se levantar com a minha ajuda?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu não sei...&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vamos. Você vai conseguir!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Certo. Vamos tentar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fernanda se levantou e André ficou apoiado no joelho esquerdo. Usou os braços para fazer um impulso e se pôs de pé. Andaram mais um pouco e encontraram uma cabana. Estavam no meio da floresta. André, naquele ponto, já havia perdido muito sangue. Estava fraco.&lt;br /&gt;Fernanda o colocou numa rede na varanda e entrou na cabana. Apesar de parecer em más condições quando vista de fora, por dentro ela estava totalmente em ordem.&lt;br /&gt;Na verdade, o aspecto da cabana parecia demonstrar que ela havia sido reformada recentemente. Tudo em ordem. A geladeira estava cheia de comida e no banheiro ela encontrou um kit de primeiros socorros. Ela não sabia usar o kit, mas usou a criatividade. Voltou até a varanda e percebeu que já havia uma poça de sangue no chão. A rede estava encharcara de sangue. Desesperada e com a mão tremendo ela derramou álcool na ferida, o que arrancou de André um grito terrível. Terrivelmente alto para uma situação em que se procura um esconderijo. André já estava tremendo, frio. Ele não falava. Ela começou a ouvir berros de infectados. Não sabia se ficava na cabana escondida ou se fugia. A cabana seria facilmente invadida e ela não sabia onde estava. Estava perto do porto, mas não sabia se teria que andar por horas. Ela não teve tempo para pensar. Um infectado surgiu do meio do nada. Ela teve que correr, e André se moveu. Olhou ao redor e percebeu a situação. O infectado subiu na varanda e André se agarrou na perna direita dele, ao que ele caiu e se virou para mordê-lo.&lt;br /&gt;Isabela correu pela floresta. Ela não sabia para onde estava indo, até que ouviu um grito incomum. Não era um berro de socorro, como se ouve normalmente, mas um chamado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Seus idiotas! São cegos? Estou aqui! Estou pronto para ser destruído!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela imaginou que seria um louco ou um traumatizado, mas era melhor estar perto dele do que de um infectado. Ela correu na direção do som até que foi bloqueada por um muro. Era o quintal de trás de uma casa. Na verdade, era uma pousada. Ela reconheceu por um enfeite pendurado na varanda do segundo andar. Um papagaio ou Arara. Ela não sabia qual dos dois. Naquele momento isso não tinha importância, mas os pensamentos dela se fixaram no papagaio. Talvez uma forma de fugir um pouco da realidade.&lt;br /&gt;Ela viu a estrada e percebeu que os monstros estavam seguindo um carro, que, ao chegar no local e perceber que estava infestado, derrapou e deu meia volta. Um monstro mais habilidoso pulou em cima do carro e começou a dar cotoveladas no teto. Ela aproveitou e passou pela estrada. Chegou no bairro onde encontraria o barco. Ainda havia um parado. Sentado em cima de um fusca.&lt;br /&gt;Fernanda jogou uma pedra na direção dele, mas errou. Só quebrou o vidro do carro. O suposto infectado correu na direção dela. Ele não corria com ódio no rosto. Na verdade era tristeza disfarçada de ódio. Ela percebeu que não se tratava de um infectado e permaneceu parada. Ele parou diante dela com um olhar intrigado. Pegou a câmera que tinha pendurada no ombro e apontou para ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Acabo de me deparar com outra sobrevivente suicida. Realmente não me surpreende que alguém que ainda tem alguma percepção da realidade seja suicida. Quem percebe a realidade deve perceber como ela é deprimente.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu não sou suicida. Você não me enganou. Sei que não está infectado. Eu já sabia pelo seu olhar. Eu te ouvi de longe, pedindo para ser assassinado. Por isso que vim até aqui.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Veio me salvar?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Te salvar de si mesmo, talvez. Mas no fundo eu só não queria ficar sozinha.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que pena que queria isso.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Por quê?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porque eu sou um deles. Você está sozinha sim.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas você está falando. Não é um deles.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não está vendo como meu corpo é debilitado. Eles só não quiseram me transformar porque não me consideram digno. Mas no fundo eu sou exatamente como eles. Quero correr por aí consumindo as coisas. Só não posso, e por isso que não faço.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ta dizendo que eles não te atacaram?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Eu olhei no olho deles. Não me atacaram.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Talvez você seja bom demais. Vai ver você foi protegido.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Bom demais? Você não me conhece. Por isso que imagina que pode existir algo de bom em mim. Eu sou só ressentimento, solidão, vazio. Na verdade até o fato de que eu não sou um zumbi me deprime. Nem os zumbis me aceitam. Nem com as feras eu posso encontrar companhia, porque não faço companhia nem a mim mesmo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pelo menos sincero você é. Diz o que pensa.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Admitir que eu sou desprezível não me torna uma pessoa melhor. Aliás, nenhuma pessoa é boa de verdade. Nossa raça merece essa destruição.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas você foi poupado. Porque?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu já disse. É porque eles não precisam de ajuda de um debilitado ressentido como eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fernanda ficou confusa. Nunca viu na vida uma pessoa como aquele rapaz. Os monstros voltaram e ele puxou o braço dela. Entraram num mercadinho que ficava ali perto. Ele puxou o braço dela e colocou ela escondida. Fechou a grade e abriu uma parte. Saiu e fechou.&lt;br /&gt;Lá de dentro, Fernanda viu os monstros o cercando. Ele enfiou a mão na boca do líder.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Desgraçado! Não é isso que você faz? Morda! Maldito!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O monstro tirou a boca da mão dele e cuspiu para o lado. Deu um chute nele, o que o lançou contra a entrada fechada do mercadinho. Pulou para a estrada e correu na direção à base na estrada. Depois de uns instantes, ouviram tiros. Um helicóptero deu cobertura à base e líder fugiu, deixando os infectados desorientados. Correram e se espalharam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Precisa de mais alguma prova de que esses monstros não se interessam por mim?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Acho que você está interpretando da forma que lhe agrada.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Acha que eu gosto de ser desprezível.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Se você gosta eu não sei. Mas por algum motivo você quer ser.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Então mostre de que outra maneira a atitude do monstro pode ser explicada. Acha o que? Que Deus está me protegendo? Vou te dizer, eu tenho blasfemado contra deus praticamente todos os dias da minha vida a três anos. Na verdade, antes de eu perceber que Deus não existe eu o odiava por ter me criado.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Como você foi ficar assim? Qual é o seu nome?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Meu nome é Felipe. Eu nasci assim.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quer dizer que você é assim desde pequeno.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Quando eu era criança eu não tinha consciência. Um dia eu acordei morto. Percebi que nada na vida faz sentido. O suicídio se tornou um dos principais temas da minha vida desde então.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O que aconteceu nessa época?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que foi? Quer dar uma de analista no fim do mundo? Vê se me deixa em paz! Eu não quero ser ajudado, não quero ser salvo! Não vou aceitar a ilusão cor de rosa de que o mundo está bem. Olha lá pra essa merda de rua. Está cheia de sangue e cadáveres! Sangue é cadáveres, entendeu? Não flores!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O que eu pensei em dizer é que os monstros não te atacam porque sabem que você é imune. De alguma forma, sua natureza tão desprezível torna você imune e eles sentem isso. Por isso sua mão tem gosto ruim: porque você não pode se transformar num deles.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Na verdade sua visão é bem plausível. Eu percebi algo interessante sobre esses monstros. Eles parecem ser motivado de forma proporcional à que os indivíduos normais eram. Noutras palavras, os mais esforçados enquanto vivo se tornam os zumbis mais velozes, resistentes e tudo. Eu não tenho a muito tempo alguma motivação para existir. Eu não seria um zumbi como eles porque o meu espírito não é tão controlado pelos impulsos estúpidos que motivavam as pessoas antes de se infectarem.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não foi isso que eu disse.&lt;br /&gt;Ficaram em silêncio por um longo. Não sabiam o que falar um para o outro. Felipe colocou em prática seu discurso de que ele não era companhia para ninguém. Ele praticamente não existia. Fernanda se arriscou a iniciar outra conversa enquanto comiam, já perto de escurecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu acho que você só precisa de amigos.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que amigos? Quer que eu saia lá fora e faça amizade com aquelas feras? Quer que eu pare diante deles e explique que eles precisam parar de devorar os outros. Que precisam para de obedecer os líderes? Aliás, quer que eu me torne amigo dos líderes? Eles não são capazes de me entender, o mundo estava destruído.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu poderia ser sua amiga?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não esperou eu terminar de falar. Não é só porque eles me rejeitam que eu não posso ter amigos. Mesmo para pessoas vivas eu não sou bom amigo. Porque eu despertei para o vazio. Um vazio que as pessoas não suportam. Porque eu sei verdades que as pessoas sentem, mas não admitem.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Acho que você está errado. O vazio não é a verdade. É a sua verdade. Só isso.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Então o que eu deveria fazer? Aceitar a sua verdade e viver uma farsa. Não, não posso fazer uma coisa dessas. Me desculpe, mas não posso.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Fora o fato incômodo de que você se odeia, não vejo motivo para você não ser um bom amigo. Parece ser inteligente e capaz de conversas produtivas.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu já te disse que conversas comigo não são produtivas, mas destrutivas, porque meu pensamento se orienta por ressentimento. Mas não é esse meu único defeito. Vou te mostrar. Qual é a sua religião?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sou cristã.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O cristianismo é a maior farsa da nossa sociedade. É a muleta com a qual os coxos andam. É de um lado a expressão da miséria real, e de outro o protesto contra ela, e a religião é o soluço da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, o espírito de uma situação carente de espírito. É o ópio do povo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Marx... ele está errado. Você precisa Sentir Deus para entendê-lo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pois eu nunca senti e digo que isso é uma invenção. É mesmo um soluço da criatura oprimida. Uma mentira inventada explicitamente para tornar a existência suportável.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Você ainda vai sentir em você. Ainda vai sentir Deus. Aí você vai entender melhor.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Certo, mas até lá, me poupe de suas tentativas de me salvar de mim mesmo, me transformando numa cópia exata do que você é. Você não entende a profundidade do meu problema. Parece que está condenada e nunca me entender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dias foram passando enquanto eles esperavam algum tipo de mudança. Fernanda encontrou alguns livros didáticos perto do caixa. Parece que quem quer que fosse o empregado do caixa, gostava de estudar no trabalho. Achou um livro de biologia e ficou lendo, e depois observando os monstros lá fora. Parece que aquilo não era possível, que realmente não podia estar acontecendo. E, no entanto, os mortos continuavam andando conforme os dias se passaram. Felipe estava totalmente dedicado a documentar o comportamento do líder. Depois de um tempo observando gravou mais um vídeo na sua câmera. Estava economizando a bateria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O aspecto do terno dessa fera é de que ele custou muito dinheiro. É irônico que o líder dos mortos tenha sido, em vida, provavelmente um líder dos vivos. Há diferenças? Ele não possui expressão facial, é apenas um guia para os mortos. É ainda mais distante do ser humano do que os mortos comuns. Não possui qualquer ferida, o que indica que sua infecção se deu de maneira diferente. Eu me pergunto se alguém o infectou. É realmente pouco provável, tendo em vista a sofisticação da infecção, o que deveria exigir um processo no mínimo complexo de infecção. Provavelmente o próprio indivíduo, rico, consentiu. Talvez ele realmente soubesse que, se submetendo a isso, ele se tornaria um infectado, mas ao menos não tão desprezível quanto os outros. Ele me olha com um algo de confusão no olhar. Acho que quando paramos um diante do outro, segundos antes de ele ir embora, é o único momento em que ele tem alguma expressão facial.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porque você se dedica tanto a observar essas coisas? – Perguntou Fernanda.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porque ele é um bom objeto de desprezo. Algo que estou autorizado a odiar. Não que eu me importe com autorizações e moral num mundo como o nosso.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Acho que você queria resolver esse problema. Queria encontrar uma forma de recuperar os mortos.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Colocando palavras na minha boca e intenções no meu coração, é? Não há como recuperar essas coisas. Você está lendo esse livro de biologia e que também se ocupa de olhar os infectados deveria saber.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas isso é uma coisa que você gosta de fazer. Disse que detesta tudo, não é?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu vivo tentando me convencer a continuar fazendo isso. Faço isso justamente porque não gosto disso. Estou de saco cheio de você tentando me convencer de que eu sou você. Vai tomar no cu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dias passaram devagar. Vazios. As vezes chovia, as vezes eram dias de sol. O líder e os mortos saíram da cidade. Perseguiram um carro militar e passou pela estrada. Ficou deserta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Podemos sair amanhã de manhã com o barco. – Disse Fernanda mostrando a chave do barco&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sair pra onde?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não sei. Talvez alguma ilha esteja sem infectados e possamos viver em paz.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Gosto da idéia. Sempre quis sair desse buraco mesmo...&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Nossa! Você concordou comigo! Achei que ia brigar comigo porque falei contigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felipe não respondeu. Foram dormir. Como sempre, em cima de papelões. Eles já estavam acostumados a viver daquela maneira. Tão acostumados que aquilo parecia natural. Viver presos num mercadinho, olhando pra feras ou simplesmente para ruas vazias enquanto se dorme no chão imaginando que será a pessoa que está dando seu ultimo grito naquela noite. Parece que quase todas as noites alguém morria perto e podiam ouvir o berro. Mas não sabiam se eram os gritos de dentro deles. Talvez estivesse loucas, quem diria o contrário. Felipe imaginava que ele poderia ser uma das personalidades de um louco internado num hospício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cavaleiro da morte se mostrou em meio à neblina. Fernanda já o conhecia. Ele anunciava mortes. Ficou assustada ao vê-lo de novo, porque da ultima vez que ele veio, foi para anunciar a morte de sua mãe, e no dia seguinte ela teve um ataque cardíaco fatal. Ela não queria ficar sozinha naquele mundo, e por mais que Felipe às vezes fosse desagradável, ela sabia que ele tinha um bom coração. Ele só precisava perceber isso. E o cavaleiro poderia esta chegando para anunciar a morte dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Filha das forças criadoras do universo. Venho lhe trazer uma mensagem.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Diga-me, meus ouvidos se dirigem a ti com esperança de notícias boas.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Receio que minha função não seja propriamente trazer boas notícias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atrás dele a neblina se abriu e ela pode ver um rosto. Era aquele anjo que sempre falava com ela, quando ela tinha sonhos assim. Seu anjo da guarda, que a guiou. Ela se acalmou quando o viu. Só achava estranho que o cavaleiro da morte estivesse trazendo a notícia. O anjo não falou, mas fez um. Um convite, um chamado. Ela sentiu um misto de paz e angústia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordou assustada. Sua intuição lhe mostrou o significado daquele sonho. Era profético. Ela foi até Felipe e colocou a chave do barco no bolso dele, ao que ele acordou assustado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que porra é essa?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você, assustado?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu tava tendo um pesadelo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ah.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não muda de assunto. Porque você colocou essa chave no meu bolso?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porque eu fui convidada pelo anjo e me juntar a ele.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O que?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu vou morrer em breve. Pode ser antes de chegarmos no barco. É mais seguro pra você eu deixar a chave contigo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você não vai morrer! – disse Felipe visivelmente transtornado. – abandone de uma vez essas crenças idiotas!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não são crenças. Não acredito, eu sei. Não é idiota.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Então prove.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Escuta, só fica com essa chave, ok?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele hesitou, mas acabou aceitando a chave. Se levantou e saiu do mercadinho. Subiu no telhado. Fernanda acabou pegando no sono enquanto esperava ele voltar. Lá de cima ele viu a praia. A água estava calma naquela noite, e o céu estrelado. Provavelmente o dia seguinte seria de sol. Ele se deitou no telhado e deixou os sentimentos fluírem como ele geralmente não fazia. Sentiu angustia, algo com o que ele estava acostumado, mas era diferente. Ele estava com medo de Fernanda realmente estar em perigo. Acabou percebendo nela alguma companhia. Sempre quis evitar qualquer tipo de apego, mas não poderia negar seus instintos. Imaginou que havia algo de desejo sexual nessa angustia. Afinal, ela era bem bonita. Desceu do telhado e andou pelas ruas sem destinos. Foi virando esquinas aleatoriamente e se deparou com uma peixaria. O fedor de podre era horrível, mas ele entrou. Pegou dois facões e saiu. Serviriam para protegê-la. Mas depois de um instante se assustou com os facões. E se ela morresse por um acidente com eles?&lt;br /&gt;Ele não se reconhecia mais. Não imaginava como podia se preocupar tanto com uma pessoa se nem pelos parentes ele tinha tamanha consideração. E como ele não havia percebido aquilo antes? Talvez ele estivesse inconscientemente projetando sua mãe nela. Talvez fosse um reflexo dos primeiros desejos incestuosos da infância. Quem sabe Freud poderia explicar aquele carinho repentino. O mais provável, considerou ele, é que eu só quisesse comer ela e não soubesse por estar negando e reprimindo isso para o inconsciente. Na verdade não foi ele que buscou a faca e quis proteger ela, mas apenas sue pênis. Nas ruas ele achou um cadáver de soldado. Tinha uma pistola. Seria útil também, mas ele quis as facas. Não sabia porque.&lt;br /&gt;Voltou e colocou a pistola na cintura dela. Ela acordou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que é isso? - Levantou ela assustada. – Nossa Felipe, achei que estava tentando se aproveitar de mim!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Só estou enfrentando seu Deus. Achei uma pistola pra você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fernanda olhou para a pistola sem falar nada por pelo menos dois minutos. Felipe se levantou e subiu para o telhado de novo. Uma evidência conclusiva do impulso inconsciente de querer comer a companheira. Ela havia percebido esses impulsos com maior eficácia e no menor toque já pensou em abuso sexual. Antes dele, ela já havia percebido com sua intuição feminina sobre o que se passava na mente dele. Ele pegou no sono no telhado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele estava numa igreja. Fernanda estava com ele. Cantavam alguma musica que ele não podia distinguir, mas ela trazia enorme paz a ele. Saíram de lá depois de cumprimentar todos. Todos gostavam deles. Não havia nenhum zumbi por perto. As mulheres mais bonitas pareciam olhar para ele desejosas. Fernanda, arrumada, estava linda. Ela estava mais linda do que todas as outras mulheres. Uma limusine surgiu na porta e os dois entraram. Havia latinhas e comemoração do casamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele acordou com um barulho de tiro vindo da base. Estava deitado com Fernanda e com um volume considerável nas calças. Por sorte, ela ainda estava dormindo. Estava abraçada com ele, mas não despertou quando ele se soltou. Ao invés de pensar sobre como ele foi parar ali, ele saiu para ouvir os tiros. Mais tiros foram ouvidos. De repente ele teve uma intuição funesta: ele não seria poupado no caso de uma taque em massa. Um grupo grande de monstros o mataria sem nem perceber. Eles destruiriam a ele e a Fernanda. FERNANDA!&lt;br /&gt;Acordou ela com pressa para dar o aviso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que foi, querido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não conseguiu falar. Ela o chamou de querido e ele enrubesceu instantaneamente. Caiu sentado um pouco atônito, mas logo se recuperou e explicou sua intuição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Viu? Você não tinha como saber isso. Nunca testou. Você só sabe. É assim que funciona.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ta bem, mas temos que sair daqui. Temos que ir pro barco. Vamos!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Espera, Felipe. A gente tem que arrumar as coisas. Calma aí.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Calma nada. Estamos em perigo!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vamos comer alguma coisa. Sair daqui de barriga vazia não vai ajudar.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ta bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pararam e comeram biscoitos com refrigerante quente. O que sobrou. Felipe comeu rápido, como sempre fazia, mas Fernanda não tinha pressa. Saboreou o biscoito como se fosse o último. Isso incomodou Felipe profundamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Para com isso, Fernanda. Você não vai morrer.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Todos vamos morrer, Felipe. Temos que viver os momentos sempre assim. Como se fossem os últimos.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Olha, talvez seu sonho tenha sido só uma lição. Talvez seja pra você aprender a viver cada momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não acreditava naquilo. Na verdade ele pensava que no fundo ela queria morrer e que era essa a mensagem do sonho. Porque os sonhos eram a manifestação dos desejos. Talvez fosse por isso que ele gostava dela. Porque eram semelhantes no fundo. Na verdade, na essência, ambos eram vazios. Ela que não sabia disso ainda. Por isso era bom estar perto dela. Porque ela entendia. Falando essas coisas ele só estava tentando fugir da realidade, do sentimento de medo que ele tinha. Ela não respondeu nada a essa afirmação.&lt;br /&gt;Começou um tiroteio contínuo. Parece que a quantidade de infectados era grande, como ele havia imaginado. Os tiros não paravam até que eles ouviram o som dos carros dos militares saindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É agora, Fernanda. Se não fugirmos, os militares ou os monstros nos atacarão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse momento um carro parou na estrada. Felipe saiu e viu um soldado voltando para o carro. O carro partiu na direção do porto. Ele percebeu que havia outro carro, e que em meio aos militares havia dois civis. Aliás, olhando de perto, percebeu que eram militares brasileiros. Pela primeira vez na vida, sentiu experiência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vamos, Fernanda. Eles podem no ajudar se ajudarmos eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não disse nada. Só saiu do mercado. Todos perseguiam o som. Felipe quis gravar aquilo com a câmera, mas não pôde. Só correu em direção ao porto. Quando virou a esquina, três zumbis começaram a perseguí-los. Enquanto ele corria de costas elas não paravam. Ele mesmo constatou que era só quando olhava nos olhos dos monstros que eles paravam. Ele não podia parar, porque eram muitos, e o matariam. Correram e viraram mais uma esquina. Estavam na rua do porto. Quando Fernanda perdeu a força nas pernas. Sem nenhuma explicação objetiva, ela perdeu o equilíbrio e caiu. Os monstros a alcançaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Felipe! – Ela gritou em pânico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felipe, naquele momento, se tornou outra pessoa. Ele se tornou poderoso. Correu diretamente para perto dela e matou os três monstros com facão. Dois tentaram atacá-lo, mas um já estava confuso com o olhar dele antes de morrer. Fernanda começou a chorar. Percebeu que havia sido mordida e sabia que estava infectada. Não tinha mais escolha. Pegou a arma que Felipe deu para ela e atirou rápido na cabeça. Ela não queria ouvir ele pedir o contrário.&lt;br /&gt;Caiu deitada de lado no chão e Felipe ficou olhando para aquilo. Maldito seja Deus! Ele só pensava isso. Sempre leva de mim tudo o que eu amo! Maldito! Eu te odeio e odeio toda a sua criação!&lt;br /&gt;Ele nem percebeu que havia confessado amor por ela. Quando entrou no barco, só o ressentimento e o ódio reinavam nele. Voltou ao normal, ao mundo real. Um mundo no qual o sangue dela escorre. Miserável.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4664356695252564512-8827653304636408092?l=biohazardalimpeza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://biohazardalimpeza.blogspot.com/feeds/8827653304636408092/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4664356695252564512&amp;postID=8827653304636408092' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4664356695252564512/posts/default/8827653304636408092'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4664356695252564512/posts/default/8827653304636408092'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://biohazardalimpeza.blogspot.com/2009/11/capitulo-14.html' title='Capítulo 14'/><author><name>Silas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08560610846360060486</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/ScXDtIGMN9I/AAAAAAAAABQ/YF39-2VxJ3k/S220/zumbi.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/SvxZ3hOx3-I/AAAAAAAAAS0/z8IkAGYgw8k/s72-c/nao_me_abandone.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4664356695252564512.post-4648441193078872956</id><published>2009-11-09T14:22:00.000-08:00</published><updated>2009-12-12T08:33:55.445-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Capítulo 13'/><title type='text'>Capítulo 13</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/SviVufuODUI/AAAAAAAAASs/N3pOz5TthYo/s1600-h/rosto_deusa%28blog%29.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/SviVufuODUI/AAAAAAAAASs/N3pOz5TthYo/s400/rosto_deusa%28blog%29.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O tempo passa e eu vou mudando. Mudando cada vez mais profundamente. Eu nem me reconheço mais. Mas ainda assim tenho uma sensação de que deveria mesmo ser assim. De que isso é algo mais próximo de mim do que o que eu era antes. Um sujeito agressivo que explode a cabeça de outrem sem piedade. Um sujeito que esfaqueou sem necessidade um infectado. Um sujeito que fez um pacto com o diabo. Que adora essas coisas e não sente um pingo de culpa. O que eu sou?&lt;br /&gt;“I’ve got nothing left to lose, &lt;br /&gt;But my mind...&lt;br /&gt;I’ve got nothing left to choose, &lt;br /&gt;So I think I’ll go insane.”&lt;br /&gt;(The right to go insane, Megadeth)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nosso combustível estava acabando. Achamos uma ilha relativamente grande. Uma ilha privada. Havia uma placa no cais avisando que era particular. Não é permitida a permanência de barcos sem autorização prévia. Havia um iate enorme ali.&lt;br /&gt;Acordei com gritos que os outros estavam dando para chamar a atenção dos zumbis. Eu estava tendo um sonho e não me lembro de como foi. Mas sei que era um sonho muito bom. Que eu não queria ter acordado. Aquilo me irritou profundamente. Ter que enfrentar essa maldita realidade. Notei logo o intuito deles e corri para a metralhadora, que eles fixaram num ponto do barco. Tinha muita munição, e as balas eram enormes. Não sei dizer qual era o calibre.&lt;br /&gt;Os monstros foram chegando no cais, mais ou menos enfileirados e eu atirei contra eles. Eu gritava e atirava. Eu estava gostando de destruí-los. Pararam de vir para o cais e começaram e chegar na beira da praia que ficava em volta. Atirei neles. Dois vieram pelo cais e foram mortos por Augusto e o sargento. Os monstros começaram a surgir cada vez em menor número e cada vez mais distantes do cais. Nós não tínhamos combustível para dar uma volta na ilha, e eles perceberam que era suicídio ir para o cais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Acho que vamos ter que descer do barco e perseguir eles - disse Augusto.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Olha, se eles não estão nos perseguindo, talvez possamos simplesmente ignorá-los. – Disse Isabela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha mão direita estava numa pistola. Ela começou a esquentar. Meu corpo todo se esquentou. Senti um poder enorme como que fluindo do meu ventre e tomando conta de mim. Eles jamais poderão ser ignorados. Enquanto eu estiver acordado eu só posso odiá-los. Eu odeio esses desgraçados.&amp;nbsp; Foram os pensamentos que tomaram conta de mim antes de eu perder totalmente o controle sobre mim mesmo.&lt;br /&gt;De repente eu apanhei um dos facões de Felipe e outro meu. Coloquei a pistola num espaço apropriado, concedido a mim no dia anterior por Augusto e pulei do barco pro cais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Caralho! Volta Roberto! – disse o sargento visivelmente transtornado.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Volta aqui, Roberto, volta pro barco! – disse Isabela no tom trêmulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isabela sentiu o que estava acontecendo de alguma forma e começou a chorar. Eu tinha consciência de algumas coisas, mas não detinha nenhum controle sobre mim. A sensação era tão boa que eu acabei me deixando levar. Os monstros vieram me atacar berrando e eu também berrei. Degolei vários. Não estava pensando, então não contei. Eu os degolava e depois enfiava a faca nos olhos, nos ouvidos. No pescoço. Eu matei todos os que encontrei perto e depois corri para dentro da ilha. Os gritos das pessoas no barco foram se tornando distantes. Felipe não gritou.&lt;br /&gt;Dentro da ilha outros surgiram. Eram zumbis vestidos com roupas de praia, outros com uniformes, outros totalmente nus. Matei todos sem usar a pistola. De repente eu vi um dos saltadores pulando entre as arvores. Ele não estava atrás de mim, mas ia em direção ao barco. Puxei minha pistola e atirei contra ele. Errei, mas isso chamou sua atenção para mim. Ele desceu até o chão e me fitou por uns segundos parado. Eu corri berrando em sua direção, ao que ele também correu na minha. Apontei a pistola para ele e atirei, mas antes de eu puxar o gatilho ele já havia saído do lugar. Ele se esquivava muito rápido. Eu precisaria de uma metralhadora para poder acertá-lo.&lt;br /&gt;Guardei a pistola e corri na direção dele, ao que ele se aproximou. Tentei golpeá-lo, mas que ele se esquivou com tamanha facilidade que parecia uma brincadeira. Ele tentou me dar uma cotovelada e eu pulei para trás. Tentei atirar nele de novo, e novamente errei. Minha munição acabou. Nosso confronto continuou, e com muita dificuldade eu evitava seus ataques. O que eu fazia basicamente era recuar quando ele me atacava, até que num momento eu bati de costas numa arvore no momento em que ele tentou me atacar. Ele saltou e me deu uma joelhada na cara. Desmaiei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Relaxa...&amp;nbsp; espantei... tudo bem... mochila...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ouvi fragmentos de algo que não podia entender até que minha visão começou a ganhar nitidez e os sons se tornaram compreensíveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Qual é o seu nome? Perguntou um homem de uns 45 anos.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É... é... Mefistófeles. Meu nome é Mefistófeles. – respondi.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que nome estranho, rapaz. Tem certeza que não é Roberto? É isso que ta na sua carteira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele me mostrou a carteira e eu novamente perdi as forças. Deitei e novamente desmaiei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gaia estava diante de mim. A deusa mãe, que gera todas as coisas. Estava bem diante de mim, flutuando. Ela estava calada me fitando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porque você não fala nada, minha deusa?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porque eu deveria te falar qualquer coisa se você não é fiel a mim?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sim, eu sou fiel a você! Como pode dizer isso?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Agora a pouco você me expulsou, e teve que ser derrubado para voltar a me olhar. Você é um insensato.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Foi esse anel. Ele me tornou assim. Esse compromisso com Mefistófeles.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ignorante. Não vê que te falta outro anel? Na sua mão esquerda, seu dedo anelar está vazio.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você me daria seu anel?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pensa que o terá sem antes passar por uma prova?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Diga que prova eu preciso superar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gaia se calou e me abraçou forte. Um abraço apertado, cheio de carinho. Num momento, aliás, aquele abraço me pareceu erótico. Ele despertou tal sentimento em mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem me carregou até uma mansão que se encontrava no centro da ilha. Me levou até um quarto blindado onde havia mantimentos. Um quarto do pânico ou algo assim. Havia câmeras lá dentro. Aquele quarto era especial porque possuía um segredo. Ali havia um controle que se ativava a um comando especial de voz. Armas robotizadas eram controladas como se fossem um vídeo-game no ponto das câmeras. Aparecia uma mira na câmera. Ela de movia na imagem conforme o braço robô mudava de direção e quando chegava a um ponto fora da câmera, essa também se movia para filmas o alvo. Pelo que eu descobri, ele usou esse mecanismo para atirar no Saltador, que fugiu.&lt;br /&gt;Quando eu acordei, ele estava se preparando para atirar em Isabela. Julgou que ela fosse um morto vivo. Eu vi a mira indo pra direção dela e entrei em pânico. Pulei na direção do homem, que me deu um balão e me jogou numa cama que ficava no canto do quarto. Apontou a arma pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não atira nela! - Gritei.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não atira na Isabela!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Caralho, Mefistófeles, vai dar susto na sua mãe. Puta que pariu, moleque!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mefistófeles?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não é esse o nome que você usa? Ou apelido, sei lá?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não! Meu nome Roberto.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você que falou isso, cara. Desculpa se te ofende, mas quando você estava caído foi esse o nome com o qual você se identificou.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu falei isso? Que merda!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Enfim, são seus amigos esses? Tem certeza de que não são perigosos?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porque seriam?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu fui atacado por americanos ontem à noite. Por sorte o Jumper e os infectados mataram os agressores. Pessoas não são mais dignas de confiança do que eses monstros.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ouvi falar. A gente veio aqui em busca de combustível. Estamos indo para o sul.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Para o campo da ONU?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Esquece cara. Aquilo ali já era.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Como sabe?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Só quem não tem dinheiro perdeu o acesso à comunicação. Eu ainda to conectado no satélite e tenho acessos às informações secretas que circulam entre os satélites. Eles só estão realizando vôos privados. Eu pretendo fugir usando meu avião particular, se é que não o roubaram.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pode nos levar com você?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu tenho que levar vocês. Não tenho condições de chegar lá sozinho.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você pilota?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Piloto. Com esse avião a gente sai daqui dessa merda. Eu sou dono de uma fazenda nos Estados Unidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deitei na cama novamente. Minha cabeça estava girando. Eu estava ainda muito fraco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Descansa um pouco. Eu vou trazer seus amigos pra cá.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eles não vão caber nesse quartinho.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sem problemas. A parte revestida por aço dessa casa é completa. Tem banheiro, cozinha, sala. Isso é só um dos três quartos.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Caralho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deitei e dormi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava diante dos portões do Tártaro. Ali era a saída do inferno. Aquele lugar, embora fosse estranho, também era agradável. Porque o inferno era uma parte, mas havia outras partes belas. A minha missão era subir até o olimpo, mas antes eu precisaria sair pelos portões do tártaro e aprender uma lição com os mortais. Eu nem imaginava que lição seria, mas sabia que tinha que sair pelos portões do tártaro.&lt;br /&gt;Mefistófeles e eu chegamos diante do portão. Ele me concedeu sua força e eu comecei a esmurrar o portão. Ele cedia um pouco, mas se recuperava. Não havia como sair daquele reinado usando o poder de Mefistófeles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; E agora? – perguntei.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Só Gaia poderá abrir os portões. – respondeu ele.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas Gaia não confia no amor que tenho por ela.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Como poderia confiar?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ela sabe o que se passa no meu coração.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Palavras cruzam pela sua mente, mas as suas ações não correspondem a elas. Você precisa viver as palavras.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você não é Mefistófeles. Quem é você?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não sou. Só tomei essa forma porque é a que receberia sua atenção.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quem é você?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; De que importam nomes? Chame da maneira que quiser.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Um conselheiro do sub-mundo... Daemon?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Bem próximo ao Mefistófeles, não acha?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. É Daemon. Como o Sócrates.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Entendo. Já chega de conversas inúteis. Siga o caminho das flores e você chegará até o santuário de Gaia. Naquele santuário você só poderá entrar depois que viver Gaia e não só falar dela.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Como farei isso?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; De que valem explicações? Você já sabe. Não precisa mais aprender por hora. Agora precisa ser. Senão ficará preso aqui até a morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isabela me acordou. Ela me deu um tapa na cara. Estava chorando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O que deu em você? Porque me abandonou? Disse ela.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu não te abandonei.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Me abandonou sim! – ela estava soluçando.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Isabela, eu não... &lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Para de falar! – me interrompeu ela. – você fala muito! Mas cadê as atitudes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei calado. Não sabia o que dizer. Ela subiu na cama e se deitou comigo, mas depois se levantou. Ela me olhou com um tom que, embora fosse um pouco rancoroso, parecia forçado. Era como se ela não estivesse tão brava comigo, mas quisesse parecer que estava. Queria demonstrar que tinha motivos para me querer a quilômetros de distância naquele momento. Novamente eu fui dormir. Ainda estava fraco. Mas dessa vez eu não me lembro de ter tido algum sonho. &lt;br /&gt;Isabela dormiu sozinha. Depois de um longo tempo em que só dormia comigo, ela voltou a dormir sozinha. A noite passou, e acordei com a voz do dono da casa. Estava explicando seu sistema de defesa pro Rodrigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu não fui descoberto pela fiscalização porque tudo isso permanecia escondido e camuflado. Sempre fui meio neurótico com segurança.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Maluco, muito foda. Dava até pra gente ficar aqui ao invés de fugir.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não, eles vão fazer a limpeza em toda a América do sul. Essa ilha está dentro do campo de fogo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O que?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Bomba atômica, rapaz. Bomba atômica...&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Bando de filho da puta! Não sei como vou fazer pra me segurar lá e matar eles.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vamos com seu barco? – perguntei.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É. Ele possui mais recursos. Da até pra cozinhar nele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rodrigo me olhou. Não parecia irritado, mas não falou comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Onde você consegue ter contato com as informações?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Desse computador aqui. Mas as transmissões pararam. Suponho que tenham me descoberto e bloqueado meu acesso.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Merda. Então estamos no escuro. – disse Rodrigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantei e saí do quarto com os computadores. Isabela estava dormindo num sofá. Estava encolhida como um feto. A expressão do seu rosto era diferente da que eu estava habituada. Normalmente enquanto ela dormia eu via um olhar tranqüilo. Por mais que o mundo estivesse caindo, ela dormia tranqüila. Mas dessa vez ela parecia estar tendo um pesadelo. Virou a cabeça, estendeu um braço para cima. Pensei em acordá-la, mas estava com medo de isso a incomodar, então só fiquei observando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ela ficou assim a noite toda. – disse Augusto ao me entregar um copo de leite. – dormimos do outro lado porque tava foda. Ela fala dormindo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não fala, cara.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Dessa vez ela falou.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Falou o que?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sei lá. Foi tudo embolado. Mas coisa boa que não era. Digo isso pelo tom de voz. Juro que num momento eu ouvi ela falar não, mas o Rodrigo disse que ela falou anão.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Hehe.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vai acordar ela?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não, deixa ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No momento em que eu falei uma lagrima saiu pelo rosto dela. Ela parou de se debater.&amp;nbsp; Levantou num salto e acordou. Olhou pros lados levemente. Não chegou a me ver. Colocou a mão no rosto, e puxou o cabelo para trás. Ele estava bagunçado. Limpou os olhos e se sentou apoiada no sofá. Quando me viu, correu e me abraçou. Foi reconfortante até ela começar a falar do sonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ele vai te matar, Roberto. Quer te matar.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O que? Quem?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O Diabo. Quer te matar. Saia de perto dele. Tira esse anel do dedo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Isa, foi só um sonho, tá? Fica calma.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você não viu que ele tentou te matar ontem? Você está deixando o diabo te possuir.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Isso de diabo não existe.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pode ser uma idéia distorcida usada para controle social, mas existe sim. Diabo é uma parte da mente de todas as pessoas. – Disse Felipe entrando na sala.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você não pode o deixar tomar conta. – disse Isabela ignorando a observação de Felipe.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Também acho que seja parte da mente. Isabela, não se pode negar o demônio interior. Principalmente num tempo em que ele é necessário, como o nosso.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você não entende que ele vai te matar?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não vai me matar. Não vou deixar.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Me promete?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Prometo. Não vai me dominar e nem me matar. Mas é parte de mim. Você me aceita assim?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você não é o diabo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não sou o diabo, é verdade. Mas ele é parte de mim. É só uma parte.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Você não é mau. Está enganado.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu sou pior do que você imagina. Na verdade eu me torno uma pessoa muito melhor perto de você. É como se o que existe de bom em mim fosse despertado por você. Minha capacidade de criar. Sem você eu sou um destruidor. Abandonar você é abandonar o que há de bom em mim e fazer minha vida perder todo o sentido. Acredite. Eu não vou te abandonar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela pulou em cima de mim e me beijou. Fiquei surpreso, mas logo correspondi. Ficamos nos beijando por um tempo. Nem faço idéia de quanto tempo. Perdi a noção do tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porra. Vão ficar se agarrando? – disse Augusto. – eu to aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não ousaria dar ouvidos a ele. Jamais. Só aproveitei o momento. Foi realmente eterno, cada segundo. Eu não sentia só os lábios dela. Sentia um espírito tomando conta de mim. Um espírito bom. Tão bom que eu nem me reconhecia. Eu queria que aquilo durasse pra sempre.&lt;br /&gt;Deitei no sofá com ela. Era pequeno demais pra mim. Meu pé ficava pra fora e o meu pescoço meio torto. Ficamos ali abraçados. Não trocamos uma palavra até o almoço. Augusto e Felipe já haviam saído. Havia ali uma janela no alto. Vidro blindado. Eu pude ver o céu, e meu olhar se fixou lá. Senti como um ser que nasceu no inferno tendo a visão do paraíso. É difícil acreditar que isso sempre existiu e eu vivi todo esse tempo sem conhecer. Toda a minha vida parece ter sido um grande desperdício de tempo até aquele momento. Depois daquilo, daquele beijo, minha vida mudou. Eu mudei. Levantei daquele sofá com dor de pescoço e com um novo espírito.&lt;br /&gt;O cheiro de comida chegou até nós e Isabela quis comer. Ela não bebeu leite, como eu, e estava com muita fome. Num momento me senti responsável por isso e me preocupei profundamente. O copo estava pela metade e ofereci pra ela. Mas estava quente e ela disse que leite não mataria sua fome. Na cozinha, o sargento estava fritando carne. Ele estava com um sorriso no rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Trabalhou no rancho, sargento? – perguntei.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Nada... Mas eu gosto de cozinhar. Tem algum problema com isso?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Problema? Maravilha que você cozinha! O cheiro ta ótimo, cara!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porra, tu ta sorrindo? Roberto sorrindo? Tu tava trepando aí dentro?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. – disse Isabela.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Olha cara, sem querer ser chato. Mas prefiro que você não fale assim disso. Ok?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Caralho, educado e os caralhos. Beleza, cara. Foi mal.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas então, quando sai o almoço? Ta quase pronto. Só falta o feijão.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É que a Isabela ta com fome.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ele também. – disse ela.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É...&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Comam aí uma banana. Fica pronto rapidinho.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quer, Isa?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguei só uma banana e dei pra ela. Ela abriu e me deu pra dar uma mordida. Dei uma mordida e ela mordeu também. Eu sentei numa cadeira e ela sentou no meu colo. Deu na minha boca de comer de novo e eu dei uma mordida pequena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que mordida miserável, Roberto!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você ta com mais fome que eu. Eu geralmente nem tomo café.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Então eu vou comer tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela foi mordendo a banana e acabou colocando tudo na boca. Ficou com a boca muito cheia e fez uma cara que me custa muito encontrar as palavras pra definir. Só sei que eu nunca ri com tanto prazer antes. Ela tentou me beijar, mas foi impraticável. Mastigou tudo e engoliu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Caramba... Como é que tem banana aqui ainda? No mercado tava tudo estragado. – disse ela.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pois é. O cara aqui tem plantação até de gente. Ele não saía dessa ilha quase nunca. – respondeu o sargento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isabela se levantou do meu colo e começou a pegar talheres num armário. Eu peguei pratos e copos. Ela deixou tudo numa instante e forrou a mesa. Coloquei os pratos. Eram sete, mas a mesa era gigante. Não foi nem metade dela. Arrumamos tudo e Isabela sentou na ponta. Pegou garfo e faca e bateu na mesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Almoço! Almoço! Almoço!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Qual é a forma de pagamento? – disse o sargento&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começamos a rir na cozinha e os outros chegaram. Felipe parecia definitivamente não gostar de ninguém. Ele pegou o prato dele e levou pro outro canto da mesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vem pra cá, cara. – disse eu.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não posso. – respondeu.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porque?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vocês não vivem no mesmo mundo que eu. O mundo em que eu vivo é habitado por mortos devoradores de carne. O de vocês é cor de rosa. Não posso me sentar com vocês e rir.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não pode rir da própria miséria? – disse eu me esforçando pra fazê-lo se unir a nós.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não há como fazer isso. Eu só poderia rir de verdade se estivesse vivendo uma ilusão. Mas adivinha só, eu não dei a sorte de ter namoradinha no fim do mundo. E adivinha, eu sou miserável. No fundo eu sou exatamente igual a esses monstros lá de fora.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que isso, Felipe. Não fala assim. Você é um menino tão inteligente. – disse Isabela.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Inteligente? Eu não sou inteligente. Eu só uso minha mente para criticar. Meu maior motor é o ressentimento. Se eu não fosse ressentido eu nunca nem pensaria. Sem meu ódio por mim e por tudo eu seria exatamente como os monstros lá fora. Um dementado à procura da satisfação. Mas nem eles me aceitam. Ninguém pode me aceitar mesmo, porque eu sou um escroto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficamos olhando pra ele. Eu desisti. Parecia que nada o convenceria de se unir à nós. Ele estava procurando isolamento. Eu arriscaria dizer que ele buscava seu próprio sofrimento. Não consigo entender o motivo. São variados os efeitos que essa calamidade traz às pessoas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tá servido! Feijão com arroz, omelete, farofa, bife de panela e salada! – anunciou o sargento.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ô maravilha! Um dos primeiros a ser infectado foi meu cozinheiro. Viver aqui só cozinhando porcaria foi duro! Pelo menos eu não morri sem comer alguma comida de verdade.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não fala assim, José! – disse Isabela.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O que?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Isso de “Morri”. Parece que ta dizendo que vai morrer ou então que já morreu.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ah. É só força de expressão. Esquenta não. Vaso ruim não quebra fácil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felipe só pegou feijão, arroz e salada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Será que ele é vegetariano? – perguntou Isabela sussurrando.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você é esperta, em... – disse Felipe. – eu te ouvi. Se por ser vegetariano você quer dizer que eu não como animais mortos, então está certa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isabela não respondeu. Pareceu não gostar da forma como ele falou. Ele percebeu e isso visivelmente o incomodou. Continuou falando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você sabe como a carne que você está comendo chegou até o seu prato?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você ta achando que eu sou burra, é? Pensa que é melhor que eu? – respondeu ela.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Se você é burra eu não sei. Não prestei muita atenção em você. Mas com certeza eu não sou melhor do que você. Eu sou um lixo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não é um lixo. – retrucou ela.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você não viu como eu fui escroto com você?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Isso não é você. – disse eu. – Você inventou uma identidade pra si mesmo baseada em alguma informação de fora. Não percebe que bem por trás desse sujeito desprezível, egoísta e ressentido que você acreditar ser existe um herói.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vou lembrar disso da próxima vez que eu salvar o dia, senhor dono da verdade. Até lá eu não vou engolir a sua opinião. Nenhuma certeza existe. Nem a incerteza é certa. Não sou sua ovelha e não vou ouvir sua pregação. Então me deixa em paz.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É a sua vida, cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficamos em silêncio. Aquele diálogo não permitiu que o almoço fosse harmonioso com piadas e tudo mais. Pensei que seria assim, mas Felipe simplesmente não nos deixaria esquecer a desgraça. Sempre trazendo o que é real e podre de volta. Parecia um lixeiro que vai até o lixão e traz todo o nosso lixo para a nossa porta.&lt;br /&gt;Comi tudo, menos salada. Isso pareceu não agradá-lo, mas ele não falou nada. Só soltou o ar pelo nariz dizendo com a expressão facial que o que eu fazia era desprezível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Então, José. Qual é o plano? – perguntou Rodrigo&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vamos ir até o casarão no depósito e buscar os mantimentos. De lá, levamos o máximo que pudermos pro iate e seguimos até o meu avião.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Onde está seu avião? – perguntei.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; No Rio Grande do Sul.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Me responde uma coisa? – disse o sargento..&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sim, claro.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Desde quando você sabia da infecção?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O que?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ta de sacanagem, né? Você tem uma casa totalmente revestida com aço, metralhadoras escondidas, mantimentos, e um avião na única zona segura do Brasil.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não é uma zona segura. Não mais.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Beleza, mas e o resto. Porque você tem isso tudo?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Olha, eu... sou meio neurótico com segurança.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vou dizer porque. – disse Felipe. – ele participou disso tudo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Como é? – disse José vermelho.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não sei o que vocês sabem disso, mas eu vi de perto como começam essas pragas. Esses monstros que saltam saem do nada e começam a atacar. Depois as pessoas voltam e ajudam na destruição. Mas essa ilha é bem distante do litoral e eu duvido que o monstro tenha simplesmente capturado um barco pra chegar até aqui. O iate está limpo e esses monstros não nadam. Esse monstro surgiu aqui. Da pra ver que eles também já foram pessoas normais. Não sei em que mundo vocês vivem, mas no meu parece óbvio que isso é uma arma biológica. Imaginem só: uma forma de guerra que não só ataca as pessoas, mas faz com que elas mesmas se destruam. Esse monstro foi criado aqui, da mesma forma que os outros espalhados por aí. Seja como foi que isso aconteceu, deve ter sido fruto de pesquisas tecnológicas. E um homem com tanto dinheiro poderia dar prosseguimento a pesquisas numa ilha como essa. Não me surpreende que ela seja tão defendida. Usa jovens sensuais para dizer que aqui só se faz festas, mas tem metralhadoras robóticas por todos os lados. Com certeza ele estava se preparando pra essa limpeza. Agora que vão jogar a bomba atômica aqui e, por mera coincidência, ele sabe o que o governo americano planeja, ele quer fugir com o avião dele que fica na mesma região onde a ONU está resgatando refugiados. Numa boa, tem que ser muito idiota pra não perceber que esse cara está envolvido na merda toda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos começaram a rir, menos José. Foi uma risada um pouco compulsiva. Ele demorou um pouco para começar a rir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Caralho! O maluco fica calado direto. Quando começa a falar solta uma bíblia. – disse Augusto.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. O que ele falou tem um pouco de sentido. Só não gosto disso de sempre esperar o pior das pessoas. - disse eu.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Diz aí, sabidão. Você já escreveu seu livro de teorias da conspiração? – disse Rodrigo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não é uma teoria. Você é um idiota e não entendeu nada do que eu falei.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sim. Claro. Você é um sábio.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Em todas as época, os sábios sempre disseram coisas parecidas. E em todas as épocas, os tolos, como você, fizeram coisas parecidas: exatamente o contrário do que os sábios falam. Todas as pessoas são desprezíveis.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; E isso inclui você, né?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sim.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Desde quando você acha isso? – perguntou Isabela&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Isso o que?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Isso do José.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Desde ontem à noite.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; E porque você não demonstrou nenhuma raiva? Aliás, porque você ainda não demonstra raiva dele, se acha que ele tem uma parcela de culpa?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quem sou eu pra ter raiva dele? Eu não sou melhor do que ele pra julgar. Provavelmente se eu não fosse miserável como sou, se eu estivesse no lugar dele, eu faria exatamente a mesma coisa.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Será? – perguntei.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vou te contar. Ô cara desagradável. – disse Augusto. – só abre a boca pra arrumar briga. Eu gostava mais dele enquanto estava quieto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terminamos de comer em silêncio. Todo o falatório acabou esfriando a comida, mas ainda assim ela ficou ótima. O sargento realmente tinha talento pra cozinhar. Cada um levou seu prato pra pia e comecei a lavar a louça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não precisa fazer isso, garoto. – disse José. - Amanhã vamos embora. Não voltaremos mais pra precisar de louça lavada.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu quero lavar. Eu medito enquanto estou lavando.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Hahahahaha! To te imaginando na posição de meditação lavando a louça. – disse Rodrigo. – então quer dizer que todo o cara que leva pratos no restaurante fica zen?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu o ignorei e liguei meu mp4 na tomada ali perto. Gosto de poder ignorar todos os sons, e é mais fácil fazer isso quando todos os sons de fora são superados pelo som do fone. Isabela foi pra sala e pegou um livro na estante. Fiquei lavando a louça e pensando no que Felipe disse. Não pareceu absurdo pra mim. Talvez negativo, mas não deixava de ser lógico. De qualquer maneira, José precisava de nós, então não deveria nos danificar. Eu também não sentia raiva dele. Mas não por me desprezar. Claro que eu tenho meu lado negro, meu demônio interno, mas eu só estava de bem com a vida. Não tinha como eu odiar qualquer pessoa. De qualquer forma eu estava preocupado.&lt;br /&gt;Passei pela sala e Isabela estava ocupada. Ela mergulhou num livro de cabeça e eu não quis interromper. Lembrei dos livros que perdi na estrada. Eram ótimos...&lt;br /&gt;Fui pra sala com as telas e computadores. José estava com Augusto, Rodrigo e o sargento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porque você não matou todos logo com essas armas? – perguntou Augusto.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não tem como. Eles não aparecem mais no campo de visão das câmeras. – respondeu José. – parece que eles perceberam isso. O Jumper só apareceu na frente da câmera uma vez, que foi quando ele atacou aquele moleque lá.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que porra é essa de Jumper? – disse o sargento.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; São aqueles monstros que saltam nas arvores.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; De onde você tirou esse nome?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É como eles os nomearam, os americanos chamavam eles assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;José nos mostrou vídeos desse Jumpers atacando diversas cidades através do mundo. Todos eram registros de destruição em cidades de países pobres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eles formaram uma equipe de extermínio de Jumpers. Descobriram que essas criaturas são atraídas hipnoticamente por esferas que se formam no cérebro dos infectados. Quando eles removeram uma esfera no campo, um Jumper invadiu, roubou a esfera e fugiu. Filmaram ele comendo a esfera e explodindo. Parece que quem quer que tenha criado isso não tinha a intenção de se auto-destruir. Essas coisas têm um ponto fraco.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tenho uma dessas esferas comigo – disse eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olharam pra mim surpresos. Não perceberam que eu estava li.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eis aí um motivo para ele se arriscar a entrar no campo de visão da minha metralhadora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parecem tanto com Felipe, esses Jumpers. Eles vivem evitando sistematicamente os riscos, são inteligentes. Mas aí se deparam com algo que os destruirá de dentro para fora e perseguem essa coisa. Querem se implodir. As pessoas realmente me confundem. Buscam sua própria destruição e pensam que isso é o melhor a se fazer. Como isso pode ser bom? Mas como eu posso imaginar conhecer o outro se nem a mim eu conheço? Se eu sou uma distante e embaçada imagem, como posso querer entender o outro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Então é por isso que ele estava até dormindo com essa mochila nas costas. Mostra aí a esfera. – disse Rodrigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saí do quarto imerso em pensamentos e voltei pra sala. Isabela fechou o livro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tudo bem com você? – disse ela&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não pareço bem?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É que até um minuto atrás você parecia tão alegre.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu só to abismado. Sei lá.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não fica assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isabela me abraçou. É tão pequena em relação a mim. A cabeça dela fica no meu peito. Parece que o ar saindo das narinas dela entra diretamente em mim. Dá calafrios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ô Roberto. Ta planejando o casório aí? Bora, porra! – disse Rodrigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abri minha mochila e tirei a esfera de lá. Estava quente. Deixei cair no chão. Ela foi rolando e Rodrigo correu e a parou com o pé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não é pra estragar a parada, né?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ta quente, porra. Não enche.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Hehe. Isso porque o sargento elogiou sua educação. Você é uma farsa.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Certo, certo. Leva lá essa esfera. Não quero saber dela.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Esfera... Não é mais fácil falar bola?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É, é. Parabéns. Boa sorte na sua investigação científica e classificação semântica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rodrigo murmurou alguma coisa. Acho que me chamou de idiota. Tanto faz. Fui pro sofá e me deitei com Isabela. Era um sofá cama. Abrimos e nos deitamos. Felipe saiu da sala com um livro e foi para a cozinha. Era um livro enorme. Isabela deitou com a cabeça no meu peito. Ela acabou dormindo. Sempre pegava no sono quando estava abraçada quieta comigo na cama. Ela adora isso. O olhar voltou ao estado tranqüilo de antes. Olhando pra ela daquela maneira eu esquecia de tudo. Parecia tudo tão tranqüilo nos olhos dela. Vai ver eu a salvei acidentalmente pra ela me salvar acidentalmente. Vai ver não foi acidente. De todas as maneiras, é bom. Acabei dormindo também.&lt;br /&gt;Anjos são o que precisamos. Anjos para contrabalançarem os demônios de dentro. Encontrei um. Talvez o anjo tenha me encontrado. Que diferença faz? O mundo está caindo aos pedaços e meus fragmentos se aproximam. É tortuoso, o caminho da vida...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4664356695252564512-4648441193078872956?l=biohazardalimpeza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://biohazardalimpeza.blogspot.com/feeds/4648441193078872956/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4664356695252564512&amp;postID=4648441193078872956' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4664356695252564512/posts/default/4648441193078872956'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4664356695252564512/posts/default/4648441193078872956'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://biohazardalimpeza.blogspot.com/2009/11/capitulo-13.html' title='Capítulo 13'/><author><name>Silas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08560610846360060486</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/ScXDtIGMN9I/AAAAAAAAABQ/YF39-2VxJ3k/S220/zumbi.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/SviVufuODUI/AAAAAAAAASs/N3pOz5TthYo/s72-c/rosto_deusa%28blog%29.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4664356695252564512.post-319612737709328176</id><published>2009-11-06T06:06:00.001-08:00</published><updated>2009-11-06T08:59:35.294-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Capítulo 12'/><title type='text'>Capítulo 12</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/SvQtmyYhzWI/AAAAAAAAASc/6x9kUTI3YuU/s1600-h/mascara_sangue.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/_pfvVsIOlPYM/SvQtmyYhzWI/AAAAAAAAASc/6x9kUTI3YuU/s400/mascara_sangue.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Eles pensam que tudo é um jogo. Brincam de viver e com a vida alheia. E ninguém gosta de jogos em que há regras demais. Isso destrói a diversão. A brincadeira é cegar o mundo. Afinal, gente cega pede esmola com mais facilidade do que gente que tem visão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jack acordou no horário habitual: seis da manhã. Desmaiou e passou a noite inteira na entrada do vestiário do campo. Levantou-se rápido e pegou sua arma ao perceber um berro distante. Um berro que o mostrou que suas ultimas memórias eram reais e não mais apenas um pesadelo.&lt;br /&gt;Ele pegou sua sub-metralhadora e subiu pelas escadas. Estava todo doído, mas não quebrou nenhum osso. Ele sempre teve ossos resistentes.&lt;br /&gt;Ele subiu e viu uma cena no mínimo peculiar. Dois Jumpers estavam brigando. Não era uma briga que parecia séria, porque eles só usavam as mãos para dar tapas um no outro. Segundo o relatório, eles costumam usar joelhos e cotovelos, com preferência pelos cotovelos. Jack mirou num dele de deu uma rajada. Ele aprendeu A atirar daquela maneira quando se alistou para os serviços especiais. Um tiro no peito e outro na cabeça. O monstro caiu e não levantou. Imediatamente o outro pulou na direção de Jack, a despeito de estar de costas para ele no momento do disparo. Ele soube exatamente para onde pular e com quanta força par cair justamente onde Jack estava. Por um momento pareceu que ele sabia sobre Jack, mas não fez nenhum sinal porque queria o outro Jumper morto ou ao menos ferido. Estranho saber que tais criaturas não cooperam umas com as outras.&lt;br /&gt;Jack se esquivou do ataque do monstro e tentou atirar neste, que também se esquivou. O monstro se aproximou e começou a tentar acertá-lo com os cotovelos, ao que Jack se esquivou com relativa facilidade, pois bastava tomar distancia. O monstro pulou e desceu com os cotovelos na direção de Jack. Havia um corrimão ali, então ele teve que se esquivar para o lado. O corrimão de ferro amassou. Nesse momento ele acertou um tiro no joelho do monstro, o que não pareceu impedi-lo de dar saltos, embora fossem mais curtos. Ele pulou em fuga e desceu para a escada que leva ao vestiário, onde Ele não tinha ângulo de tiro. Começou a berrar. O grito dele era muito mais alto do que uma corda vocal consegue. Na verdade era mais alto que um megafone. Ele ecoava por todo o estádio. Jack se aproximou do monstro e mirou a arma nele, ao que ele pulou e se esquivou com dificuldade. Depois de alguns instantes, Jack pôde ouvir uma multidão de monstros chegando até o estádio. Parece que os Jumpers possuíam uma habilidade que não constava no relatório. Ele acertou uma rajada e matou o Jumper.&lt;br /&gt;A multidão surgiu vinda apenas por uma das entradas do estádio. Nem ao menos um entrou pela outra. Jack correu para o outro lado do estádio pulando alguns bancos. Os infectados caíam ao tentar fazer o mesmo. Ele saiu do estádio e viu ao longe um carro vindo. Passaria em frente ao estádio. Os monstros estavam vindo e ele não tinha tempo, então se jogou da passarela que o levaria à rua. Caiu no chão e se agachou e depois deu uma espécie de cambalhota no chão. Ele sabia cair de grandes alturas. Correu até a beira da rua acenando. O carro parou e ele entrou. A mulher soltou o cinto de segurança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ronald! – a mulher gritou e saiu do carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mendigo que estava deitado escondido no estádio correu ao encontro dela. Será que ela não entendeu que ele estava infectado? Jack gritou, mas já era tarde demais. Em instantes o infectado estava mordendo o ombro dela e o sangue escorria pelo ombro. Ela não gritou. Só fez um som mudo e o abraçou enquanto ele a destruía. Ela sorriu. Como isso é possível?&lt;br /&gt;Um helicóptero apareceu entre os prédios. Parecia ter decolado recentemente, pois estava subindo. Um jumper tentou pular até ele de um prédio, mas alguém jogou algo contra ele. Ele apanhou e caiu. No chão, com as pernas quebradas, o monstro se arrastou até o objeto que caiu de sua mão no momento da queda. Ele o engoliu avidamente. Não era possível ver o que era. Depois de instantes, ele explodiu.&lt;br /&gt;Aparentemente há uma forma de destruir Jumpers. Ou melhor, uma maneira de fazê-los destruírem a si mesmos. O estranho é que esses monstros pareciam inteligentes demais para simplesmente comerem algum tipo de veneno sem nenhum escrúpulo.&lt;br /&gt;O helicóptero parecia estar saindo do escritório regional da Interpol. Talvez por lá a equipe de Jack ainda estaria segura.&lt;br /&gt;No caminho, a rua estava bloqueada por vários carros batidos. No meio deles se destacava um caminhão de forças especiais da polícia. Havia um infectado preso ali dentro. Outros infectados logo chegariam ali e Jack estava quase sem munição. O carro estava com a chave na ignição e poderia quebrar a passagem. Pareceu estranho alguém ter simplesmente o abandonado. Quase proposital.&lt;br /&gt;Ele abriu a porta de trás onde os policiais geralmente eram transportados e o monstro saiu imediatamente. Ele correu para entrar no carro e o monstro o perseguiu. Ele tropeçou num corpo enquanto corria e caiu pronto para acertar o monstro. A criatura saiu com o usual desespero, mas não o atacou. Alguma coisa fez o monstro ficar totalmente vidrado. Jack se levantou e percebeu a situação: O monstro estava olhando para o retrovisor do carro. Totalmente hipnotizado por sua própria imagem. Teria ele consciência de si mesmo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Hey! – gritou Jack&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O monstro não respondia. Ele deu um tiro na cabeça do monstro e o sangue se espalhou pelo vidro do carro. Uma cena que o chocou profundamente. Realmente foi algo estranho, porque ele já havia visto cenas muito mais violentas. Jack começou a ter um ataque de pânico diante da imagem do sangue na janela. Caiu sentado no chão e só voltou a si quando ouviu a multidão se aproximando. Ele se levantou e entrou na parte traseira do carro. Pegou duas metralhadoras e entrou no carro. Enquanto dirigia, os monstros o perseguiam. Mais e mais deles surgiam em cada esquina. Era realmente uma multidão. Certamente o carro não teria força para se mover se estivesse cercado, então ele não podia parar. Não importava o quanto ele acelerava, a multidão sempre estava cada vez mais e próxima. Sua crise de pânico não havia passado. O sangue na janela o fez gritar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Caralho, eu quero ir pra casa!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era estranho para ele falar português, já que só passou cinco anos morando no Brasil, mas ainda assim foi a linguagem que surgiu. Também era estranho ele dizer que queria ir pra casa porque ele realmente nunca teve casa. Desde os nove anos de idade ele se mudou por quatro países e, dentro desses, morou em diversos lugares. Ele ficou tão habituado a não ter um lar que escolheu esse trabalho para não ter que se fixar em algum lugar.&lt;br /&gt;Ele estava ficando tonto, não respirava direito. Ele virava nas esquinas instintivamente. No fundo, por algum motivo, ele pensava que virando nas esquinas certa ele chegaria finalmente em casa. Mas a verdade é que ele nem sabia ao certo onde estava. Ele estava fincando mais distante do seu destino original, e quando se deu conta disso virou bruscamente com o caminhão e entrou num prédio.&lt;br /&gt;O prédio era cheio de espelhos. Ele ficou com um sentimento horrível dentro de si. Um impulso o mandando ir para casa que não se calava de qualquer maneira. Não conseguia se mover direito. Quando ouviu as pegadas da multidão e os gritos ele se escondeu na recepção. Havia uma mulher viva ali, e ela tentou golpeá-lo com uma caneta, ao que ele ele a segurou com facilidade. Era pequena.&lt;br /&gt;Os monstros entraram no prédio e ficaram parados diante do espelho. A multidão que seguia começou a derrubar aqueles que estavam na frente e uns pisavam sobre os outros. Começaram a se amontoar e Jack sabia que era impossível sair dali. Mas ele tinha que ir pra casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Droga, eu tenho que ir pra casa!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu também. Deixei meu gato no meu apartamento.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Seu gato? Você não tem gente mais importante pra te preocupar?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Meu gato é melhor do que todas as pessoas que eu já conheci.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; E seus pais?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que pais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouviu-se no ambiente um grito assustador. Jack o reconhecer. Era um Jumper convocando infectados. Todos correram, e os pisoteados foram progressivamente se levantando e correndo atrás da multidão e do grito. Jack teve pena de quem quer que tivesse que enfrentar aquilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Por favor, você tem que me levar em casa. – disse a mulher.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Qual é o seu nome?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É Kimberly. E o seu?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Jack.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Por favor Jack. Eu tenho que ir pra casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela frase o moveu profundamente. “eu tenho que ir para casa”. Ele começou a agir sem pensar. Levantou-se e puxou o braço de Kimberly até o caminhão. Ele ainda estava ligado.&lt;br /&gt;Começou a dirigir pelas ruas e se deu conta de que estavam vazias. O grito do jumper não parava. Os monstros que surgiam corriam atrás do grito e ignoravam o carro completamente. Jack parou o carro e colocou a cabeça no volante. Sua respiração estava muito acelerada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Caralho, eu quero ir pra casa!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Em que língua você está falando?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pra casa. Eu tenho que ir pra casa!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu também. Por favor, você é o único que pode me ajudar a ir pra minha casa. Não quero ficar aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O impulso ativo voltou sobre Jack. Ele tinha que levar Kimberly para casa de qualquer maneira. Nem sabia bem o motivo disso, mas era uma vontade forte demais para se controlar. Mas forte do que ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vai avisando em que ruas eu tenho que virar. É longe daqui?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não é. Muito obrigada, Jack. Como posso te agradecer?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Chegando em casa. É isso que eu quero. Que você chegue em casa. Pessoas precisam ter uma casa.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O que? Vira agora à esquerda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela instruiu Jack, que parecia dirigir com uma perícia nunca antes vista por ele. Nem imaginava o que poderia estar motivando tal atitude. Realmente a casa dela era próxima. O grito do Jumper parou.&lt;br /&gt;Ele saiu com a metralhadora na mão. Ela morava num prédio de cinco andares. Meio velho. Provavelmente não podia pagar algo melhor. Lá dentro se encontraram com alguns infectados. Jack os matou muito rapidamente. Não sabia como seus reflexos haviam se tornado tão rápidos.&lt;br /&gt;Ela morava no segundo andar. O gato estava exatamente no primeiro lugar em que ela foi procurar. Debaixo de sua cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quando faz muito barulho lá fora ele se esconde aqui. – disse ela.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Qual é o nome dele? – disse Jack sem saber bem porque se interessou.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É Cat.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você chama seu gato de Cat?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sim. Acho que é bem prático. Então, para onde nós vamos?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não estávamos indo para sua casa? Aqui estamos.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Aqui não é seguro. Além do mais, minha casa é onde o Cat estiver. E a sua casa, é segura?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu não sei. A minha casa sempre fuge de mim! Ah merda!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jack derrubou uma cadeira, o que atraiu um monstro. Ele matou o infectado com facilidade. Um tiro na testa. Ele começou a chorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Onde você estava indo antes de bater no prédio?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu não sei. Eu só fiquei virando qualquer esquina porque por algum motivo eu achei que assim eu encontraria a minha casa.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você é de onde?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu não sei. Já morei em vários locais do Brasil, da Austrália, da Inglaterra, dos Estados unidos. Eu moro nesse planeta. Isso. Nesse planeta.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas você não tem nenhum lugar para onde ir?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu ia para o escritório regional da Interpol?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você é um agente secreto?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que? Não, isso é coisa de filme. Os agentes da Interpol apenas atuam na presença de crime internacional e para o auxílio da polícia local. Eu estava atrás de um terrorista.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ele que começou isso?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Foi um ataque coordenado em massa. Ele foi um dos agentes, mas definitivamente não o único.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Então vamos para o escritório regional?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não sei. Dentro de mim algo me diz para não ir até lá.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Vai ver você só está assustado.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É. Deve ser. Vamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles desceram pela escadaria do prédio. Um grupo de dez infectados estava na rua. Ele atirou na cabeça de três e os outros vieram correndo para o prédio. Esperou eles formarem uma fileira na entrada e matou um de cada vez com tranqüilidade. Perder a calma é perder a vida quando se vive num mundo assim.&lt;br /&gt;Foram até o caminhão e ele começou a dirigir. O gato parecia assustado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ele tem medo de andar de carro. – disse Kimberly.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora ele sentisse que devia ir para outro lugar, seguiu para o escritório regional. Na entrada ele viu uma mascara jogada no chão perto de uma poça. O lugar estava repleto de corpos fuzilados. Ele reconheceu um colega de trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Porra, pra onde nós vamos?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tem alguma idéia?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu quero ir pra casa.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas você disse que não tem casa. Do que você está falando?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Eu sei pra onde tenho que ir.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Então vamos, dirige. O tanque está cheio.&lt;br /&gt;Ele começou a dirigir. Estranhamente, sua “intuição” o levou de volta ao caminho original que ele estava ignorando. Era como um GPS. Foi virando esquinas sem pensar e acabou diante de uma rua na qual se amontoavam milhares de corpos. Um helicóptero começou a sobrevoar a área ao perceber a presença do carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Saiam do veículo com as mãos na cabeça. – disse um homem com um megafone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles saíram com as mãos na cabeça. Jack estava com as duas metralhadoras presas nas costas pelas bandoleiras. Dois homens mascarados saíram de um beco. Jack rapidamente se preparou para atirar, ao que eles também apontaram suas armas para ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Abaixe a arma!&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tudo bem! Pensei que estavam infectados. – disse Jack ao abaixar a arma.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Algum de vocês está com alguma ferida de qualquer espécie?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não senhor. Sou um oficial da Interpol.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É, é. Todo mundo é super agente ultimamente. Atravessem essa rua cheia de cadáveres e encontrarão abrigo.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Onde?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Anda, porra! Vai descobrir quando chegar lá!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dois foram andando. Cat arranhou o peito de Kimberly, que quase o largou no chão. Ele estava assustado. Havia sangue escorrendo para os bueiros. Era mais escuro do que o normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Seu impulso de ir pra casa acabou? – perguntou Kimberly para puxar assunto.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você acha que eu sou maluco?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não. Só que está em choque.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Em choque? Eu já fui pra guerra. Não me diz o que é estar em choque.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Desculpa, é que você parece estar muito nervoso.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Certo, certo. E não, meu impulso não acabou. Estou seguindo ele agora mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles chegaram no fim da rua onde havia uma grande faixa que dizia: “campo de refugiados da América do sul”. Um lugar enorme com uma pista de decolagem e pouso de aviões. O impulso de Jack parou de atormentá-lo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width=
