sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Capítulo 12


Eles pensam que tudo é um jogo. Brincam de viver e com a vida alheia. E ninguém gosta de jogos em que há regras demais. Isso destrói a diversão. A brincadeira é cegar o mundo. Afinal, gente cega pede esmola com mais facilidade do que gente que tem visão.

Jack acordou no horário habitual: seis da manhã. Desmaiou e passou a noite inteira na entrada do vestiário do campo. Levantou-se rápido e pegou sua arma ao perceber um berro distante. Um berro que o mostrou que suas ultimas memórias eram reais e não mais apenas um pesadelo.
Ele pegou sua sub-metralhadora e subiu pelas escadas. Estava todo doído, mas não quebrou nenhum osso. Ele sempre teve ossos resistentes.
Ele subiu e viu uma cena no mínimo peculiar. Dois Jumpers estavam brigando. Não era uma briga que parecia séria, porque eles só usavam as mãos para dar tapas um no outro. Segundo o relatório, eles costumam usar joelhos e cotovelos, com preferência pelos cotovelos. Jack mirou num dele de deu uma rajada. Ele aprendeu A atirar daquela maneira quando se alistou para os serviços especiais. Um tiro no peito e outro na cabeça. O monstro caiu e não levantou. Imediatamente o outro pulou na direção de Jack, a despeito de estar de costas para ele no momento do disparo. Ele soube exatamente para onde pular e com quanta força par cair justamente onde Jack estava. Por um momento pareceu que ele sabia sobre Jack, mas não fez nenhum sinal porque queria o outro Jumper morto ou ao menos ferido. Estranho saber que tais criaturas não cooperam umas com as outras.
Jack se esquivou do ataque do monstro e tentou atirar neste, que também se esquivou. O monstro se aproximou e começou a tentar acertá-lo com os cotovelos, ao que Jack se esquivou com relativa facilidade, pois bastava tomar distancia. O monstro pulou e desceu com os cotovelos na direção de Jack. Havia um corrimão ali, então ele teve que se esquivar para o lado. O corrimão de ferro amassou. Nesse momento ele acertou um tiro no joelho do monstro, o que não pareceu impedi-lo de dar saltos, embora fossem mais curtos. Ele pulou em fuga e desceu para a escada que leva ao vestiário, onde Ele não tinha ângulo de tiro. Começou a berrar. O grito dele era muito mais alto do que uma corda vocal consegue. Na verdade era mais alto que um megafone. Ele ecoava por todo o estádio. Jack se aproximou do monstro e mirou a arma nele, ao que ele pulou e se esquivou com dificuldade. Depois de alguns instantes, Jack pôde ouvir uma multidão de monstros chegando até o estádio. Parece que os Jumpers possuíam uma habilidade que não constava no relatório. Ele acertou uma rajada e matou o Jumper.
A multidão surgiu vinda apenas por uma das entradas do estádio. Nem ao menos um entrou pela outra. Jack correu para o outro lado do estádio pulando alguns bancos. Os infectados caíam ao tentar fazer o mesmo. Ele saiu do estádio e viu ao longe um carro vindo. Passaria em frente ao estádio. Os monstros estavam vindo e ele não tinha tempo, então se jogou da passarela que o levaria à rua. Caiu no chão e se agachou e depois deu uma espécie de cambalhota no chão. Ele sabia cair de grandes alturas. Correu até a beira da rua acenando. O carro parou e ele entrou. A mulher soltou o cinto de segurança.

-    Ronald! – a mulher gritou e saiu do carro.

O mendigo que estava deitado escondido no estádio correu ao encontro dela. Será que ela não entendeu que ele estava infectado? Jack gritou, mas já era tarde demais. Em instantes o infectado estava mordendo o ombro dela e o sangue escorria pelo ombro. Ela não gritou. Só fez um som mudo e o abraçou enquanto ele a destruía. Ela sorriu. Como isso é possível?
Um helicóptero apareceu entre os prédios. Parecia ter decolado recentemente, pois estava subindo. Um jumper tentou pular até ele de um prédio, mas alguém jogou algo contra ele. Ele apanhou e caiu. No chão, com as pernas quebradas, o monstro se arrastou até o objeto que caiu de sua mão no momento da queda. Ele o engoliu avidamente. Não era possível ver o que era. Depois de instantes, ele explodiu.
Aparentemente há uma forma de destruir Jumpers. Ou melhor, uma maneira de fazê-los destruírem a si mesmos. O estranho é que esses monstros pareciam inteligentes demais para simplesmente comerem algum tipo de veneno sem nenhum escrúpulo.
O helicóptero parecia estar saindo do escritório regional da Interpol. Talvez por lá a equipe de Jack ainda estaria segura.
No caminho, a rua estava bloqueada por vários carros batidos. No meio deles se destacava um caminhão de forças especiais da polícia. Havia um infectado preso ali dentro. Outros infectados logo chegariam ali e Jack estava quase sem munição. O carro estava com a chave na ignição e poderia quebrar a passagem. Pareceu estranho alguém ter simplesmente o abandonado. Quase proposital.
Ele abriu a porta de trás onde os policiais geralmente eram transportados e o monstro saiu imediatamente. Ele correu para entrar no carro e o monstro o perseguiu. Ele tropeçou num corpo enquanto corria e caiu pronto para acertar o monstro. A criatura saiu com o usual desespero, mas não o atacou. Alguma coisa fez o monstro ficar totalmente vidrado. Jack se levantou e percebeu a situação: O monstro estava olhando para o retrovisor do carro. Totalmente hipnotizado por sua própria imagem. Teria ele consciência de si mesmo?

-    Hey! – gritou Jack

O monstro não respondia. Ele deu um tiro na cabeça do monstro e o sangue se espalhou pelo vidro do carro. Uma cena que o chocou profundamente. Realmente foi algo estranho, porque ele já havia visto cenas muito mais violentas. Jack começou a ter um ataque de pânico diante da imagem do sangue na janela. Caiu sentado no chão e só voltou a si quando ouviu a multidão se aproximando. Ele se levantou e entrou na parte traseira do carro. Pegou duas metralhadoras e entrou no carro. Enquanto dirigia, os monstros o perseguiam. Mais e mais deles surgiam em cada esquina. Era realmente uma multidão. Certamente o carro não teria força para se mover se estivesse cercado, então ele não podia parar. Não importava o quanto ele acelerava, a multidão sempre estava cada vez mais e próxima. Sua crise de pânico não havia passado. O sangue na janela o fez gritar.

-    Caralho, eu quero ir pra casa!!!

Era estranho para ele falar português, já que só passou cinco anos morando no Brasil, mas ainda assim foi a linguagem que surgiu. Também era estranho ele dizer que queria ir pra casa porque ele realmente nunca teve casa. Desde os nove anos de idade ele se mudou por quatro países e, dentro desses, morou em diversos lugares. Ele ficou tão habituado a não ter um lar que escolheu esse trabalho para não ter que se fixar em algum lugar.
Ele estava ficando tonto, não respirava direito. Ele virava nas esquinas instintivamente. No fundo, por algum motivo, ele pensava que virando nas esquinas certa ele chegaria finalmente em casa. Mas a verdade é que ele nem sabia ao certo onde estava. Ele estava fincando mais distante do seu destino original, e quando se deu conta disso virou bruscamente com o caminhão e entrou num prédio.
O prédio era cheio de espelhos. Ele ficou com um sentimento horrível dentro de si. Um impulso o mandando ir para casa que não se calava de qualquer maneira. Não conseguia se mover direito. Quando ouviu as pegadas da multidão e os gritos ele se escondeu na recepção. Havia uma mulher viva ali, e ela tentou golpeá-lo com uma caneta, ao que ele ele a segurou com facilidade. Era pequena.
Os monstros entraram no prédio e ficaram parados diante do espelho. A multidão que seguia começou a derrubar aqueles que estavam na frente e uns pisavam sobre os outros. Começaram a se amontoar e Jack sabia que era impossível sair dali. Mas ele tinha que ir pra casa.

-    Droga, eu tenho que ir pra casa!
-    Eu também. Deixei meu gato no meu apartamento.
-    Seu gato? Você não tem gente mais importante pra te preocupar?
-    Meu gato é melhor do que todas as pessoas que eu já conheci.
-    E seus pais?
-    Que pais?

Ouviu-se no ambiente um grito assustador. Jack o reconhecer. Era um Jumper convocando infectados. Todos correram, e os pisoteados foram progressivamente se levantando e correndo atrás da multidão e do grito. Jack teve pena de quem quer que tivesse que enfrentar aquilo.

-    Por favor, você tem que me levar em casa. – disse a mulher.
-    Qual é o seu nome?
-    É Kimberly. E o seu?
-    Jack.
-    Por favor Jack. Eu tenho que ir pra casa.

Aquela frase o moveu profundamente. “eu tenho que ir para casa”. Ele começou a agir sem pensar. Levantou-se e puxou o braço de Kimberly até o caminhão. Ele ainda estava ligado.
Começou a dirigir pelas ruas e se deu conta de que estavam vazias. O grito do jumper não parava. Os monstros que surgiam corriam atrás do grito e ignoravam o carro completamente. Jack parou o carro e colocou a cabeça no volante. Sua respiração estava muito acelerada.

-    Caralho, eu quero ir pra casa!
-    Em que língua você está falando?
-    Pra casa. Eu tenho que ir pra casa!
-    Eu também. Por favor, você é o único que pode me ajudar a ir pra minha casa. Não quero ficar aqui.

O impulso ativo voltou sobre Jack. Ele tinha que levar Kimberly para casa de qualquer maneira. Nem sabia bem o motivo disso, mas era uma vontade forte demais para se controlar. Mas forte do que ele.

-    Vai avisando em que ruas eu tenho que virar. É longe daqui?
-    Não é. Muito obrigada, Jack. Como posso te agradecer?
-    Chegando em casa. É isso que eu quero. Que você chegue em casa. Pessoas precisam ter uma casa.
-    O que? Vira agora à esquerda.

Ela instruiu Jack, que parecia dirigir com uma perícia nunca antes vista por ele. Nem imaginava o que poderia estar motivando tal atitude. Realmente a casa dela era próxima. O grito do Jumper parou.
Ele saiu com a metralhadora na mão. Ela morava num prédio de cinco andares. Meio velho. Provavelmente não podia pagar algo melhor. Lá dentro se encontraram com alguns infectados. Jack os matou muito rapidamente. Não sabia como seus reflexos haviam se tornado tão rápidos.
Ela morava no segundo andar. O gato estava exatamente no primeiro lugar em que ela foi procurar. Debaixo de sua cama.

-    Quando faz muito barulho lá fora ele se esconde aqui. – disse ela.
-    Qual é o nome dele? – disse Jack sem saber bem porque se interessou.
-    É Cat.
-    Você chama seu gato de Cat?
-    Sim. Acho que é bem prático. Então, para onde nós vamos?
-    Não estávamos indo para sua casa? Aqui estamos.
-    Aqui não é seguro. Além do mais, minha casa é onde o Cat estiver. E a sua casa, é segura?
-    Eu não sei. A minha casa sempre fuge de mim! Ah merda!!!

Jack derrubou uma cadeira, o que atraiu um monstro. Ele matou o infectado com facilidade. Um tiro na testa. Ele começou a chorar.

-    Onde você estava indo antes de bater no prédio?
-    Eu não sei. Eu só fiquei virando qualquer esquina porque por algum motivo eu achei que assim eu encontraria a minha casa.
-    Você é de onde?
-    Eu não sei. Já morei em vários locais do Brasil, da Austrália, da Inglaterra, dos Estados unidos. Eu moro nesse planeta. Isso. Nesse planeta.
-    Mas você não tem nenhum lugar para onde ir?
-    Eu ia para o escritório regional da Interpol?
-    Você é um agente secreto?
-    Que? Não, isso é coisa de filme. Os agentes da Interpol apenas atuam na presença de crime internacional e para o auxílio da polícia local. Eu estava atrás de um terrorista.
-    Ele que começou isso?
-    Não. Foi um ataque coordenado em massa. Ele foi um dos agentes, mas definitivamente não o único.
-    Então vamos para o escritório regional?
-    Não sei. Dentro de mim algo me diz para não ir até lá.
-    Vai ver você só está assustado.
-    É. Deve ser. Vamos.

Eles desceram pela escadaria do prédio. Um grupo de dez infectados estava na rua. Ele atirou na cabeça de três e os outros vieram correndo para o prédio. Esperou eles formarem uma fileira na entrada e matou um de cada vez com tranqüilidade. Perder a calma é perder a vida quando se vive num mundo assim.
Foram até o caminhão e ele começou a dirigir. O gato parecia assustado.

-    Ele tem medo de andar de carro. – disse Kimberly.

Embora ele sentisse que devia ir para outro lugar, seguiu para o escritório regional. Na entrada ele viu uma mascara jogada no chão perto de uma poça. O lugar estava repleto de corpos fuzilados. Ele reconheceu um colega de trabalho.

-    Porra, pra onde nós vamos?
-    Tem alguma idéia?
-    Eu quero ir pra casa.
-    Mas você disse que não tem casa. Do que você está falando?
-    Não. Eu sei pra onde tenho que ir.
-    Então vamos, dirige. O tanque está cheio.
Ele começou a dirigir. Estranhamente, sua “intuição” o levou de volta ao caminho original que ele estava ignorando. Era como um GPS. Foi virando esquinas sem pensar e acabou diante de uma rua na qual se amontoavam milhares de corpos. Um helicóptero começou a sobrevoar a área ao perceber a presença do carro.

-    Saiam do veículo com as mãos na cabeça. – disse um homem com um megafone.

Eles saíram com as mãos na cabeça. Jack estava com as duas metralhadoras presas nas costas pelas bandoleiras. Dois homens mascarados saíram de um beco. Jack rapidamente se preparou para atirar, ao que eles também apontaram suas armas para ele.

-    Abaixe a arma!
-    Tudo bem! Pensei que estavam infectados. – disse Jack ao abaixar a arma.
-    Algum de vocês está com alguma ferida de qualquer espécie?
-    Não senhor. Sou um oficial da Interpol.
-    É, é. Todo mundo é super agente ultimamente. Atravessem essa rua cheia de cadáveres e encontrarão abrigo.
-    Onde?
-    Anda, porra! Vai descobrir quando chegar lá!

O dois foram andando. Cat arranhou o peito de Kimberly, que quase o largou no chão. Ele estava assustado. Havia sangue escorrendo para os bueiros. Era mais escuro do que o normal.

-    Seu impulso de ir pra casa acabou? – perguntou Kimberly para puxar assunto.
-    Você acha que eu sou maluco?
-    Não. Só que está em choque.
-    Em choque? Eu já fui pra guerra. Não me diz o que é estar em choque.
-    Desculpa, é que você parece estar muito nervoso.
-    Certo, certo. E não, meu impulso não acabou. Estou seguindo ele agora mesmo.

Eles chegaram no fim da rua onde havia uma grande faixa que dizia: “campo de refugiados da América do sul”. Um lugar enorme com uma pista de decolagem e pouso de aviões. O impulso de Jack parou de atormentá-lo.

2 comentários:

mirela disse...

Otimo seu livro ja li tudo venho todo di a ver se ja fez o o proximo capitulo :)

so tem um porem se demora de mais pra faze os capitulos kspaosaokskoasoka

viciei ! no seu livro kspaskasa

Silas disse...

=)

Desculpa demorar. É que a criatividade não é uam coisa que a gente controla. Na verdade eu estou mais ativo do que eu esperava.

Agradeço pelos elogios. Entre na comunidade...

Abraços...