quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Capítulo 5

- Porra, eu nem devia estar aqui. – disse o sargento enquanto fumava no telhado do mercado – que merda...

- Esse deveria que as pessoas ficam proclamando não existe. O que deveria ser não é. As coisas são o que são. – disse eu.
- Ta falando comigo de novo, é?
- Independente de nossas diferenças, nós precisamos cooperar. Estamos sujos e precisamos de água. As casas estão todas vazias e nós temos que conseguir mais água pra isso. Aqui agora nós só temos água potável, e essa não pode ser desperdiçada. O suprimento de água foi cortado e, além disso, precisamos juntar combustível se pensamos e sair daqui.
- Porra, mas vocês não aceitam minha autoridade. Se a gente sair vai cada um pra um canto e vai dar merda. Hierarquia não existe atoa.
- Nós podemos planejar grande parte das nossas ações e, la fora, em caso de imprevistos, te obedecemos por sabermos que em situações de combate você possui mais experiência. Isso não quer dizer que estamos sob seu comando.
- Beleza então.
- Mas me diz, porque você acha que não devia estar aqui?
- Você acha que devia estar aqui?
- Sei lá. Só sei que estou. Inferno do caralho.
- É a vida...

Augusto subiu no telhado e logo depois dele os outros dois soldados estavam conosco. Eliminamos algumas dezenas deles que ainda circulavam em torno do mercado. Havia uma criança pequena totalmente mutilada, e aquilo me impediu de atirar. Fiquei olhando para aquilo e já não podia me manter neutro. O ódio tomou conta do meu ser.
Eliminamos todos os monstros em redor e saímos. O carro só tinha duas portas, então o vidro de trás foi quebrado. Decidi ir dentro do porta-malas pra matar os que vinham no perseguindo. Augusto me ensinou a usar o fuzil e percebi que não era assim tão difícil. Eu só tinha dificuldade porque não o posicionava corretamente.
Pela primeira vez eu olhei para aquela arma e senti um anseio. Ela me atraia profundamente.
Isso sempre me pareceu um clichê agressivo. Sempre pensei que eu não era agressivo a ponto de me interessar dessa maneira por uma arma. Isabela veio se despedir de mim.

- Vá até o fundo do abismo, até o mais profundo inferno. Mas volte. Volte pra mim.

Eu não soube responder, mas dei nela um abraço forte. De certa forma isso me acalmou, mas eu ainda tinha ódio no coração. Seria necessário eu direcionar tal ódio para que o que há de bom (se é que sobrou algo) pudesse fluir para as pessoas próximas.
Ao passarmos pela rua eu vi o moleque mutilado jogado no chão. Acertaram a cabeça dele por trás e a bala atravessou por seu rosto. Nem sei bem dizer o que eu senti. Ódio, repulsa, desespero. Não tenho nenhuma fonte, nenhum meio de comunicação. Mas definitivamente preciso saber como foi que tudo isso começou. No fundo só estou procurando alguém para culpar. Para descarregar meu ódio.
Avançamos segundo o plano por toda a vila em velocidade relativamente alta e saíram alguns monstros de casas. Pularam pelas janelas, às vezes as do segundo andar. Acho que ignoram totalmente o que venha a ser dor.
Atirei nos que me perseguiam e senti prazer. Sim, eu senti um imenso prazer em destruir aquelas criaturas abomináveis. Eu que pensei que deveria sempre me manter escondido estava agora os exterminando.

- Aaahh! Morre filho da putaa!
- Caralho! Hahaha! Olha o Roberto cheio de ódio!

As risadas deles não me afetavam. Num ponto da rua que ficava em frente à praia havia um ônibus tombado e tivemos que parar. Matei, nessa parte, mais de dez que surgiram pela retaguarda do carro. Estavam longe, mas acertei a cabeça de quase todos. Num deles acertei a perna, ao que ele levantou e começou a corre mancando. Acertei a outra e ele começou a se arrastar com o desespero que é peculiar aos monstros. Acertei um dos braços e ele continuou se arrasastando só com um braço, mas também usando o abdômen para se locomover. Abri o porta-mala e saí só com uma pistola.

- Volta pro carro, porra. Caralho Roberto volta pro carro. Ta vindo uma porrada pelo beco aí do lado caralho!

Eu estava cego. Tirei a faca que estava guardada num espaço próprio para ela na minha canela e comecei a correr. Nunca corri assim na minha vida. Eu parecia um desses monstros. O carro deu ré e os três soldados começaram a atirar na direção do beco, do qual saíram mais de cem. Eu os ignorei completamente e cheguei até o zumbi que eu havia derrubado. Dei um tiro no outro braço dele, e ele simplesmente não sangrava. Era como se seu sangue estivesse totalmente coagulado. Chutei a cabeça dele com toda a minha força, ao que ele ficou de barriga pra cima. Dei um tiro na barriga dele e depois me virei pro lado. Havia uns seis deles vindo em minha direção porque a pistola não tinha silenciador. Acertei dois e Augusto matou os outros.

- Volta Roberto. Porra, ta maluco! Caralho!

Enfiei minha faca no pescoço do zumbi, ao que ele diminuiu suas tentativas de se mover. Comecei a esfaqueá-lo compulsivamente. Não havia circulação e o sangue não espirrava. Mutilei o corpo daquele monstro até perder o fôlego e nesse ponto todos os monstros que vieram dos becos estavam mortos. Sargento, Augusto e os soldados estavam me olhando. Não estavam confusos e nem surpresos. Neles havia um olhar vazio. Aquilo os afetou profundamente. Parece que eles me entendiam e se identificavam comigo. Meu desespero, meu ódio. Naquela situação, que não estaria assim. Talvez todo o ser humano seja uma besta em potencial. Até eu, que me gabava de ser civilizado e de ter controle sobre mim mesmo fui totalmente dominado. Até voltarmos para o mercado eu não disse mais nenhuma palavra. Limpei a faca, entrei no porta malas e ignorei o que falavam comigo por uns instantes.
Passamos nas hospedagens e pegamos colchões, travesseiros, roupas. Havia uma picape abandonada ali. Augusto percebeu que ela estava com a bateria descarregada. A porta estava aberta e a chave na ignição, então provavelmente alguém estava tentando fugir com o carro, o que foi inútil.
Ficamos ali por um tempo. Apesar de não falar nada, eu os ouvia e ajudei a pegar coisas úteis. Achamos alguns galões cheios de água potável numa sala onde vi uma cena que nunca vou esquecer.
Quatro guardas estavam ali escondidos. Estavam com armas nas mãos e com marcas de tiro na cabeça e no queixo. Se mataram ali mesmo. Fiquei um tempo olhando aquela cena e depois peguei as armas deles. Estavam todas carregadas só faltando uma bala em cada com exceção de uma, que só tinha uma bala. Nesse cadáver, as balas estavam na cintura numa espécie de cinto. Peguei as balas e tratei de recarregar a arma. Coloquei tudo numa mochila.
Havia um notebook nessa mochila e três baterias idênticas. Testei duas e estavam totalmente usadas. A que estava lá estava pela metade e a outra estava carregada. Talvez eu consiga recarregá-las no gerador do mercado.
Levei um galão e a mochila para a picape. Augusto tirou a bateria de um carro destruído que estava por ali. Talvez seja importado, porque não reconheço qual é. Ou talvez ele só esteja destruído demais para ser reconhecido. Sei lá, tanto faz.
Augusto e eu fomos na picape e o Sargento foi no carro com os outros. Segundo planejamos, passamos pelo colégio e tentamos retirar o sinal para usar com a bomba. Estava num ponto alto e precisamos sair em busca de uma escada. Por sorte, havia um carro da light ali.

- Sabe o que é estranho, Roberto?

Não respondi, mas ele continuou porque olhei pra ele.

- Pensa só nessa merda. A luz da minha casa acabou lá pra sete horas antes de eu ver algum zumbi. Essa porra desse carro já tava aqui antes da invasão. Mas não teria sido a própria invasão que destruiu o sistema elétrico a exemplo dessa usina. Cara, essa porra só pode ter sido planejada. O foda é o que você disse esses dias. Não tem como ser um vírus, porque o organismo está sem circulação e essas coisas estão a muito tempo sem comer. Caralho, maluco, parece que isso é o fim do mundo, puta que o pariu. Ta quieto porque?

Fitei-o com um olhar meio deprimido e desesperado e ele me entendeu. Suspirou de forma meio disfarçada. Saímos e colocamos a escada na picape. Fui segurando a escada enquanto ele dirigiu. Conseguiram pegar o sinal e Augusto conseguiu ligar o dispositivo a uma bateria e fez funcionar.
Passamos pelo hospital e matamos alguns zumbis que saíam. Pela quantidade de sangue que havia na porta e perto da entrada eu preferi nem entrar. Não saberíamos usar as coisas dali, de qualquer maneira.
Descarregamos os suprimentos no mercado e voltamos mais algumas vezes pelas casas. Pegamos água e outros alimentos para estoque, além de gás e toda a água que encontramos.
O ambiente era aterrorizante.
Bloqueamos a entrada da vila e usamos um dos explosivos para detonar os monstros que estavam no valão presos. Haviam corrido, dentro do valão, para uma região mais próxima ao mercado. Provavelmente atraídos pelos sons. Perto da entrada pela qual viemos a cerca estava da forma como a deixamos. Trancamos a entrada, mas sei que não poderá segurar os monstros. A outra entrada estava com um caminhão tombado que impedia a passagem de carros. Estava tudo destruído e duvido que, mesmo andando, seja possível passar por ali.
Por hora estávamos seguros. Ou não: nesse ponto nós quase não tínhamos mais munição. Gastamos muita.

- Não tem erro não. Tenho certeza que tombaram um caminhão mais à frente na estrada. A gente cata as armas. – disse o sargento.

Passamos na minha casa e decidi pegar meus livros. Meu padrasto ainda estava vivo. Ou morto. Sei lá. Tava tentando se soltar. Parece que amarrei bem mesmo. Peguei alguns com a mesma alegria que tive no momento que os comprei. Em especial, o Fausto de Goethe. Eu nem tinha lido esse livro. Abri e dei uma folheada. Li o nome Mefistófeles. Sabia que já vi esse nome em algum lugar. Peguei meu notebook e coloquei na mochila. Olhei-me no espelho do banheiro. Cheio de poeira. Nem acredito que tanto tempo já se passou. Tirei a barba escrota que tava no meu rosto com o prestobarba enferrujado.
Fiz uma mala com minhas roupas e com umas da minha irmã pra Isabela. São mais ou menos da mesma altura.
Saí de casa e voltamos para o mercado. Isabela fez uma cama pra mim. Estava passando a mão na roupa de capa pra tirar a poeira. Na verdade era uma cama de casal. Ela estava deitada lá, mas quando me viu se levantou.

- Tudo bem com você, Roberto?

Não respondi, mas dei nela outro abraço profundo. Sem a minha autorização, uma lagrima correu pelo meu rosto.
Minha roupa estava suja de sangue, então ela escolheu uma camiseta e um short pra eu vestir. Passou pano com álcool no meu corpo (era como nos limpávamos) e nos deitamos.
Ficou escuro e estávamos quase sem combustível para o gerador, além de ele fazer muito barulho, por isso o desligamos. Liguei o notebook que achei na hospedagem e descobri que estava formatado. Só um arquivo existia ali. Tava em txt, porque não tinha nenhum Office na maquina. O nome era: carta para minha mãe.

Na verdade só no começo o texto era uma mensagem. Era enorme e começou a se tornar um diário. Ele ficou preso num quarto da hospedagem só com a água que tinha no frigobar. Era o dono da picape. Nem era pra ele estar aqui. Foi uma viagem à trabalho. Várias confissões sobre erros do passado, sobre sentimentos que ele não queria admitir que eram reais. Suas dúvidas de fé, seu desespero. Tudo naquela tela. No final ele escreveu algo que quero deixar registrado.

“Maria Arlinda dos santos. Esse é o nome da minha mãe. Se você não é minha mãe e está lendo isso é porque estou morto. Jamais eu permitiria que alguém além dela lesse isso. Eu vou sair agora. Quero pegar minha picape e ir pro mercado. Se eu não for agora vou morrer de fome. Se isso for possível, entregue isso para ela.”

Parece que ele chegou na picape. Provavelmente deixou a mochila com o notebook caírem. Não conseguiu escapar, parece. Nem quis imaginar o que houve com minha família... Comecei a chorar, e me senti débil. Isabela estava me olhando e eu não queria que ela me visse assim. Tive vergonha.
Ela me abraçou e me deitou na cama. Tirou o notebook de mim e desligou. Na falou nada, apenas me abraçou e eu peguei no sono. Nunca pude imaginar que eu pudesse dormir com tanta facilidade.

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